3 Aprendizados que a Grade Curricular da Psicologia Não Oferece
Mas, você pode aprender, porque mesmo que isso não esteja na grade curricular – talvez não oficialmente – é justamente o tipo de coisa que não se pode trancafiar numa grade. É mais fluido que isso.
01 - Colaboração
Outro dia estava vendo um vídeo que falava sobre a “cola”. No vídeo, o Gustavo Tanaka dizia assim: “Por que passar cola é proibido? A cola deveria ser estimulada, cola é colaboração. A gente proíbe as pessoas de ajudarem umas às outras”. E aí, é claro, nós entendemos que todos precisamos individualmente mensurar nossos resultados e capacidades...
Mas... Espera aí, será que precisamos mesmo?
Só para provocar um pouquinho, te convido a conhecer a Escola Comunitária Cirandas, a Escola Politeia e a Escola Amorim Lima. Ou se você empolgou, olha de uma vez essa matéria especialíssima do Hypeness mostrando iniciativas de educação fora da caixa. Bem, vamos falar só sobre isso num próximo post, pode deixar.
Voltando ao assunto, eu mesma vivenciei na faculdade experiências de grande aprendizado de forma colaborativa, o que mais me vem a memória são as provas de processos básicos com o professor Eduardo Legal – e eu nunca vi um nome simbolizar tão bem uma pessoa.
Nas nossas provas, feitas em grupo, vivenciávamos um momento em que absolutamente todos os alunos se envolviam, tiravam dúvidas, trocavam saberes, pesquisavam e aprendiam. Bem, pelo menos funcionou comigo. Atualmente, também já existem trabalhos integrados entre as diversas disciplinas.
Então, eu penso: será que estamos começando a caminhar por esses trilhos em que a colaboração e o aprendizado é mais valorizado?
Em outro momento, participando de um grupo de estudos, no final da graduação e que continuei após ter me formado, encontrei um facilitador extremamente generoso. E, as suas dicas mais práticas, os exemplos e analogias que utiliza, os cuidados, os acordos... Coisinhas básicas, do cotidiano, mas, que fazem uma enorme diferença, colaborou e muito para minha atuação.
E, isso não estava a priori, na grade do grupo de estudos. Mas, estava na base humana do facilitador!
De um aprendizado que ele mesmo já relatou ter vivenciado, com a generosidade de figuras que cruzaram seu caminho. Pelo visto, quando colocamos em prática aquilo que acreditamos isso se multiplica. É, o mundo não está pronto e acabado, estamos agindo sobre ele.
Fora desse contexto exclusivamente acadêmico, a colaboração também é essencial. Como profissional, tenho visto dia após dia, cada vez mais iniciativas feitas em grupo e coletivos. Sabe aquele professor que passa um trabalho em grupo e diz que não é para cada um fazer uma parte e juntar num Frankenstein? Dê um tapinha nas costas dele por mim e diga que ele está certo. Porque ele está, sim!
Pode demorar mais, dar mais trabalho, mas, o resultado também é outro.
Claro que iremos desenvolver bastante nossas habilidades individuais, mas, sem perder a oportunidade de crescer nessas trocas e aprender a realmente trabalhar em grupo, porque vamos precisar. Estou dizendo isso, porque duvido muito que em algum contexto de atuação, não será imensamente importante colaborar com profissionais de outras áreas, com outros psicólogos, com toda a rede envolvida neste trabalho.
Fazer junto amplia e potencializa as atividades de tal maneira que não faz sentido trabalhar sozinho e dispensar a riqueza da qualificação, inovação, crises e insights que um bom grupo de trabalho oferece.
E, se você acha que é mais “competitivo” guardando seu conhecimento só para você, peço que pesquise um pouco mais sobre as estratégias da gestão do conhecimento utilizadas atualmente nas organizações e lançar seu olhar para uma outra perspectiva, sobre como você e/ou sua organização podem crescer trocando, disseminando e contribuindo para o crescimento do outro.
E a colaboração ultrapassa até mesmo esses limites.
Essa é mais uma questão de mentalidade mesmo. Quer um exemplo? Sabia que 62% dos consumidores trocariam suas marcas habituais por aquelas que melhoram a cidade? Isso é colaboração! A pesquisa você vê nesse link. E tem mais: 9 em cada 10 consumidores esperam que as empresas façam mais do que apenas lucrar, mas também agir de forma responsável com questões sociais e ambientais. Veja a pesquisa aqui.
Sabe o que isso significa? Que a responsabilidade social é uma realidade e colaborar é essencial para que ela seja efetiva.
