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O impacto da transformação digital na Psicologia

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Tempo de leitura: 8 minutos

Novo normal x transformação digital: se adaptar favorece a sobrevivência da espécie

Aceitando uma nova realidade

É improvável imaginar um cenário nesta nova década em que a transformação digital não seja uma realidade.  Um novo paradigma foi criado, desde as novas formas de trabalho, como o home office, quanto o estilo de vida das pessoas foi transformado a partir da inclusão digital. Hoje é comum uma pessoa que busque entretenimento, fazer compras e cultivar relacionamentos pela internet.

Todas essas mudanças, sem dúvida, foram impulsionadas a partir do momento de pandemia vivido, o que não significa que isto já não era uma realidade que estava batendo na porta. O advento de tecnologias como o 4G e a chegada de várias marcas de smartphones, que se encaixam na realidade financeira de grande parte dos brasileiros, se tornaram, por todos os fatores citados, um produto indispensável de se ter.

Tais levantamentos evocam a seguinte questão: Por que o universo digital tomou conta do mercado? Por duas razões, que em um momento podem se apresentar contraditórias, mas são, na verdade, complementares. Comodidade, pois evita-se deslocamento e burocracias tradicionais e adaptabilidade, sendo este um ponto importante a se aprofundar.

Quando falamos de adaptabilidade, logo lembramos de Darwin, criador da teoria evolucionista. Se adaptar é gerar aprendizados que favoreçam a sobrevivência da espécie, na nossa Era da Informação, sobreviver é estar vinculado ao mundo digital, para manter a sua relevância e visibilidade.

Os meios de comunicação são um bom exemplo da adaptação, pois, ou se adaptaram à nova realidade de como as pessoas consomem informação, aprimorando os seus portais de notícias online ou caiam no esquecimento por se manterem no papel impresso, entrando dessa forma, na inevitável extinção.

Por consequência, estamos todos sobre o efeito deste Zeitgeist, ou seja, o espírito do tempo, que remete ao nosso estado social, cultural e intelectual, que construiu esse mundo e estilo de vida que temos hoje. Ninguém está livre desta condição, me refiro tanto a pessoas quanto a instituições e profissões.

Desta forma, chegamos ao ponto de falarmos sobre a saúde, seja pela perspectiva populacional ou empresarial. É constatado que o atual momento, em média, trouxe consequências significativas para a saúde física e mental das pessoas, mas, o que é saúde?

Ao longo da história da ciência, saúde era conceituado como a ausência de doenças, porém, na atualidade, ser saudável é estar em harmonia nos campos bio, psíquico, físico, social, emocional e espiritual. Parece difícil estar em equilíbrio em tantas vertentes, certo? Por conta desta inquietação, vários profissionais ganharam espaço.

Não cabe mais a profissionais da área da saúde falarem apenas das doenças clínicas, pois elas não tocam diretamente no sofrimento que uma pessoa “saudável” esteja passando. Por conta da postura patologizante anteriormente imposta pela ciência, a população desenvolveu estigmas relacionados a profissionais de saúde, criando uma regra informal de se procurar por estes, apenas quando o caso clínico está avançado.

Em contrapartida, com o espaço das redes sociais, profissionais autônomos e empresas inovadoras de saúde, entenderam esta nova realidade e começaram a fazer diferente. O foco no conhecimento e na promoção da saúde, ou seja, ações que levam bem estar a todos, não está no cultuamento técnico de doenças e sim, no processo do sofrimento e adoecimento.

Falar de adoecimento é, acima de tudo, entender como a pessoa está lidando com uma nova condição corporal, autoimagem e autoestima que culmina em vários pensamentos prejudiciais a si próprio e de suas próprias capacidades.

Sendo assim, o adoecimento é falar de problemas reais, do que as pessoas passam, do que elas têm medo, ou de como elas poderiam melhorar e não somente como elas poderiam exterminar o sintoma, como acontece quando se fala apenas de doenças, pois quem procura por doença, busca por cura.

Quais as desvantagens de falar somente da doença?

Abordar assuntos apenas pelo viés da doença, afasta quem não se interessa somente pelo assunto de diagnóstico e não gera uma identificação do leitor com o tema em questão. Porém, falar como certas situações, podem desenvolver consequências para a vida da pessoa e remete ao sofrimento que ela tem passado, atrai assim, maior interesse em conhecer mais sobre o tema.

Podemos exemplificar este comparativo com a quinta doença que mais afastou brasileiros do trabalho de 2012 a 2016 de acordo com documento do Ministério da Fazenda, que são relacionadas ao sistema circulatório, que afastou mais de 400 mil pessoas neste período.

