Vamos Conversar?

Escrito por Academia do Psicólogo | Apr 14, 2016 12:44:00 PM

Oi, tudo bem?

Hoje vamos ter uma conversa bem pessoal. Eu e você. Quero te contar um pouco da minha história. E você, se quiser, pode contar um pouco da sua para mim também.

Duas histórias

Esse papo começa quando eu estava no prézinho. Eu odiava estar no prézinho. Um detalhe importante: eu já havia aprendido a ler. Essa história se desenrolou por uma semana comigo chorando na hora que meu pai me deixava na escola e, terminou na sala do diretor, junto com minha mãe.

Eu não tinha e nem poderia ter noção do que eu estava “propondo”. Mas, eu olhei bem nos olhos do diretor e disse que queria ir para a primeira série. Eu tive que cumprir alguns desafios, ler alguma coisa no verso de um daqueles calendários de mesa. Depois, tive que sair da sala e deixar os dois adultos conversando.

Na semana seguinte, eu e minha mochilinha fomos direto para a sala da primeira série.

O que acontece a partir daí, é história para outro post. E, falando em outra história, quando eu estava no terceiro ano do Ensino Médio, fui selecionada para participar de um curso de lideranças jovens feito por uma ONG da minha cidade. Eu não tinha ideia de que esse mundo existia mas, quando descobri, eu queria fazer parte desse mundo. Era o que, naquela época, fazia meus olhos brilharem e eu ficar inquieta querendo fazer alguma coisa também.

Não dá para contar nos dedos as vezes que eu não deixei os facilitadores dos encontros terem seu intervalo ou irem embora no horário com minhas inquietudes. Quando o curso acabou, eu continuei incomodada e incomodando. Apesar de todo o carinho e disponibilidade, eu ainda não fazia parte daquilo da forma com que eu sentia que precisava.

Então, eu reuni mais alguns adolescentes que participaram do curso comigo e juntos, nós montamos um projeto voluntário chamado “Coletivo Educomunicador”. Essa ação durou pouco tempo. E durou pouco, pois logo se transformou em um projeto oficial da ONG, patrocinado por meio de um edital de financiamento nacional. Essa história também não acabou aí, afinal, realizo trabalhos com essa ONG até hoje.

Eu trouxe dois exemplos, duas histórias. Um pouquinho sobre o contexto, mas é claro que existe muito mais complexidade aí. Muito água salgada: suor, lágrimas e banhos de mar para lavar a alma. Muito amor, muita energia e muita realização. Dúvidas, erros e acertos também.

Sustenta teu desejo

E por que eu escolhi essas histórias?

Porque foram dois momentos marcantes em que tive que me expôr, falar e expressar o que pensava para alcançar um objetivo, para saber qual caminho percorrer, ter uma orientação sobre onde ir.  Em ambas, fica muito fácil identificar que foi claramente manifesto e exposto a busca por um desejo. E o meu ponto é: como você está sustentando o seu desejo?

Eu compartilho da célebre frase de Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Todos nós sonhamos. Não é mesmo? E, na minha opinião, nossa capacidade de sonhar e acreditar é que nos leva a alcançar nossos objetivos. O nosso propósito, projeto de vida, o brilho no olho.

Quando eu conto para vocês que eu precisava fazer parte daquela ONG, é porque eu sentia que precisava mudar o mundo. E isso pode soar extremamente utópico e os caretas dirão que é coisa de jovem. E, sim, minha visão não é mais tão romantizada como era naquela época, mas, foi a partir dessa paixão que pude amadurecer os meus conceitos, aprender sobre as formas de atuação e me desenvolver para fazer o melhor que eu poderia.

Quando eu conto que no prézinho eu fui encarar a sala do diretor e dizer: “olha aqui moço, eu quero e eu consigo”, ainda que apenas simbolicamente e não verbalmente, eu estou querendo dizer que mesmo sem ter certezas, eu corri o risco. Mas, segui àquilo que eu realmente desejava e que me fazia bem.

É óbvio que não foi tudo um mar de rosas, nem em uma história nem em outra. Mas, desde quando tem que ser?

