Na psicologia clínica, a relevância do neurofeedback (NF) como uma técnica terapêutica inovadora ganha destaque, especialmente no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Este método, que permite aos indivíduos controlar e normalizar padrões de atividade cerebral através de feedback em tempo real, tem demonstrado melhorias significativas na eficiência dos processos cognitivos relacionados à integração de informações de estímulos auditivos em comparação com tratamentos controle.
Além disso, o NF tem aprimorado a sensibilidade ao contexto, resultando em respostas mais consistentes, independentemente do tipo de tentativa, sobretudo em testes auditivos. Antes do tratamento, crianças com TDAH apresentavam principalmente déficits na integração de informações de estímulos em comparação com crianças saudáveis. A análise baseada no modelo de decisão de difusão sugere que o NF melhora componentes cognitivos específicos prejudicados no TDAH, oferecendo aos profissionais uma ferramenta terapêutica não farmacológica e valiosa. Este artigo propõe uma análise aprofundada dos impactos cognitivos do NF em pacientes com TDAH, enriquecendo a prática clínica com novos entendimentos e possibilidades.
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurodesenvolvimental comum na infância, caracterizado por inatenção, hiperatividade e impulsividade, conforme definido pela American Psychiatric Association (2013). A eficácia limitada das medicações tradicionais, com até um terço das crianças não respondendo ao tratamento, ressalta a necessidade de alternativas terapêuticas (Adler et al., 2006). Nesse contexto, o neurofeedback (NF) surge como uma intervenção não farmacológica promissora, na qual indivíduos aprendem a modular padrões de atividade cerebral. Entretanto, os efeitos do NF sobre a cognição permanecem incertos, tornando essencial a compreensão de seus mecanismos cognitivos para planejamento e personalização do tratamento.
Este artigo foca em uma análise secundária de um grande ensaio clínico randomizado duplo-cego (RCT) sobre NF para TDAH conduzido pelo Neurofeedback Collaborative Group (2021). Apesar do resultado primário, que indicava melhorias inespecíficas nos sintomas de TDAH para todas as crianças, análises de moderadores sugeriram que a eficácia do NF dependia das comorbidades presentes. Adicionalmente, assinaturas cognitivas basais prediziam a resposta ao NF (Ging-Jehli et al., 2023).
Diante dos resultados mistos e da conceituação do NF como um tratamento baseado em aprendizagem por reforço (Lubianiker et al., 2022), investigar seus efeitos cognitivos é necessário. O objetivo deste estudo foi avaliar se o NF melhora a eficiência do processamento de informações, um déficit central no TDAH (Ging-Jehli et al., 2021), utilizando modelagem computacional. O Modelo de Decisão de Difusão (DDM) foi aplicado a dados de um teste de desempenho contínuo para quantificar componentes cognitivos latentes antes e após o tratamento.
O DDM, um modelo amplamente utilizado, descreve como as pessoas tomam decisões, fornecendo um esquema simplificado do processo de tomada de decisão. Ele quantifica o desempenho em componentes com significado psicológico estabelecido que podem ser estudados separadamente, incluindo a cautela na resposta, a eficiência da integração de informações, a sensibilidade ao contexto, o viés de resposta e o tempo não-decisório. Este estudo representa um avanço significativo na compreensão dos impactos cognitivos do NF em pacientes com TDAH, oferecendo uma perspectiva valiosa para a prática clínica baseada em evidências.
Os resultados chave desta análise destacam avanços significativos na eficiência de integração de informações auditivas (phi v) com o tratamento de neurofeedback (NF), em comparação com o tratamento controle. Este avanço confirma a hipótese inicial do estudo.
Além disso, observou-se uma melhoria mais acentuada na sensibilidade ao contexto (cv) com o tempo no grupo tratado com NF. Isso indica respostas mais consistentes entre diferentes tipos de tentativas, especialmente nas auditivas.
Comparando os grupos com TDAH e os controles saudáveis no início do estudo, os primeiros apresentaram phi v significativamente menor, confirmando a ineficiência de integração como um déficit antes do tratamento. O NF também reduziu a latência dos processos não decisórios, como codificação e execução motora (Ter), enquanto o tratamento controle não mostrou mudanças no Ter.
