Psicologia e Religião

Escrito por Academia do Psicólogo | Jul 13, 2016 6:30:00 PM

https://player.vimeo.com/video/173525245

Referências:

  • Ávila, Antonio. Para conhecer a psicologia da religião. Edicoes Loyola, 2007.
  • Maurice, MERLEAU-PONTY. "Fenomenologia da percepção." São Paulo: WSF Martins Fontes (2006).
  • Mauss, Marcel. "As técnicas corporais." Sociologia e antropologia 2 (1974): 209-233.

Transcrição:

Eu sou o Rafael Lins, sou psicólogo formado pela UFRJ, sou mestrando em psicologia. E trabalho em clínica, com gestalterapia, e religião é um tema que me interessa bastante. E eu estou aqui com a Rebeca.

Meu nome é Rebeca Maciel, e eu sou psicóloga também pela UFRJ. Eu também tenho formação em teologia e em ciência da religião. Desde a faculdade eu tenho estudado religião.

Eu trabalho com psicologia institucional, com escola. E desde a faculdade eu estudo a relação de família, religião e escola. Essa interseção sempre foi do meu interesse.

E a gente está aqui fazendo esse vídeo porque a gente gostaria de convidar você a pensar sobre um tema que a gente considera que é muito importante. Que é a questão da interface, da interseção. O diálogo entre psicologia e religião.

E a gente chega com uma pergunta. O que será que a religião tem a ver com psicologia? A gente tem visto que a religião e a psicologia tem se misturado em muitas práticas. A gente vê, por exemplo, psicologia e tarô, psicoteologia.

Toda a discussão, por exemplo, da cura gay. Ou então de propostas de psicologia que tem uma religião como base para se pensar o ser humano. Isso, como vidas passadas.

Todas essas formas estão muito presentes. A gente todo mundo conhece alguém, algum flyer, algum congresso que falava desses temas. Mas muito pouco é falado do que o nosso código de ética diz sobre o que a faculdade poderia dizer em relação a isso.

E a gente sabe que isso é uma controvérsia muito importante. Provavelmente lá na sua faculdade, ao longo da sua graduação. Ou então até mesmo um papo com os amigos.

Ou inclusive com os pacientes. Você tenha já trazido em debate a questão. Será que a psicologia e a religião tem algum tipo de conversa? Então lá no código de ética, no artigo 1º, fica muito claro alguns princípios fundamentais que orientam o trabalho do psicólogo.

E um desses princípios é que o trabalho do psicólogo ele precisa ser pautado em critérios, em teorias que são comprovadamente científicas. E também no artigo 2, no parágrafo 2, especificamente, do código de ética, ele fala que o ambiente da prática do psicólogo ou do terapeuta deve ser livre de qualquer forma de proselitismo. Seja ele político, seja ele ideológico, seja ele tentar mudar a sexualidade do outro.

E também religioso. É bem contado isso. Eu e a Rebeca, na nossa experiência, a gente percebeu que esse era um tema que aparecia com muitas dúvidas dos nossos colegas.

A gente percebeu com isso que há uma lacuna muito significativa na formação dos psicólogos em relação ao tema da religião. E isso se reflete de várias maneiras na prática do psicólogo. Eu, por exemplo, quando fiz estágio na universidade, tive um colega meu que participava do grupo de supervisão comigo.

E ele era muito combativo contra determinadas religiões. E isso a gente percebia que na condução dos casos que ele tinha, isso aparecia como uma dificuldade. Porque ele já olhava para o outro a partir de um pré-conceito, de uma imaginação que ele tinha sobre o que aquela religião produzia na pessoa, e tinha dificuldade de entrar em contato com a pessoa mesmo, com como ela se apresentava ali e a singularidade dela.

E também, na minha prática de estágio, também vivi uma experiência desse tipo. Porque eu fiz estágio em prática de ensino de psicologia para ser psicóloga e professora de nível médio e nível técnico. E era muito comum que nas turmas de aulas de psicologia, os alunos perguntassem questões sobre religião e psicólogo.

Como o psicólogo lida se o paciente for religioso? Porque boa parte dos nossos alunos eram religiosos e isso afetava muito eles. Então, questões desse tipo sempre chegam. Ou se você trabalha na clínica, ou se você trabalha na instituição.

E… Ah, pode falar agora. É comum. Essa semana mesmo eu ouvi de uma cliente que virou para mim e perguntou assim, Rafael, você acredita em Deus? E eu dei a minha resposta.

Falei sim, acredito sim. E ela ficou muito surpresa, porque ela perguntou assim, Ah, mas como assim? Psicólogo pode acreditar em Deus? Psicólogo acredita em Deus, né? E como isso é uma questão que eu já debato há muito tempo, que a gente já conversa, que eu já estudo sobre isso, poder conduzir isso na clínica foi muito tranquilo. Mas eu acredito que talvez para você, talvez para algumas pessoas que estão assistindo o nosso vídeo, para muitos colegas nossos, isso pode ser algo que deixe ela bem lembrada.