Dentro deste contexto, as pessoas estariam mais interessadas em saber como ocorre uma arritmia cardíaca, explicando detalhadamente que excesso de lipídeos bloqueia a circulação sanguínea adequada, comprometendo o funcionamento do corpo até gerar uma parada cardíaca ou explicando como uma má alimentação tem prejudicado o seu bem estar, seja no âmbito físico ou de sofrimento e, além disso, como se prevenir de outras consequências.

Evidentemente que o segundo exemplo é mais interessante, pois conta sobre problemas palpáveis e reais das pessoas que buscam uma resposta para o seu sofrimento, enquanto a primeira resposta é de maior interesse para outros profissionais da área.

Além disso, o segundo exemplo permite que diversos profissionais de saúde abordem o assunto, pois sobre bem estar físico, educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, médicos e enfermeiros têm o que acrescentar sobre a pauta em questão, por variadas vertentes de análise, fazendo  a diferença para quem esteja lendo. Enquanto, quem ficou preso à narrativa patológica, passa a agregar menos valor às pessoas.

Exemplo na saúde mental

Podemos também fazer esta mesma análise dentro da saúde mental. O Brasil é o país com mais ansiosos no mundo, com 9,3% e o quinto com mais depressivos no mundo, sendo 5,8% da população. Além disso, a segunda maior causa de morte entre 16 e 30 anos é o suicídio e, transtornos mentais, são o terceiro maior motivo no afastamento de trabalho. Dados suficientes para mostrar a importância de cuidar da saúde mental, correto?

Porém, não é isso que a realidade nos apresenta. Uma pesquisa do marketing analysis mostra que apenas 2% dos brasileiros buscam um profissional de saúde mental quando passam por algum problema pessoal significativo. Ou seja, para o brasileiro, a busca por este profissional é levada em consideração caso ele tenha um transtorno mental, quando na verdade, todos têm o direito de independente do desenvolvimento de uma doença, buscar o próprio bem estar.

Tal realidade é de responsabilidade dos próprios profissionais da área, que ainda presos na conceitualização antiga de saúde, não agregam o valor necessário para as pessoas reconhecerem o serviço como importante para si próprio.

Novamente, vale a comparativa. O que é mais significativo? Explicar a origem de um transtorno mental, o que é um transtorno de humor e um transtorno de personalidade, para então dizer o que é depressão ou falar sobre situações e casos reais para que as pessoas possam se sensibilizar com algo palpável e além disso, explicar como de fato, a terapia poderia auxiliar a pessoa que vivencia um sofrimento específico?

A depressão para o senso comum ainda é “frescura” ou “doença de rico” o que claramente, mostra que as pessoas não respeitam as conceitualizações técnicas sobre o assunto, mas trazer a elas exemplos que as remetem ao contato com a realidade, podem sim, despertar em quem passa por sofrimento uma maior motivação para buscar por ajuda e para quem desdenhava uma maior empatia com outros que passam por esta condição, respeitando assim a pessoa com depressão e o profissional responsável para este cuidado.

Assim como no exemplo anterior, o assunto depressão não é mais exclusivo para o profissional de saúde mental, pois um educador físico pode contar como atividades físicas colaboram na ativação comportamental de um paciente, um nutricionista sobre como certos medicamentos de emagrecimento podem desenvolver depressão e um fisioterapeuta como alguém em reabilitação carece de um cuidado especial para aspectos emocionais. Um leque de possibilidades e argumentações.

Falar sobre adoecimento é a adaptação no mundo digital

São estas ações que fazem as respectivas profissões sobreviverem nesse novo mundo, pois, com a ausência das mesmas, soluções alternativas que se vendiam como mais eficazes começaram a surgir. Como por exemplo os coaches, que por um tempo, mesmo não tendo (em certos casos) uma formação acadêmica em saúde mental, ocuparam este lugar, justamente por conter em seu discurso o necessário para atingir o sofrimento e o problema das pessoas. Neste caso, se alguma resposta dos profissionais de saúde não fosse dada, possivelmente o lugar de protagonismo e especialidade no assunto de saúde mental seria invertido.

Foi aprendido durante este processo que os profissionais da saúde, que apesar de todas as implicações que seus Códigos de Ética exigem sobre como estes devem se comportar nas redes sociais, o verdadeiro compromisso com a população é de se apresentar disponivel, ser um representante na promoção a saúde e principalmente, que se apresentar enquanto profissional e mostrar o seu conhecimento, não se configura como propaganda enganosa ou a venda de uma cura.

O impacto das Startups HealthTech

Além destas ações digitais feitas por profissionais autônomos, também temos que considerar as iniciativas de empresas privadas inovadoras,  também chamadas de health tech, que são por essência, startups que visam oferecer alguma melhoria relacionada à inovação tecnológica em saúde, seja voltada para profissionais ou para pacientes.

