Pular para o conteúdo
Psicologia Geral Mais

Afinal, o que é o setting terapêutico?

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Sabe aquela sensação de confiança e otimismo por saber que, independente do que aconteça, temos onde nos apoiar? De que mesmo quando nós forçamos a barra, damos alguns passos errados e tentamos burlar/boicotar nosso próprio bem-estar, temos um respaldo que acolhe e protege?

Pois então, é mais ou menos assim que podemos começar a significar o setting terapêutico, sob o viés da psicanálise.

O Setting Terapêutico

Mais do que um espaço concreto, o setting pode ser entendido como um tipo de redoma maleável que envolve e ajuda a estabelecer a relação (de altos e baixos) entre paciente e terapeuta.

Fundamenta-se como uma condição para que o tratamento ocorra.

Um campo - podemos dizer – atmosférico, que delimita, organiza e permite que o psiquismo, de quem faz terapia, manifeste-se de forma mais livre, mais segura. Facilita para que o sujeito mostre quem ele realmente é, e regresse até quem ele realmente foi. Na mesma intensidade, garante ao profissional maior estabilidade e, como consequência, uma escuta mais disponível e atenta. Uma zona ideal para que a transferência aconteça. É um lugar especialmente constante, que colabora para a empatia do clínico e para a credibilidade de ambos.

Mas, claro, nada disso é obra do acaso.

A construção desse ambiente, depende, fundamentalmente, da postura ética do terapeuta, da sua capacidade de agir com firmeza e da habilidade em manejar com o sim e com o não.

Tipo assim: quem ama, frustra! Por mais que sejamos pessoas legais, simpáticas e que de maneira alguma pensamos em ser malvados com os nossos pacientes (principalmente por medo de perdê-los), temos que saber a hora do nãnaninanão.

Devemos lembrar que por mais que estejamos diante de um senhor de 80 anos, com conflitos atuais, nosso inconsciente se depara com o inconsciente de uma criança, sedenta por um holding ao redor de seus impulsos.

Alguém, ou melhor, um conjunto de ferramentas (e isso inclui o terapeuta) que lhe forneça bordas, principalmente em casos mais regressivos e desorganizados. Contornos que quando bem desenhados, entenda-se, compreendidos e assegurados, garantam o que Zimerman chama de “útero psicológico”, acalentando e contribuindo para o desenvolvimento do sujeito.

Talvez para alguns seja óbvio, mas é preciso relembrar que não existe receita de bolo para o cuidado psicanalítico.  Muito menos a necessidade de um consultório de “encher os olhos”, “top de linha”.

O que existe são algumas recomendações que vão casar com determinados perfis, formando diferentes tipos de vínculo e dinâmica. Acordos referentes aos honorários, dias e hora dos encontros, férias, faltas, entre outros, que serão o ponto de partida da jornada terapêutica e, mesmo variando no formato, e de pessoa para pessoa, mantém a função principal do setting: nortear e sustentar todo o processo analítico. Regras que precisam ser muito bem combinadas e recombinadas ao longo do tratamento.

Conforto e segurança

Claro que é importante nos sentirmos confortáveis com o lugar onde vamos ser psicólogos ou pacientes. Um local limpo e ajeitado causa prazer, boa impressão e disposição em qualquer um, em qualquer posição.

Mas, o que vai garantir uma convivência tenaz e bem-sucedida, é a disponibilidade para manter um jogo aberto, arranjos claros e a possibilidade de flexibilizar em determinadas situações. E todos esses requisitos devem ser internalizados pela dupla, para que ambos reconheçam seus papéis, seus limites e suas responsabilidades.

Ao psi, é essencial conservar as referências de Freud sobre o anonimato, a abstinência e a neutralidade. Por mais que os tempos sejam outros, e que hoje fiquemos muito mais próximos dos nossos pacientes, a assimetria – e uma certa distância - são vitais para o êxito do trabalho.

Naturalmente, muitos pacientes tentam romper com esse posicionamento, e/ou com os acertos feitos com o terapeuta, contudo, cabe a esse último, não se deixar levar pelo medo de ser rígido ou antipático.

Troca de horários, mensagens frequentes, atrasos, faltas, redes sociais, são tentativas bem comuns de transgressão. Mas, se cedermos a isso, corremos um risco enorme de – consciente ou inconscientemente – perdermos quem tentamos tratar.

Por fim, queremos lembrar que apesar das considerações sobre o setting terem sido pensadas na perspectiva do consultório, hoje, existem mais espaços onde os tratamentos psicológicos acontecem – Acompanhamento Terapêutico, Grupos, Instituições hospitalares - utilizando o entendimento analítico.

Para tanto, como dito anteriormente, mais do que um local físico, o enquadre se constitui através de um pacto selado pela ética, pelo respeito e pela confiança.

Até logo.


Autoras: Simples Insight - Que tal ouvir sobre psicologia e psicanálise de maneira leve, atual e divertida? Que tal aprender também sobre atendimento clínico, supervisão, atendimento online, redes sociais, início de carreira… Pois todos estes temas – e muito outros – serão tratados pelas psicólogas da Simples Insight. É a psicanálise abordada de uma forma mais solta, dinâmica e simples. Acessível para estudantes, profissionais e curiosos de plantão.

Compartilhar este post