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Mais Bem-estar do Psicólogo

Acadêmicos de Psicologia Devem (ou não) Fazer Psicoterapia?

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Eu me lembro como se fosse hoje da minha primeira sessão de psicoterapia. Lembro de bastante coisa mesmo. Lembro da escolha do profissional – que foi baseada na indicação do meu orientador do estágio na clínica – da primeira ligação, dos dois cancelamentos antes de começar e enfim, do dia que entrei pela primeira vez em uma clínica de psicologia.

Eu tinha os olhos e ouvidos muito atentos à tudo. Bom, eu realmente gostaria de manter aqui a palavra “atentos” mas, vou ser sincera, eram julgadores mesmo. Eu queria saber se aquela psicóloga ia fazer tudo do jeitinho que eu aprendi na faculdade, se ela estava fazendo certo ou errado.

E foi aí que eu recebi o primeiro banho de água fria.

A espontaneidade com que aquela profissional conduzia a sessão, andava a vontade pelo consultório, servia um copo de água e falava comigo, acabou com a minha averiguação metódica e rigorosa. Eu percebi que ela estava inteira ali e eu quis estar também.

Então, eu contei “o que me trouxe até ali”. O meu discurso pronto e bem formulado, que havia sido pensado e repensado umas dezoito vezes até a sessão acontecer de fato, contava sobre minha história de vida e, principalmente, sobre os tantos motivos pelos quais eu, uma acadêmica de psicologia, deveria ir ao psicólogo.

Sim, deveria. Era isso que meus professores diziam, que meus colegas diziam, que o coordenador de curso dizia: os acadêmicos deveriam fazer psicoterapia. Inclusive, eles tinham ótimos argumentos. Alguns deles eu vou até trazer aqui, porque são pontos importantes.

Mas, eu entendi nessa primeira sessão, que todos esses motivos, bastante racionais e generalistas, poderiam até ter me levado à sessão inicial, mas, não me fariam ficar.

No meu caso, procurei uma psicóloga porque eu almejava ser uma boa profissional e, entendia que para isso, eu precisaria da experiência de vivenciar eu mesma a psicoterapia. E continuo pensando assim, considero fundamental que um bom psicólogo – seja ele da área clínica ou não – tenha que ter, ele mesmo, vivenciado o seu processo de psicoterapia.

Voltando à minha primeira sessão, eu entendi naquele instante, que o foco desse momento não era o desenvolvimento da minha carreira como psicóloga. O foco era eu.

E há bastante diferença nessa mudança de perspectiva.

Por mais que na teoria eu já soubesse que funcionava assim, de alguma forma, eu acreditava – ou queria acreditar – que o real motivo para eu procurar por psicoterapia era o fato de eu ser estudante do curso e precisar disso para minha carreira na psicologia.

Mas, não. O processo só aconteceria se eu mergulhasse inteira. Integral. Eu estava investindo e dedicando tempo à mim mesma. Estava ali por mim. Não só a Daiana psicóloga e sim a Daiana.

É claro que, olhando atualmente para os benefícios e resultados da psicoterapia, foram absurdas (no bom sentido) as contribuições para o meu desenvolvimento profissional. Mesmo! Entendo hoje que só aconteceu desse jeito, porque eu permiti cuidar também de outras dimensões importantes de quem eu sou.

O que quero compartilhar aqui, antes de mais nada, é que não eu acho que você deva procurar um psicólogo simplesmente porque é acadêmico de psicologia.

Mas, porque você é humano.

E você merece estar bem para trabalhar com outras pessoas.

(Falando em humano, dá uma olhada nesses vídeos, você vai adorar: "O que nos torna humanos? Será por que amamos, por que brigamos? Por que rimos? Choramos? Nossa curiosidade? A busca pela descoberta? Motivado por estas questões, o cineasta e artista Yann Arthus-Bertrand passou três anos coletando histórias da vida real de 2.000 mulheres e homens em 60 países").

Cuide de você

O trabalho na psicologia é ao mesmo tempo muito delicado e muito profundo e, ao desenvolver esse trabalho, você até pode fazê-lo sem olhar com cuidado para sua história, seus comportamentos e suas relações. Mas, fico muito à vontade em dizer que as chances de você fazer isso bem feito são bem maiores quando você percebe que tem dificuldades e potencialidades como qualquer outro.

É muito gostoso perceber que você não é tão importante assim para ser “diferentão” das outras pessoas e não precisar de psicoterapia, e que ao mesmo tempo, é sim tão importante a ponto de ser digno de dedicar-se às suas questões em um tempo, espaço e com um profissional preparado para isso.

Conheço profissionais que tiveram um caminho diferente do meu: desde aqueles que só iniciaram no curso depois de um longo processo terapêutico, aqueles que faziam terapia desde o primeiro semestre e também os que nunca fizeram. Talvez, outros psicólogos possam compartilhar suas experiências aqui e enriquecemos essa reflexão.