Contudo, a cautela na resposta (a) e o viés (z/a) não apresentaram diferenças significativas entre os grupos ao longo do tempo.
Estes resultados sugerem que o NF pode ser particularmente eficaz em melhorar aspectos específicos do processamento cognitivo em crianças com TDAH, como a eficiência na integração de informações auditivas e a sensibilidade ao contexto. A ausência de mudanças significativas na cautela da resposta e no viés indica a necessidade de investigações adicionais para entender completamente os efeitos do NF no espectro cognitivo do TDAH.
A aplicação da modelagem computacional forneceu percepções valiosas sobre os efeitos do neurofeedback (NF) na cognição. Os achados indicam que o NF pode ser benéfico ao direcionar os déficits específicos presentes no TDAH, nomeadamente melhorando a eficiência e a consistência do processamento de informações.
Os ganhos significativos no desempenho auditivo estão alinhados com evidências anteriores que mostram déficits auditivos no TDAH (Ging-Jehli et al., 2022). Como os estímulos auditivos se desdobram sequencialmente e exigem atenção sustentada, diferentemente da entrada visual que permite um "segundo olhar", aprimorar as habilidades de processamento auditivo poderia promover a atenção e reduzir a distração.
As reduções no tempo não decisório também podem indicar uma codificação mais rápida e prontidão de resposta resultantes do treinamento com NF. Juntos, essas mudanças cognitivas provavelmente contribuem para melhorias comportamentais na atenção e no controle de impulsos que caracterizam o TDAH.
Focando as análises nos processos componentes, este estudo ilustra como o NF pode remediar a fisiopatologia subjacente, ao invés de apenas aliviar os sintomas. Adicionalmente, alguns medicamentos para TDAH visam mecanismos cognitivos semelhantes (por exemplo, taxas de deriva), validando ainda mais a integração deficiente de informações como uma disfunção central (Ging-Jehli et al., 2021).
Portanto, a aplicação de métodos computacionais pode esclarecer os efeitos neurobiológicos de vários tratamentos para o TDAH.
Este estudo apresentou várias forças-chave:
Esses pontos fortalecem a validade e a relevância dos resultados obtidos, destacando o potencial do NF como uma ferramenta terapêutica eficaz no tratamento cognitivo do TDAH.
Apesar de suas forças, este estudo apresenta algumas limitações importantes:
Mesmo considerando as limitações do estudo, os resultados obtidos trazem implicações úteis para o mundo real.
O aspecto mais relevante é a indicação de que o neurofeedback (NF) pode atuar corrigindo os problemas cognitivos subjacentes no TDAH, em vez de apenas melhorar os sintomas. Isso sugere que os médicos podem usar resultados de testes neurocognitivos para prever quem pode se beneficiar mais do NF e direcionar certos processos de pensamento durante o treinamento.
Pacientes com maior dificuldade em integrar informações de maneira eficiente e em manter a atenção auditiva parecem particularmente propensos a melhorar com o NF. Os padrões de pensamento identificados por meio da modelagem computacional podem ser usados em conjunto com avaliações de sintomas para personalizar o tratamento do TDAH.
Os achados também indicam que o processamento auditivo deve receber mais atenção. Protocolos de NF podem precisar enfatizar tarefas baseadas em som para otimizar os ganhos. Melhorar habilidades auditivas pode significativamente auxiliar o funcionamento e a qualidade de vida, dado que estamos constantemente cercados por sons na escola, em casa e socialmente. Médicos devem começar a verificar também questões auditivas, frequentemente negligenciadas.
Adicionalmente, os resultados apoiam o NF como uma terapia alternativa ou adicional aos medicamentos estimulantes. Demonstrar que o NF impacta a função cerebral de maneira semelhante à medicação é promissor para o NF como uma opção não medicamentosa, visando questões subjacentes ao TDAH. Pais e médicos têm buscado opções baseadas em evidências, dada a dificuldade de muitos pacientes com efeitos colaterais e adesão à medicação.
Por fim, o uso da modelagem computacional neste estudo representa uma maneira inovadora de investigar como os tratamentos funcionam. Aplicar testes semelhantes para entender a psicoterapia ou novos medicamentos poderia identificar seus efeitos no pensamento.
Fonte e Referências: Simply Psychology