Muitas vezes o terapeuta vai responder, vai devolver a pergunta para a pessoa. Tipo, ah, o quão importante para você é saber se eu acredito em Deus ou não? Que isso é uma intervenção muito possível. Mas que também tem que tomar cuidado para não se tornar uma resposta estereotipada.

Ou que de alguma maneira não dá conta do quanto aquilo é importante para a pessoa. Exatamente. Então, para a gente poder pensar isso, eu acho que é legal para a gente poder pensar essa questão da psicologia e da religião, é legal também olhar um pouco para esse percurso na história da nossa abordagem, na história da psicologia.

Então a gente vai pontuar aqui de leve algumas referências que podem ficar até como referência para vocês mesmos, para poder pesquisar sobre o tema por conta própria. Então a gente vai falar do primórdio da história da psicologia e da religião. Quem foram os caras que começaram a discutir sobre o tema da religião dentro da psicologia? E é muito curioso porque, desde o começo da criação da psicologia na modernidade, tem um assunto da religião, um assunto bem junto com autores que são muito conhecidos para nós.

Estamos usando como referência aqui, vai ser um livro básico para você, o livro do Antônio Ardo, que é esse daqui, não sei se vocês conseguem ver, espero que sim. Ele se chama Barra Conhecer a Psicologia da Religião, das Edições Loyola. E ele é bem básico para você passar por esse trajeto, ver o que tem se pesquisado recentemente e ver o percurso.

E, por exemplo, autores que nós temos de cabeça para falar da história da psicologia, como, por exemplo, Vundit. Ele pesquisou, na sua obra, Psicologia dos Povos, acerca da religião em relação à cultura quando ele tentava construir essa psicologia experimental e ver quais eram os fatores da cultura que dificultavam, ajudavam na produção dessa psicologia. A gente tem também o Freud, que tem alguns textos que são muito marcantes.

Provavelmente você, na sua graduação, deve ter ouvido falar ou, pelo menos, lido. O Malchar na Civilização, o Totem e o Tabu, Moisés e o Monoteísmo, e o Futuro de uma Ilusão. São textos muito fundamentais com os quais o Freud dialogou ao longo de toda a sua vida.
Se a gente for pegar, por exemplo, O Deus em Cristão, que é aquele livro que faz um diálogo com o trabalho do Freud, com o trabalho do C.S. Lewis, que é um teólogo cristão, ele fala que, durante toda a vida, a questão da religião foi uma questão muito fundamental. Desde as cartas que ele compartilhava com os amigos, com o Fies, falando como a questão da religião, por mais que não aparecesse sempre no trabalho dele, sempre foi uma questão muito fundamental para o Freud. Sim, e é interessante que não só para o Freud, mas o próprio Charcot que ensinou o Freud, quando ele estava estudando sobre hipnose, e as estéricas, outros psiquiatras da época se importaram em olhar para a religião, porque eles conseguiam perceber que algumas pessoas que tinham problemas estéricos, obsessivos, também, às vezes, tinham uma religião, e que isso podia ter uma relação.

Então, vários discípulos de Charcot também estudaram religião a partir da patologia, mas, de qualquer forma, observavam esse fenômeno como sendo importante para aqueles pacientes. É claro que existe o contexto da modernidade que influencia esses autores, a ideia da religião, às vezes, como uma coisa primitiva, e olhando sempre para a razão, mas o Mathema é o primórdio de um estudo que não se basta com o psicólogo, e que são referências para nós. É legal isso que a Rebeca está falando, de compreender um autor sempre dentro do seu contexto histórico, porque senão a gente faz uma leitura acrítica e uma leitura anacrônica, ou seja, fora do tempo, como a Rebeca estava falando.

A modernidade tinha esses princípios fundamentais, mas um dos princípios fundamentais era a razão. E tinha essa crença de que, de alguma maneira, o homem iria ultrapassar tudo aquilo que era não-racional, que era ilógico, que era animal ou primitivo, e iria se desenvolver racionalmente por uma sociedade mais igualitária e mais justa a partir desses princípios racionais, a partir de uma ética pautada na razão. E outro autor que trabalhou muito a questão da religião, e a gente não pode deixar de pontuar, de clássicos, é o Jung, que trabalhou a religião de uma forma muito extensa na sua obra.

Ele escreveu 12 obras que falavam de religião, e, principalmente, ele percebia a importância da religião na sua relação com a cultura, na relação da construção de nossas personalidades, na produção de símbolos. Então, de certa forma, muitos autores conseguiam olhar para esse fenômeno, mas nem sempre da mesma forma. Cada um, com a sua peculiaridade de área de conhecimento, seja a psicopatologia, seja a cultura, seja experimental, olhavam para a religião de uma forma afim de não silenciar esse assunto.

