Entrevista – A Saúde Mental Ainda é “Gourmetizada”?

Escrito por Academia do Psicólogo | Aug 4, 2016 12:24:00 AM

Estamos imersos no universo particular da psicologia, mas, de vez em quando, nos deparamos com um "olhar de fora" que pode contribuir e muito para o desenvolvimento da nossa atuação. Foi assim com Filipe Carvalho, publicitário e autor do artigo "Porque a saúde mental ainda é “gourmetizada”?".

No artigo, Filipe fala coisas do tipo:

"Há uma concepção errada de que Psicologia é uma medida “gourmet” para lidar com os problemas. Os mais simplórios gostam de chamar de“frescura” ou “conversa fiada”. Hoje, infelizmente, só consigo ver pessoas privilegiadas fazendo terapia."

"Os pontos que eu quis contrastar foram: a má interpretação que a sociedade (massa) tem da Psicologia como ciência, a falta de mobilização para designar a devida importância à saúde mental, a dificuldade de acesso da população mais pobre ao atendimento, a saúde mental sendo posta à parte da saúde de modo geral, e o incentivo ao autoconhecimento, seja pela terapia ou não."

Suas percepções chamaram nossa atenção e decidimos aprofundar essa conversa.

Vem com a gente!

Daiana Rauber

1- Filipe, nosso encontro com você se deu a partir de um texto que você escreveu com o título “Porque a saúde mental ainda é “gourmetizada”. Conte para nós o que te motivou a tratar deste tema.

Bem, fiz um mês de terapia, interrompi pois não pude continuar pagando, e senti falta. E também já vi mais pacientes interrompendo o ciclo terapêutico e percebo como faz falta pra eles, principalmente para os idosos e as crianças, que manifestam com mais sinceridade a falta que faz. Já vi nas redes sociais aqui da clínica uma senhora dizer “como faz falta cantar com vocês” (era membra do grupo de cantarterapia). Aí a gente fica sensibilizado!

2- Você é publicitário e via de regra, não necessariamente teve algum contato com a psicologia antes de trabalhar em parceria com uma clínica, talvez em uma disciplina geral na faculdade. É isso mesmo? Qual a ideia geral que você tinha sobre o mundo da psicologia, antes desse envolvimento?

Sim, na ementa base do curso de Comunicação tive a matéria “Psicologia Social” no terceiro semestre, em 2009. Tudo muito teórico, e como diz, é muito voltado para o social, para nossas responsabilidades como publicitários. Eu via a psicologia muito como “método” ou capacidade de lidar com as coisas e as pessoas. Só depois que entrei na clínica eu conheci melhor as capilaridades da área.

3- Como você percebe que a saúde mental está sendo entendida e considerada pelas pessoas em geral, que não estão em contato com algum contexto da psicologia?

Infelizmente, como “frescura”. Essa cultura de celebridade anônima é muito nociva para nós. As redes sociais estão tomando uma proporção que nos leva a irresponsabilidades terríveis para com essa questão. Ainda mais na cultura da aprovação, onde a razão é medida pela quantidade de aprovação em números de “likes”. Isso limita as coisas ao algoritmo do Facebook, e cria um universo paralelo que a pessoa acredita fazer parte.

Digo isso porque, dentre as páginas que angariam mais público no Facebook, estão aquelas de frases motivacionais e autoajuda que muito boicotam nossa verdadeira experiência de autoconhecimento, autocrítica, etc. Sempre escolhemos o mais agradável, sempre encontramos uma imagem com uma frase bonitinha que, em alguma perspectiva, vai nos fazer estar certos mesmo estando errados.

E o que mais a gente tem feito do que varrer poeira pra baixo do tapete, né? Tem gente, inclusive, que manda a gente ir “fazer terapia” usando disso como insulto (pra nos caracterizar como deficientes de alguma maneira).

4- Na medida em que você se ambienta com a rotina de uma clínica de psicologia, acompanhando diversos profissionais da saúde mental, quais foram suas descobertas? Você se surpreendeu com algum aspecto?