Eu não poderia ter uma resposta pronta e acabada para essa questão e optei por compartilhar a minha experiência pessoal. Mas, sabe aquele ditado de que a gente só dá aquilo que um dia já teve?! Faz bastante sentido pra mim. E mais, arrisco dizer que você, acadêmico de psicologia ou psicólogo, deveria sim procurar por uma experiência com psicoterapia. Logo!

E se já vivenciou, quem sabe procurar uma abordagem diferente, um outro método de trabalho... Viver na pele, sabe?!

Essa experiência foi muito boa para mim desde o início. Além dessa, tive outras vivências com psicodrama, psicologia corporal – todas muito positivas – e continuo até hoje meu processo de psicoterapia na abordagem psicanalítica. Talvez você não tenha a “sorte” de encontrar de cara um bom profissional com o qual você se identifique, mas, persista. Existem muitos profissionais bacanas prontos para ir com você até a sua melhor versão.

Ah, só para não deixar esse ponto sem nó: também não é para “fazer por fazer”. Vez ou outra também precisamos nos afastar do processo e entender porque estamos neste caminho, avaliar nossos resultados e tomar decisões sobre ele.

Afinal, a gente se acostuma.

E a psicoterapia serve para a gente não se acostumar e não se perder de si mesmo:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. 

Marina Colasanti

Coloquei esse trecho da Marina Colasanti em texto, mas descobri ele na voz e interpretação provocativas do Antônio Abujamra. Você pode ouvir e ter essa mesma sensação assistindo esse vídeo.

E eu falei desse texto porque, assim como eu não quero me acostumar, eu também desejo que você não se acostume. Nem com suas feridas, nem com a ausência da dor. Nem em ir toda semana no mesmo horário para a terapia, nem com a falta de um espaço para cuidar da sua saúde mental.

E que tenha sempre esse estranhamento: estranhe esse texto e o que eu digo, o que seus professores dizem e o que seu psicólogo lhe diz.

Esse estranhamento, costuma nos aproximar do estranho que somos.

Dito isso, já que estamos falando de psicoterapia, dê uma olhada neste infográfico com “3 informações básicas sobre psicoterapia”.

E o que os estudos dizem?

Eu contei aqui da minha experiência e visão, mas, para ler sobre o assunto de uma perspectiva mais científica, tenho alguns artigos para indicar:

De cara, esse artigo já mostra que 98,3% dos estudantes consideraram muito ou extremamente importante a psicoterapia pessoal para a formação do psicólogo. Há toda uma contextualização de como além do repertório teórico, a formação pessoal é complementar e essencial para o desenvolvimento de habilidades para a atuação e postura profissional.

Mostra também que apesar do interesse, muitas vezes a psicoterapia é protelada por questões financeiras e relacionadas a falta de tempo, mas, que na proximidade dos estágios e da atuação profissional, a necessidade de conseguir discernir entre os próprios movimentos emocionais daqueles dos pacientes, reforça a necessidade dessa experiência.

Aliás: “a experiência não é somente o que nos passa, mas o que nos  toca.” (p. 62).

Este artigo fala sobre a experiência de um programa de intervenção chamado “Tornar-se Psicólogo para além das aulas”. Nele, avaliaram entre vários aspectos as mudanças quanto ao auto-conhecimento, a capacidade de reflexão e complexificação, ao conhecimento do papel do psicólogo, a construção de uma representação menos idealizada da profissão, a capacidade de identificar recursos para a transição de papeis e um sentido de unicidade de si enquanto pessoa e profissional, entre estudantes de psicologia.

Resumindo, uma fala de uma acadêmica que participou da pesquisa: “Nós somos pessoas psicólogas e não psicólogas pessoas! Nós somos a nossa principal ferramenta de trabalho e, assim sendo, é fundamental para o nosso desempenho profissional que nos desenvolvamos e cresçamos enquanto pessoas.”

É muito bacana a contextualização inicial que já marca o porquê de não ser obrigatório o tratamento pessoal durante a graduação, apesar de sua importância. Ele estuda um viés psicanalítico, mas, arrisco dizer que também pode ser aplicado de uma maneira geral à psicologia. Veja esse trechinho que o artigo apresenta apud Freud (p.140), nas cinco lições de psicanálise:

 "notamos que  nenhum  psicanalista  avança  além  do  quanto  permitem  seus próprios complexos e resistências internas". 

E aí, você tem alguma dúvida?

Além disso, esse mesmo artigo propõe um resultado interessante: a partir do 8º semestre, 100% dos estudantes participantes do estudo indicam que o tratamento pessoal está contribuindo também para um maior aproveitamento acadêmico.

Certamente você poderá encontrar outros estudos e, porque não, desenvolver sua própria pesquisa sobre o tema?

De fato, não encontrei nenhuma razão pela qual você não deveria fazer psicoterapia.

Mas, adoraria discutir o assunto com você.

AUTORA

DAIANA RAUBER

@psicodaianarauber - daianarauber@psicoleitura.com.br

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