Participo do programa Selo Social em SC e SP e, com ele, vejo empresas, órgãos públicos e entidades sociais/ongs sedentas por contribuir com um mundo melhor, desenvolvendo projetos sociais de alto impacto e colaborando umas com as outras. E por que fazem isso? Porque entendem o quanto isso é valioso do ponto de vista comunitário, de diferencial competitivo, de engajamento dos colaboradores e até em termos de marketing social.
E sabe o que mais a colaboração oferece? O nosso próximo tópico: conexão.
02 - Conexão
E porque não falar em contatos, networking, relacionamento? Escolhi conexão, para que possamos trabalhar focados na ideia de uma habilidade essencialmente ligada à empatia e a capacidade de compreender melhor o que as pessoas dizem, querem, gostam, precisam.
Nesse mundo em transição e de quebra de paradigmas, precisamos ser capazes de “sentir tudo que se toca; escutar tudo que se ouve; ativar os vários sentidos; ver tudo que se olha...” como já dizia o querido Augusto Boal, criador do teatro do oprimido. Falando nisso, vale a pena conferir uma prévia do livro “Jogos para atores e não atores” e inspirar-se com esse método de trabalho com grupos.
Bem, depois dessa conexão inicial de empatia, chega a hora de realmente fazer as ligações entre as pessoas e suas diversas aptidões. Não é só a partir de afinidades que desenvolvemos nossas relações – os opostos e dispostos se atraem – logo, a disposição e atenção para idear e testar parcerias, integrações e diferentes combinações de pessoas, projetos, habilidades faz muito sentido.
A coleção “Desenvolvimento Profissional” da Você S/A propõe um modelo bem didático para o networking e, apesar de falar naqueles tópicos tradicionais e até um pouco mecânicos que precisamos aprender – tecnologias, aperto de mão, um bom cartão de visita, linguagem corporal, tom de voz, etc – há algo que é muito claro, antes de mais nada: seja íntegro e tenha clareza sobre seu objetivo.
As ferramentas aparecem só depois disso.
Daí em diante, conseguimos nos preparar: priorizar as pessoas com potencial para ajudar, escolher o melhor método de comunicação e arranjar tempo para conhecer as pessoas. Sim, isso é algo que podemos aprender, por maior que seja a timidez, é de relação humana que estamos falando aqui, então, ser sincero e interessado pode ser bem mais eficiente do que dominar algumas técnicas mecanizadas.
Comece devagar, fazendo contatos simples com pessoas do seu cotidiano por gentileza e não apenas por interesse, comunique-se de forma clara e autêntica. Uma boa conversa tem muito valor e pode abrir muitas portas. Falando nisso, sabe aquela competência famosa, a de comunicação?
Aproveite muito a faculdade como laboratório para desenvolver a comunicação, porque é isso mesmo que ela é.
Além das conexões com o pessoal da sua turma, dos outros períodos, com os professores, com as pessoas dos outros cursos... invista naquele momento de apresentação de trabalhos, pois ele é muito útil. Comece, ainda nessas apresentações de trabalho, a sistematizar e expressar seu conteúdo de maneira atrativa.
Este é um aprendizado que pode ajudar desde a apresentar um bom pitch do seu futuro produto/serviço, quanto demonstrar credibilidade e até mesmo democratizar e possibilitar o maior acesso das pessoas aos conhecimentos.
Duas indicações que poderão te trazer ideias nessa empreitada: Muito além do Power Point - aqui e Transformando cientistas em designers - aqui.
Não menos importante, conte com seus professores. Não tem uma pesquisa pra isso, mas, aposto que se eu perguntar quais as 5 pessoas que mais marcaram sua vida, entre elas, a chance de ter um professor é muito grande. Na faculdade, nossos professores podem ser nossos parceiros. Isso é tão bacana!
Eu aposto nas relações horizontais, com muito respeito e valorização entre as partes, mas, horizontais. Olho no olho! Com isso, conseguimos ver nossos professores não de maneira cristalizada naquele altar do suposto saber, mas, como parceiros para o nosso desenvolvimento.
São muitas as contribuições possíveis, mas, temos que saber aproveitá-las. Uma conversa no início da aula, uma pergunta bem feita durante a explicação, a participação nas atividades propostas, uma reflexão sincera nos últimos minutos, quando os demais alunos já estão saindo da sala... A maioria dos professores estão disponíveis para isso, sim!
Muitos deles, tem uma missão de vida relacionada ao desenvolvimento de pessoas. Então, tente!
