Psicólogos Também Fazem Residência
Você sabia que psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas e outra gama de profissionais de saúde podem fazer residência? O Programa de Residência Multiprofissional e em Área Profissional da Saúde é uma modalidade de treinamento em serviço, que articula a prática na saúde (80% da carga horária) com a teoria (20% da carga horária) e é considerada como ensino de nível de pós-graduação lato sensu.
Para os acadêmicos e psicólogos que se identificam com a saúde coletiva é uma maneira ótima de se especializar, ter experiências práticas, mentorias com profissionais e ainda receber uma bolsa.
Para falar sobre o sentido desse programa, eu vou trazer a fala da Yara de Carvalho e do Ricardo Ceccim, no seu artigo sobre Formação e Educação em Saúde: aprendizados com a Saúde Coletiva:
“Discutir a formação em saúde implica tematizar o ensino, particularmente no âmbito da graduação nas profissões dessa área. O ensino de graduação, na saúde, acumulou uma tradição caracterizada por um formato centrado em conteúdos e numa pedagogia da transmissão, de desconexão entre núcleos temáticos; com excesso de carga horária para determinados conteúdos e baixa ou nula oferta de disciplinas optativas; de desvinculação entre o ensino, a pesquisa e a extensão, predominando um formato enciclopédico e uma orientação pela doença e pela reabilitação.
No âmbito das políticas educacionais, a graduação na área da saúde não tem tido uma orientação integradora entre ensino e trabalho, que esteja voltada para uma formação teórico-conceitual e metodológica que potencialize competências para a integralidade, onde se inclui o enfrentamento das necessidades de saúde da população e de desenvolvimento do sistema de saúde.”
Com os argumentos acima, nada mais claro para justificar um programa que priorize esse contato com a prática de maneira tão intensa.
Como a residência funciona?
A residência exige dedicação exclusiva e os residentes recebem bolsa, que conforme as informações (Lei 11.129, de 30 de junho de 2005 Lei nº 6.932, de 7 de julho de 1981) é do valor de R$ 2.384,82. A duração mínima de um programa de residência é de dois anos, com uma carga horária mínima de 5760 horas e, ao final do processo, o residente precisa apresentar individualmente uma monografia ou artigo científico. (Resolução nº3 de 4 de maio de 2010). Você pode encontrar mais informações sobre o Programa de Residência em geral aqui.
Residência Multiprofissional na Prática
Mas, nada melhor do que conversar com psicólogos que já estão vivenciando esse processo para saber mais sobre como é na prática, certo?! É por isso que o Gabriel Fernandes Camargo Rosa, a Dhieine Caminski e a Gabriela Paim – todos psicólogos em residência aqui em SC – fizeram a gentileza de compartilhar essas informações conosco. Veja abaixo:
Como você ficou sabendo do processo seletivo da Residência Multiprofissional?
- Na época em que abriu o edital, vários amigos comentaram comigo.
- Edital da universidade publicado em rede social - Facebook.
- Colega de Trabalho.
O que te motivou a participar da Residência?
- A proposta de ensino em serviço é algo que sempre me chamou a atenção. Não é nenhum segredo que uma das principais críticas do atual sistema educacional alinha-se a questão do distanciamento entre o que é ensinado em nível teórico e o que a realidade pede em nível prático. Ao tomar conhecimento dessa possibilidade de atuar profissionalmente em minha área, recebendo todo o apoio prático-pedagógico oferecido por um Programa de Residência, logo resolvi encarar mais este desafio.
- Conhecia a proposta através de acompanhamento das ações de educação permanente do Ministério.
- Atração por saúde coletiva.
Qual a maior dificuldade no processo seletivo?
- Creio que isso seja algo mais individual! A Residência que estou vinculado visa a formação em Saúde Coletiva, tema que tenho um vínculo estreito não só ao longo da minha trajetória acadêmica, como ao longo da minha vida, uma vez que minha mãe é uma profissional da enfermagem e desde criança já venho observando todo o contexto envolto a temática. Sendo assim, por ser um assunto ao qual possuo relativa familiaridade, minha maior dificuldade talvez tenha sido a própria tensão do processo seletivo em si, isto é, a competição, o cenário de avaliação, etc.
- Taxa alta de inscrição, período curto entre a publicação do edital e a prova.
- Organizar documentos comprobatórios do currículo.
Como é a rotina acadêmica na Residência?
- Bem! Temos que dedicar 60 horas semanais, que se dividem em atividades práticas e pedagógicas. A Residência a que estou vinculado possui vínculo com 5 Municípios diferentes e, portanto, cada um possui suas particularidades. Entretanto, a Instituição de Ensino solicita que todos os Municípios planejem-se de modo que todos os Residentes possam desempenhar atividades na Atenção Básica, na Atenção Especializada e na Gestão. Assim, as rotinas divergem conforme o município e suas demandas, porém, busca-se sempre atender a tais critérios. Além da parte prática, ainda temos o momento pedagógico, nos quais acompanhamos as aulas, bem como nos reunimos entre Tutores, Preceptores e Residentes para discutir o andamento dos serviços.
- Fantástica. Docentes com história na luta pelo SUS, ênfase na formação de profissionais em saúde. A rotina é pesada, mas transformadora.
- Rotina de trabalho na rede do município, aula semanal, horas complementares, diário de campo, o que a torna bastante corrida e cansativa.
Quais os principais aprendizados que você destaca na formação de residente?
- Certamente o reconhecimento de campo é o que tem de mais válido. Discutir teoria em sala de aula, ir a campo, ver as possibilidades e limites, voltar pra aula, repensar, tirar dúvidas, discutir, retornar a campo... enfim! As habilidades que se adquire nesse período, são experiências que certamente farão de todos os Residentes profissionais competentes e resolutivos.
