Orientação Psicológica Realizada por Computador
Em 2012 o Conselho Federal de Psicologia lançou uma Resolução (011/2012) liberando o atendimento por intermédio do computador. Muitas pessoas foram contra, afirmando que o contato face-a-face é requisito básico para o bom andamento do processo psicoterapêutico, contudo, pesquisas realizadas em diversas partes do mundo, demonstram que essa modalidade pode ser tão eficaz quanto o atendimento presencial.
Quem tem o costume de postar nas redes sociais, ou tem um blog, já deve ter recebido mensagens com pedidos de conselhos, ajuda, ou até mesmo um desabafo. Muitas pessoas anseiam por essa ajuda.
Em outras palavras, existe a demanda e se o psicólogo não ocupar esse espaço, outros terapeutas sem formação, o farão.
Ao contrário do que muitos pensam, essa ferramenta propõe uma alteração no setting terapêutico e não uma construção de nova abordagem. Mas, o que faz tantas pessoas torcerem o nariz quando assunto é psicoterapia on-line? Vários motivos podem ser pontuados, mas acredito que existe um que responde bem a essa pergunta: falta de informação.
Esse artigo tem como objetivo informar como funciona a terapia a distância, quais são as exigências do CFP e quem sabe, esclarecer alguns mitos relacionados a essa prática.
Se você deseja enriquecer os próximos debates, ou tem intenção em se tornar parte dessa nova realidade, seja bem-vindo e aproveite a leitura.
A resolução do CFP autoriza psicoterapia on-line, somente em caráter experimental, para fins de estudo e pesquisa e devidamente autorizados pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme critérios do Conselho Nacional de Saúde. No entanto, é permitido a realização de orientação psicológica, por intermédio do computador, com no máximo 20 sessões síncronos ou assíncronos (ou seja, em tempo real ou não).
Essa distinção entre psicoterapia e orientação psicológica pode trazer algumas confusões, sendo assim, considero necessário esclarecer.
Psicoterapia é um processo de autoconhecimento, aprendizagem e desenvolvimento pessoal. O tempo aqui, é uma variável importantíssima, já que a maioria das psicoterapias não tem um prazo específico para terminar. Podemos observar os sintomas, tentar compreender como eles se estabeleceram, quais as causas e diferentes relações, e assim, encontrar novas formas de ressignificar ou reajustar.
A orientação psicológica on-line é um processo pontual, focado em uma queixa específica e com número limitado de sessões. Devemos elucidar, informar e buscar alternativas mais saudáveis para lidar com o problema. É fato que, para atingir esses objetivos, um certo nível de aprofundamento é necessário, contudo, este não é o foco principal.
Quem pode recorrer a esse tipo de atendimento?
Atualmente, o Conselho de Psicologia, restringe a orientação on-line apenas para clientes que se encontrem em trânsito ou que estão impossibilitados, momentaneamente, de comparecer ao consultório presencial. Crianças e adolescentes, estão vetados.
Como funciona?
A orientação psicológica on-line pode ser de “diferentes tipos”. Isso mesmo. O Conselho não especifica quais tipos são esses, mas podemos observar nos sites cadastrados três modalidades recorrentes: atendimento via e-mail, aplicativos de mensagens e programas de videoconferência. Independente da ferramenta escolhida, deve-se considerar os possíveis riscos, minimizá-los ao máximo e apresentá-los, juntamente com os benefícios, ao cliente, que é quem irá tomar a decisão de dar início, ou não, ao processo.
Cada modalidade apresenta suas especificidades. Veja abaixo:
Via e-mail e aplicativos de mensagens de texto
A orientação via e-mail tem como objetivo ampliar a reflexão do problema e apontar possíveis conexões que provavelmente passaram despercebidas pelo cliente. Muitas vezes também, trabalha-se com psicoeducação – informar sobre os aspectos esperados do desenvolvimento, psicopatologia, personalidade, entre outros.
Prós:
- Os contatos são assíncronos, permitindo que as partes respondam de acordo com o tempo que lhe é conveniente. A espera entre e-mails aumenta a percepção da presença do terapeuta, como por exemplo, o cliente pode escrever sobre sua angústia no momento em que ela ocorre, sem a necessidade de esperar até a próxima sessão.
- Dependendo da frequência dos e-mails, pode-se criar também a ilusão de uma interatividade maior que uma terapia presencial.
- Diferentes pesquisas revelam que o anonimato facilita o falar abertamente, sem medo de se expor e em um tempo menor que demandaria no consultório. É interessante que em alguns casos, os clientes afirmam que estão em terapia, mas não se sentiram confortáveis para falar. Os tópicos que mais aparecem são: abuso infantil, sentimento de culpa, abuso sexual, dor crônica, ideação suicida e automutilação.
Contras:
- Apesar de ser o maior benefício de uma orientação psicológica via e-mail, o anonimato é também uma das maiores dificuldades. Em caso de possível suicídio, as possibilidades de ação do terapeuta (entrar em contato com os familiares ou avisar as autoridades competentes) ficam restritas.