Estourei um pouco a bolha, do meu antigo universo particular. O pouco que descobri sobre psicanálise já me encantou bastante, além de termos em comum com a Publicidade, como a Semi-Ótica e a Gestalt, que aprendemos em Comunicação Visual, e também é uma metodologia aplicada na psicologia.

Não posso dizer que fiquei surpreso, mas achei curioso o leque de “modalidades” que um psicólogo pode aplicar em seu consultório, como Teste/Avaliação Neuropsicológico, a Terapia Cognitivo-Comportamental, que, como uma palavra isolada, também é um universo enorme.

5- Atualmente, sua visão da saúde mental está diferente? O que considera ter contribuído para desmistificar a ideia de que psicólogo é “coisa para doido” e que cuidar de si mesmo, na esfera psicológica também é importante?

Só de lidar com o fluxo de pacientes entrando e saindo eu já notei que eles são mais parecidos comigo do que posso imaginar. O que também influencia é a fase de minha vida: 25 anos, recém-formado, em tempo de crise, muito deslocado da tendência que as juventudes vêm apresentando, com dificuldades de inserção no mercado de trabalho, não tenho tanta intimidade com os pais, os amigos a gente conta em uma mão só, e todo estão longe.

Começo a engordar, a perder cabelo, a ficar mais sozinho, a chorar menos, e só chego à uma resposta: “Filipe, precisamos conversar!”.

6- No seu texto sobre a gourmetização da psicologia, você utiliza inclusive uma fala da Lady Gaga sobre o acesso às medidas de bem-estar mental. O que você quis dizer com uma saúde mental gourmetizada e por que entende que acontece dessa maneira?

Bem, sabemos que não é tudo que cabe no orçamento básico do brasileiro que sobrevive de um salário mínimo, e saúde mental sequer é considerada como algo incluído no “orçamento básico”. Nem a classe média em geral consegue investir em mais de um tipo de terapia, os cuidados emergentes são mais voltados para a saúde física.

Então, quando falo sobre a gourmetização e uso a Lady Gaga como exemplo, foi por ter percebido um ponto comum entre as pessoas que frequentam os espaços de terapia: é um pessoal privilegiado, salvando poucas exceções que são pessoas que realmente entendem a importância da psicologia.

7- Há uma história famosa na psicologia, contada em um livro de Calligaris, que fala sobre como psicanalistas recém formados na França faziam para conseguir clientes. Basicamente entendiam que viriam por indicações de outros profissionais e, por isso, os outros profissionais deveriam ser impressionados, por meio de artigos e pesquisas na área. Medidas que não contribuíam com a prática (pois, os artigos não eram lidos nem citados) tampouco eram acessíveis para pessoas fora desse contexto. Com a sua experiência, você ainda percebe a falta de informação sobre a saúde mental? Isso contribui para que as pessoas não acessem os serviços de psicologia?

Sim, um dos pontos que citei no texto foi a falta de informação, a falta de motivação pra despertar ao menos um interesse, uma curiosidade. Pessoas famosas não citam, não é corriqueiro você dizer que vai ao terapeuta. É malvisto pelas pessoas.

8- E como a publicidade poderia ajudar nessa divulgação?

A publicidade e a comunicação de maneira geral podem edificar muito, pois sempre encontram maneiras didáticas de levar a mensagem à uma pessoa que, por exemplo, não esteja disposta a ler um “textão” falando da importância da saúde mental. A publicidade se permite ser mais lúdica neste sentido de levar a mensagem ao publico-alvo.

Sempre temos muito cuidado para não ser mal interpretados, mas é o que sempre digo, a mesma mente que comunica na ida, comunica na volta. Não há nada que não possa ser articulado pela comunicação. Não é uma via de mão única, ainda mais hoje nas redes sociais. Uma campanha publicitária não é um caminho só de ida. Temos o feedback e a análise da reação do público.