E é importante também nos colocar que, pelo menos, quem vai pensar sobre religião, porque é outro assunto também, de marcar a interdisciplinaridade, ou seja, a possibilidade de dialogar com outras disciplinas do que não só a psicologia. E é que o nosso percurso do Tempos Quentes pretende fazer, através desses nossos vídeos, eu pretendo trazer, por exemplo, a antropologia, com o Marcel Mozart, talvez com o Lévi-Strauss, que são autores importantes para pensar a religião. E, talvez, a filosofia, com um dos autores que eu trabalho muito, que é o Merleau-Ponty, que passa sempre na questão do corpo, da experiência no mundo, e a religião deixa de passar por isso.

Então, a gente quer trazer não só autores que sejam clássicos dentro da psicologia de pensar a religião, mas também trazer o saber de outras disciplinas para poder pegar esse fenômeno que é um fenômeno muito rico, muito complexo, muito diverso, e poder pensar ele de diversas formas. Então, o que a gente quer colocar é que, com esses vídeos, a gente deseja fomentar o debate sobre o tema da psicologia e religião, porque a gente percebe como uma lacuna importante para os psicólogos no Brasil. A gente percebe que, por exemplo, eu e o Rafael não tivemos disciplina sobre religião nas nossas faculdades.

Provavelmente, você também não teve, você teve pontualmente. E que, muitas vezes, essas coisas que são antiéticas, essas faltas de sensibilidade com o tema da religião, são por falta de, realmente, contato com a pesquisa da religião, com aquilo que se tem produzido em relação a isso. E é importante a gente localizar que o nosso trabalho é feito aqui no Brasil.

E o IBGE fez uma pesquisa recentemente que traz alguns dados muito importantes para você pensar também no público que você vai atender no seu consultório, no público que você vai oferecer os serviços, e no público que você vai atender no serviço público ou, então, na sua instituição. Por exemplo, o último dado do IBGE, do Censo de 2010, ele aponta que 92% dos brasileiros têm uma religião. Isso não significa que os outros oito não possuam uma espiritualidade ou algo que os mova na parte mais religiosa mesmo.

Mas que 92% colocam isso como algo importante. E existe um estudo internacional por ser diário nos Estados Unidos que apontou que 74% dos brasileiros diz que religião é um tema muito importante para eles. E isso é acima da média internacional de pessoas religiosas.

Então, a gente lida com uma população que é muito religiosa e que o tema não é apenas um tema no cotidiano, é um tema que realmente é constitutivo deles, que realmente é muito importante. Então, com isso, a gente está querendo dizer o seguinte, que esse é um tema do qual a gente não pode fugir e que não pode ser tabu para a gente na psicologia. Afinal de contas, a psicologia sempre teve a proposta de poder mexer nos tabus, de poder revirar aquilo que o pessoal coloca lá e diz que a gente não pode mexer.

Então, a gente quer com esses vídeos poder ajudar você, que é psicólogo, a conseguir lidar melhor com a espiritualidade do outro que chega para você. A gente também quer ajudar você a lidar com a sua própria espiritualidade diante do outro. E disso a gente está falando do quê? De um tema essencial para a psicologia que é o tema da utilidade.

É na diferença que a gente se faz, na diferença que a gente faz do outro. Para mim, que sou gestante terapeuta, a gente trabalha a partir da relação. Então, quando a gente fica com a nossa percepção de mundo sem poder partilhar ela com o outro ou fazendo com que ela se substitua, porque a singularidade do outro, a gente está fazendo mau trabalho dentro da psicologia.

Então, com nossos vídeos, a gente pretende isso, ajudar você a lidar com a sua própria espiritualidade diante do outro e ajudar você a lidar com a espiritualidade do outro, que muitas vezes é diferente da sua. E como é muito importante saber quanto esse vídeo pode ser útil para você, para a sua prática, a gente tem uma pergunta para você responder para a gente. Aqui nos comentários.

O que você experimentou acerca de psicologia e religião? Você já sentiu que sua religião afetou o seu trabalho como terapeuta? Já foi uma questão para você? Ou mesmo um paciente que chegou para você e tem uma espiritualidade tão diferente, tão peculiar, que você se sentiu confundado? Ou mesmo na instituição que você trabalha, como uma instituição religiosa? O que aquilo produziu em você? Que experiência você tem? Porque nós é muito importante saber o que você tem vivido e como a gente pode conduzir esses vídeos para ficar mais interessante para o nosso público. Então, traga os relatos aqui embaixo que nós estamos esperando para repórter de vocês. Então, resumindo o que a Rebeca falou, é como que a religião, sua religião, afeta o seu trabalho, ou afetou o seu trabalho? E como que a religião do outro afetou você? Esse precisa ser afetado e afetado.

Então é isso. A gente fica aguardando aí os seus comentários, as suas respostas, e elas vão ser importantes para a gente poder produzir os próximos vídeos. Quero ver você na próxima aula que a gente fizer.
Então, obrigada. Tchau.

Autores:

Rafael Lins e Rebeca Maciel