- Trabalho em equipe, compreensão de processos comunitários, a Psicologia como área norteadora dos processos de transformação.
- Olhar para o sus e seus usuários de maneira mais crítica e reflexiva.
Quais as suas principais atividades de trabalho?
- Ao longo desse meu primeiro ano venho desempenhando, sempre que demanda, toda a gama de possibilidades de trabalho em um Núcleo de Apoio a Saúde Família. Já acompanhei grupos, fiz rodas de conversas, palestras, participação em reunião de equipe, matriciamentos, atendimentos psicológicos, interconsulta, reuniões intersetoriais, organização de eventos, preparação de projetos multidisciplinares e suas respectivas intervenções... isso é o que estou lembrando agora! hehe
- Ações dentro do NASF, principalmente atendimentos compartilhados.
- Atendimentos individuais e compartilhados, discussão casos intra e inter equipe NASF e ESF.
Onde você realiza as atividades?
- Onde há demanda! Parece meio vazio responder desse modo, mas é basicamente o que ocorre. Eu, enquanto Psicólogo, tenho como principal função dar apoio a Estratégia de Saúde da Família. No Município que atuo, acabo tendo vínculo com duas Unidades de Saúde. Além disso, também desempenho atividades junto ao Serviço de Atendimento Especializado (SAE) e no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Porém, já fiz encontros em escolas, ginásios de esporte, bosques... onde emana saúde e tem pessoas em interação, é onde preciso estar!
- Unidades básicas de saúde, serviços de especialidade e de gestão.
- UBS, universidade, outros locais (sms, biblioteca pública, casa de residentes).
Como é a integração com os profissionais de outras áreas?
- É o que há de mais rico. Minhas experiências com os profissionais de outras áreas sempre são enriquecedoras, haja vista que a Residência tem esse perfil de formação baseada nas diferentes áreas sendo complementares. Os casos aos quais tomo conhecimento, quando discutidos com apenas um profissional de outra área ou mais de um, sempre trazem excelentes contribuições para a minha atuação e, sobretudo, ao próprio usuário do Sistema de Saúde.
- Inicialmente a especialidade fala mais alto, há dificuldades de adaptação e compartilhamento dos conhecimentos. Após um ano de residência esse processo já se transformou e posso dizer que me sinto muito à vontade com meus colegas de outras profissões. A importância da multidisciplinaridade é essencial para buscarmos a tão sonhada interdisciplinaridade.
- Residente no início contudo facilita a medida que vai se criando vinculo.
O que mais te surpreendeu na experiência como residente?
- O desafio de ser Residente é constante. Nem tudo são flores no dia-a-dia. Muitos desafios são encontrados ao longo da nossa trajetória. E observar a nossa capacidade de superação a tais desafios é o que mais tem me marcado. A surpresa vem daí! Reconhecer nas pessoas e em si mesmo o quanto estamos crescendo enquanto profissionais.
- Falta de compreensão das ESF's sobre o que é residência e NASF.
- Olhar crítico ao sistema de saúde atual.
Você pode compartilhar o exemplo de uma situação que marcou a sua atuação?
- Poderia ficar dias falando de situações que me marcaram. A título de exemplo vou trazer os movimentos espontâneos que acontecem. Certa vez no CAPS, um usuário estava agredindo verbalmente às pessoas que ali estavam, alegando que não queria estar ali. Era uma situação em que todos olham para o Psicólogo, cobrando atitudes que deem conta da situação, entretanto foi um profissional da Educação Física que, naquele momento tomou a frente e, com recursos incríveis, deu conta da situação. Habilidades essa que, conforme ele mesmo, em momento posterior, salientou ter aprendido ao longo da Residência. Momentos como esse fazem a gente lembrar que somos todos profissionais com diferentes conhecimentos, mas que podemos ganhar habilidades das quais não são necessariamente recursos de nossa área, em prol de um atendimento de saúde de qualidade, com visão ampliada acerca do fenômeno aos quais estamos expostos.
- Sem uma situação específica, mas que abrange a ação dos agentes comunitários de saúde. Esse profissional é um grande aliado e me marca enquanto Psicóloga todos os dias. A escuta deles é de extrema necessidade, hoje a minha atuação se transformou através do convívio que tenho com esses colegas.
Conte um pouco sobre a sua experiência pessoal como residente:
- Como já salientei anteriormente, ser Residente é um desafio imenso. No mesmo passo que por vezes desgasta, frustra, cansa... também apresenta inúmeras aprendizagens não só profissionais, mas pra vida! A exigência que ocorre nesse ambiente é incrível e a cada dia apresenta uma possibilidade de desenvolvimento pessoal e profissional.
- Pessoalmente meu trajeto de vida tomou outro rumo, é uma experiência de desprendimento de nossas verdades.
O que você diria para um psicólogo interessado em participar da Residência Multiprofissional?
- Que será desafiador! Como disse antes, não é algo apenas profissional, mas que envolve também recursos pessoais. É uma possibilidade de aprendizagem e desenvolvimento que não se encontra tão fácil no mercado.
- Se você deseja fazer Residência, prepare-se para transformar, frustrar, lutar e não desistir. Hoje nossa luta é em favor do direito das pessoas em ter saúde e trazer elas para essa luta que é constante e intensa.
- Se você tem afeição pelo SUS e tem interesse em atuar em saúde coletiva, essa é a experiência mais indicada para alcançar o que almeja.
E aí, ficou interessado? Já sabia sobre o tema? Restou alguma dúvida? Deixe aqui nos comentários e vamos continuar nossa conversa.
Um abraço!
AUTORA
DAIANA RAUBER
@psicodaianarauber - daianarauber@psicoleitura.com.br