É igual o amor naquela frase: “Eu sempre planto amor. No pior dos casos, colho sozinho”.
Falando em conexão entre professores e alunos, preciso compartilhar essa experiência incrível: a professora Kyle Schwartz, do Colorado, perguntou aos seus alunos o que eles gostariam que ela soubesse. As respostas dos alunos, como sempre, são incríveis - veja aqui. E o André Gravatá, escritor e educador brasileiro super atual, fez a mesma pergunta para alguns professores: o que eles gostariam que seus alunos soubessem - veja aqui.
O que vocês acham que aconteceria se fizéssemos essas perguntas para alunos e professores do curso de Psicologia? O que você, que está lendo, gostaria que seu professor de psicologia soubesse?
03 - Brilho nos Olhos
Brilho nos olhos, com a licença de propor uma definição para isso, se aproxima daquilo que você se sente “realizado ao realizar”, aquilo que você vive com intensidade e com tesão em fazer. É o que te move, o que te faz feliz. A sua marca no mundo.
E isso se aprende?
Se aprende sim, senhor. É fruto de muito autoconhecimento e “auto permissão” para experimentar. Agora, pense comigo, psicólogo ou estudante de psicologia, qual seria uma das formas para trabalhar o autoconhecimento e sua entrega às vivências? Seu crescimento e a atribuição de sentido e significado às suas escolhas e atividades?
O que? Não entendi? Você disse psicoterapia?
Espero que tenha sido essa a resposta mesmo, rs. Mas, não se preocupe, em breve o artigo “Por que estudantes de psicologia devem fazer psicoterapia” estará aqui também.
A psicoterapia não é algo imposto durante a graduação, mas, é concebido que o valor dessa vivência já esteja tão fortemente enraizado, que, como diz Anzolin e Silveira (p.13): “o próprio aluno busque sua terapia e entenda que, para se colocar como um psicólogo, para trabalhar no crescimento das pessoas e nos relacionamentos, é preciso que ele mesmo se desenvolva pessoalmente”.
Isso exige disponibilidade e às vezes leva tempo.
Humanos que somos, teremos que conviver com a realidade de que esse é um processo, que às vezes precisaremos de uma intervenção externa – seja com a psicoterapia ou outra experiência – para nos desenvolvermos.
Mas, que o investimento em autoconhecimento e a disponibilidade em experimentar precisa estar presente. Para isso precisamos estar com nossa saúde emocional em dia, precisamos conseguir pausar e “limpar nosso olhar” para que possamos nos apropriar e expressar a beleza que é fazer algo com brilho nos olhos.
Cortella, finaliza a maioria dos seus podcasts com a frase “É tempo para o conhecimento”. A faculdade é isso, mas, vou acrescentar a proposta do grande filósofo dizendo que, neste caso, também é tempo para experimentar.
Se, durante a faculdade, apaixonada pela psicologia social eu torcesse o nariz para a psicanálise e não me permitisse experimentar a atuação nessa abordagem, não teria tido a experiência na clínica escola de maneira avassaladora e humana do jeito que foi. Se, apaixonada pela psicanálise, eu torcesse o nariz para a psicologia organizacional, não teria tido a experiência incrível e que propiciou um crescimento sem medidas no estágio com desenvolvimento de um plano de retenção de talentos em um hospital.
E por aí vai.
Nós nos apaixonamos muito na faculdade (ou é melhor falar só por mim? rs). Mas, no fim das contas, só quando nos apaixonamos por nós mesmos (e pode ser que precisamos de um longo processo de terapia pra isso) que realmente identificamos qual dessas paixões, ou um combinado único delas, que faz os nossos olhos brilharem de verdade.
E aí, damos início a uma jornada em que precisamos desenvolver autonomia, empreendedorismo, ousadia, muito trabalho... Uma longa e linda jornada. Porque, afinal, o que você vai fazer quando tudo isso acabar? Todos fazemos faculdade para nos tornarmos profissionais. Mas, não deixe de ser amador, de dentro para fora, no sentido de ter o brilho nos olhos.
No final das contas, a faca e o queijo nós damos um jeito de arrumar, mas, a fome... Ahhh, é a fome que faz acontecer!
Ah, o artigo citado é esse: Anzolin, C. & Silveira, A. (2003). Falando de Psicologia: entrevista com Guilherme Valle. Psicologia Argumento, 21 (33), abril-junho, 11-15.
AUTORA
DAIANA RAUBER
@psicodaianarauber - daianarauber@psicoleitura.com.br