Conseguir identificar os nossos desejos, desde a sobremesa até a nossa profissão, não é fácil. Não é mesmo! A psicoterapia, inclusive, auxilia bastante nessa questão. E, vamos falar mais sobre a importância da psicoterapia para acadêmicos e psicólogos em breve aqui no canal.

Mas, isso nos leva à outro ponto.

O elefante na sala

Não sei se vocês conhecem essa expressão: o elefante na sala. Resumidamente, é sobre um tema que está implícito em todos os assuntos, as pessoas presentes estão percebendo de certa forma mas, não está sendo dito.

O nosso elefante na sala se trata de postura, de iniciativa, de protagonismo.

Cada pessoa é dotada de idiossincrasias e peculiaridades que a tornam única. Nem todos querem a mesma coisa e nem todos precisam ter a mesma forma de lidar com as situações.

Mas, me chama a atenção, ou melhor, citando Mandela, me assusta o “silêncio dos bons”. A vergonha de falar, dos acadêmicos perguntarem uma dúvida ao professor, de expor o que estão pensando de uma aula, de insistir para fazer o estágio na área que realmente anseiam, de fazer o trabalho de conclusão de curso sobre o assunto que fascina, das pessoas irem em busca do que faz seus olhos brilharem, de maneira mais geral.

Um dia conversei com Pedrinho Guareschi, que é um autor da psicologia social e fala sobre cidadania. Ele fala que a cidadania vai além da democracia, pois, cidadania é o que nós falamos. Se buscarmos na história, os gregos, só eram considerados cidadãos quando eles iam até a àgora, no espaço público e apresentavam sua opinião. Além disso, Guareschi citou uma pesquisa em que foram analisadas 40 horas de sala de aula, onde as palavras: silêncio, cale a boca, fique quieto; apareciam cerca de 800 vezes. E as palavras: diga, se expresse, fale; apareciam apenas 18 vezes.

Não encontrei a referência dessa pesquisa para compartilhar com vocês, acontece que lembro até hoje, pois é muito forte e, infelizmente, não consigo duvidar de que seja verdadeiro.

A cultura do silêncio já produz inúmeros malefícios, sofrimentos e tabus em diversas áreas diferentes. Agora, já imaginou que podem existir psicólogos por aí que não sabem lidar com alguma questão importante por não ter perguntado? Não ter falado sobre isso com seus colegas e professores?

Dizem muito sobre “falar mais sobre isso” ou sobre “problematizar” questões. Será que nós, psicólogos ou estudantes de psicologia, estamos falando o suficiente?

Vamos conversar

A participação efetiva nos espaços dos quais você faz parte podem te levar muito além do que você imagina. Já é velho o ditado de que “quem tem boca vai à Roma”. Na realidade, já descobri que o ditado correto é “vaia Roma”. Seja como for, é preciso verbalizar. Aliás, “quem não se comunica, se trumbica”.

Sabedoria popular a parte, somos humanos e a comunicação é mágica para nosso desenvolvimento. Não se trata apenas de transmitir uma informação, mas de expressar-se e iniciar uma relação com seu interlocutor.

Se você participa ou já participou do curso Empreendedorismo para Psicólogos, verá como a comunicação com as pessoas – colegas do curso, facilitadores e com o seu nicho de mercado – será um dos aprendizados mais importantes e muitos insights virão daí.

Então, leitores deste artigo, pessoas que acompanham o Vida Acadêmica, membros da Academia do Psicólogo, você: fale! Invista na sua expressão, oratória, cuide com sua linguagem corporal, estude sobre comunicação não violenta, treine suas habilidades sociais. Mas, por favor, não se esconda! Não seja indiferente com sua própria formação. Afinal, o "não" você já tem.

Os corredores da faculdade, o barzinho com os colegas, o papo com o professor no final da aula valem muito! Um comentário aqui, também!

Falamos mais depois. Um abraço!

Assuntos para continuarmos nossa conversa:

AUTORA

DAIANA RAUBER

@psicodaianarauber - daianarauber@psicoleitura.com.br