Os profissionais precisam perder o medo de frustrar as expectativas ou de “não parecer sério”.

9- Há uma série de cuidados que a psicologia precisa considerar ao promover publicamente seus serviços, entre eles: fazer referência apenas aos títulos que possua, divulgar apenas qualificações e técnicas que sejam regulamentas pela profissão, não utilizar o preço como propaganda, não prever resultados de forma taxativa, não fazer auto-promoção em detrimento de outros profissionais, não propor atribuições de outras categorias e, não fazer divulgação sensacionalista das atividades profissionais. Estas questões do código de ética não são negociáveis e precisam ser respeitadas, mas, muitas vezes “travam” qualquer comunicação sobre os serviços da psicologia. Enquanto publicitário,você diria que é possível publicizar os serviços relacionados às práticas do psicólogo sem ferir estes princípios?

Sim. Philip Kotler tem um livro chamado Marketing 3.0, onde ele escreve sobre o marketing “do amanhã”.

É possível fazer propaganda institucional sem se apegar ao clichê do lucro e da demanda latente, sabe?

Fazer, construir algo sem a pretensão da tabela. É algo a ser pensado com muita calma, e uma publicidade que talvez, pela sensibilidade da área, não seja voltada para o paciente, mas sim para os meios de prospect de pacientes. (Mala direta também é publicidade, é um caminho).

Um material feito com cuidado, carinho e criatividade pode ajudar muito a criar ou fortalecer parceias entre profissionais (como temos aqui entre fonoaudiólogos e psicólogos, psiquiatras e psicólogos, e porque não entre psicólogos e psicólogos?).

10- Na Academia do Psicólogo, temos a visão de uma psicologia mais divulgada, associada à positividade e também, vista como um negócio pelos profissionais da área. Com isso, acreditamos que mais pessoas poderão ter acesso à saúde mental e claro, que ela se torne menos gourmetizada. Quando você escreveu sobre esse tema, você também fala de uma visão, por exemplo, que “os cuidados com a saúde mental deixem de ser luxo e passem a fazer parte do nosso pacote essencial de sobrevivência”. Gostaria que falasse sobre essa perspectiva e quais caminhos que você enxerga para nos aproximarmos dela.

Reforçando, é preciso descobrir a didática que vá trazer o povo para esta abordagem da importância de cuidar de si mesmo, além do cuidado físico. Infelizmente, junto com a cultura recente do cuidado físico, percebo, pelo menos em minha volta, uma superficialidade cada vez maior.

É um movimento de massa, ninguém simplesmente decidiu querer ser saudável, sinto que estejam apenas seguindo a “horda”. Então não sei dizer ao certo se as mesmas pessoas que possuem interesse em saúde física, teriam também interesse na saúde mental. Não se pode começar a atirar no escuro pra todos os lados, precisamos descobrir onde está nossa demanda.

Eu passo pelo mesmo drama relacionado aos limites criativos, de um modo que nossas redes sociais se tornam inúteis e acabam sendo uma mera formalidade “só pra dizer que estamos ali”. Tenho muitas propostas e ideias, mas ainda sou “apenas” um freelancer que está presente pra dar uma ajudinha com a nossa correria diária.

11- Para finalizar, quais dicas você daria aos psicólogos que desejam mostrar e oferecer seus serviços por meio da publicidade?

Falei bastante sobre ideias do uso da publicidade nos itens acima, mas acredito que o ponto chave é considerar que talvez o foco das campanhas não seja o paciente, mas sim o que traz o paciente. É preciso que influenciadores façam uma revisão do que é a terapia na sociedade.

Infelizmente teremos que revirar a sociedade pelas entranhas para poder desconstruir o que foi feito com a imagem da psicologia com o passar dos tempos. Pode ser um trabalho também de jornalismo, com assessoria de imprensa e sugestões de editoriais voltados para a saúde mental.

Filipe Carvalho é publicitário, tem 25 anos e você acessa seu perfil e contatos aqui.