O surgimento destas empresas profissionalizou a atuação de especialistas na área da saúde dentro do meio digital, pois ofereceu a eles formas menos burocráticas para gerenciar os compromissos profissionais.

Também com o advento destas tecnologias, impulsionou o crescimento de salas de vídeo com interação em tempo real seguindo normas sigilosas para atendimento, abrindo a oportunidade para atendimentos online e a busca por pacientes digitais.

O que era um método de atendimento alternativo, se tornou fundamental para consultas durante o período de pandemia, devido a necessidade de se manter no isolamento social. Pesquisas feitas pela empresa GetNinjas indicam que o número de buscas para atendimento online subiu em 32% no intervalo de março até setembro de 2020. 

Quais são os malefícios de uma terapia virtual? Como fica o atendimento humanizado?

Muitos profissionais e pacientes ainda são resistentes a essa nova forma de atendimento, principalmente pela vinculação que, sendo virtual, se perde parte da empatia e humanização tão necessária no acolhimento e estabelecimento de um vínculo com o outro. Mas convenhamos, estar fisicamente em um lugar com alguém, não é um sinônimo de atendimento humanizado.

É frequentemente relatado histórias de pacientes que reclamam de médicos ou enfermeiros, que mesmo presencialmente, não fornecem o atendimento da forma mais empática possível, em contrapartida, uma live com o seu influenciador preferido, respondendo às perguntas do chat, cumprem com as expectativas de todos ali. Logo, onde de fato se encontra a empatia?

Se importar e se colocar no lugar do outro, são virtudes possíveis de serem exercidas a distância, pois as principais características de um bom atendimento continuam ali, a escuta cuidadosa, a fala ponderada e pontual, como forma de intervenção.

Vale ressaltar que, problemas técnicos podem surgir, como uma instabilidade de conexão, queda de energia, etc. Mas quem garante que presencialmente, o acaso também não apronte algum imprevisto? Continua sendo comum atrasos de sessão, ausência, remarcação na forma de atendimento tradicional. Viver, é acima de tudo saber que não temos controle sobre tudo.

Em contrapartida, o atendimento virtual tem suas vantagens, na perspectiva do paciente, uma maior flexibilidade para horários compatíveis para uma sessão e também, não ser necessário o deslocamento para se consultar com alguém. Do ponto de vista do profissional pode-se obter uma significativa economia de custos, ao se dedicar no seu próprio ambiente virtual restrito, ao invés de pagar por aluguel de sala e outros custos relacionados.

A terapia online é uma realidade? Pós-pandemia, como ficará esta realidade?

Poucas vezes, na história da humanidade, a partir de um novo paradigma rompido, se retornou a tradição previamente estabelecida.  A evolução e adaptabilidade, nos apresenta sempre para o novo, pois o antigo não caiu em desuso sem nenhum motivo, isso ocorreu, pois novos métodos mais eficazes para realizar atividades foram desenvolvidos.

Antes da roda, os serviços braçais de transporte eram sempre muito precários e trabalhosos, mas com esta evolução tecnológica mudou o estilo de vida de todos permitindo uma maior transação de mercadorias e pessoas nas cidades criando assim as carroças, em torno de 3200 A.C. Hoje, esta tecnologia já foi ultrapassada por outras, como os automóveis, mas o seu valor histórico continua presente.

No século XIV, desenvolveram a bússola, instrumento que revolucionou a história do mundo e que permitiu as grandes navegações pelo oceano. Hoje, temos bússolas a partir da tecnologia do GPS, que todo smartphone já conta com o recurso embutido, que agora nos orienta para seguir pequenas ou grandes rotas dentro da cidade.

Poderia pontuar aqui inúmeras inovações que foram desenvolvidas ao longo de nossa história, mas o ponto de interesse é que as raízes de cada tecnologia continuam inseridas nos dias de hoje, porém, com uma releitura mais atualizada para serem aplicadas com maior facilidade.

Não muito diferente, o atual paradigma vivido, também transformará as profissões e a forma de se oferecer serviços. Quem garante que profissionais ou pacientes realmente desejam voltar a antiga realidade de papéis? Invariavelmente, uma nova geração de profissionais insistirá que este é o novo caminho de atendimento, o caminho digital.

Conclui-se então a importância que profissionais de saúde assumam o protagonismo nos meios digitais, para que seja propagada informações éticas e corretas sobre suas áreas de conhecimento exercendo o papel enquanto agentes da promoção à saúde. Se não assumindo este espaço, outros que não se importam com estes valores, podem ocupar esses locais de fala.

Somos reféns do nosso tempo histórico, dito isso, o melhor a se fazer, é aceitar este novo papel, para colaborar na construção de um futuro melhor.

Giovani Lucena – CRP 04/55806

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