- Não saber com quem se fala, pode também, gerar no terapeuta e no cliente, sentimento de desconfiança, afetando assim o desenvolvimento do trabalho.
- Outro ponto a ser considerado é que, atendimento à crianças e adolescentes é vetado pelo Conselho, mas sem poder ver quem te escreve, como saber a real idade?
- Na comunicação escrita, o contato não verbal se torna inviável, e assim, terapeuta e cliente perdem muitas dicas e informações poderosas que não são ditas, mas estão presentes, podendo ocorrer uma distorção no sentido da conversa, o que por sua vez, gera grandes mal-entendidos.
- Alguns autores recomendam que o uso de e-mail e aplicativos de mensagens seja feito com parcimônia, em casos específicos e como ferramenta a auxiliar no processo presencial (entre sessões ou acompanhamento após o processo de alta). Quando utilizado dessa forma, pode ser um poderoso instrumento.
Via videoconferência (Skype, Hangouts, Facetime, etc.)
Estudos realizados em diferentes partes do mundo (Brasil, Estados Unidos, Suíça, Londres) tiveram como objetivo avaliar o vínculo terapêutico, os resultados obtidos e a percepção de terapeuta e cliente quanto ao processo via videoconferência. As três dimensões tiveram resultados positivos e promissores. Em todos os casos, não foi possível constatar diferença significativa entre atendimento presencial e on-line.
E quais seriam os prós e contras?
Prós:
- A disponibilidade de tempo pode ser um facilitador, pois terapeuta e cliente não ficam restritos ao horário de funcionamento da clínica. Existe a conveniência em não ter que sair de casa, evitar trânsitos e encontrar vagas de estacionamento.
- A privacidade e redução de estigmas também estão presentes, já que o cliente não tem que encontrar outros usuários ou entrar em uma clínica.
- Acessibilidade também é um benefício, pois o acesso a um psicólogo para quem antes não tinha essa possibilidade, como por exemplo, brasileiros expatriados que desejam dialogar em sua língua materna e o interlocutor entenda sua cultura.
- Outro ponto positivo refere-se ao custo. Geralmente, o investimento em atendimento on-line é menor para o cliente, mas especialmente para o terapeuta, que não precisa, necessariamente, alugar ou mobiliar um consultório.
Contras:
- Como citado no caso do anonimato, atendimento em casos de possível suicídio pode restringir (e muito) as opções do terapeuta. Nesses casos, o atendimento on-line deve ser focado em sensibilizar o cliente a procurar um psicólogo presencial.
- A comunicação não verbal fica prejudicada. O contato olho a olho jamais ocorre, já que ambos estão olhando para a tela do computador. O silêncio, tão comum e rico de significado na terapia tradicional, é substituído pelo ruído do computador. O entrar em contato com os sentimentos pode acontecer de forma superficial, buscando mais argumentos racionais do que emocionais.
- Algumas interferências na conexão podem atrapalhar. Contudo, em uma pesquisa realizada no Rio Grande do Sul, tanto cliente quanto terapeuta, se mostraram tolerantes ao afirmar que essas intercorrências não atrapalharam no processo, uma vez que o vínculo estava estabelecido.
Aspectos práticos da orientação on-line
Alguns pormenores devem ser considerados antes de atender on-line.
O primeiro passo é seguir as orientações do Conselho, cadastrar-se no site e conseguir a autorização. Somente sites com o selo de certificação podem exercer essa atividade.
É necessário também ter um lugar reservado, que não tenha interferências externas, internet com boa velocidade e um computador com configurações adequadas para videoconferência.
A data e o horário são combinados entre terapeuta e cliente. Recomenda-se que na primeira sessão, seja reservado alguns minutos extras para fazer ajustes que se fizerem necessários, por exemplo, escolher outro programa, caso o primeiro não venha a funcionar.
O contrato terapêutico também sofre algumas alterações.
Deve-se combinar os procedimentos em caso de emergência, informar das possíveis quedas na conexão, a forma de pagamento, como ocorrerão os contatos entre sessões, bem como o risco de quebra de sigilo e confidencialidade (a internet nem sempre é uma zona segura).
Bom, esse é um esboço básico sobre a orientação psicológica on-line, que está dando os seus primeiros passos no Brasil, mas já vem sendo praticada em outros países há mais de uma década.
Com resultados eficazes e promissores, a terapia à distância é uma ferramenta que tem mostrado que chegou para ficar. Se após ler esse artigo, você continua torcendo o nariz para orientação on-line, espero ver a sua cara quando lhe contarem sobre psicoterapias 100% computadorizadas que estão sendo utilizados para tratamento de ansiedade e TOC (e com excelentes resultados!).
De fato, há muitos psicólogos adotando a prática e, por mais polêmico que seja o assunto é importante abordarmos a questão. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Autora:
Camila Wolf de Oliveira
Psicóloga clínica há mais de 13 anos
Palestrante TEDx
Autoconhecimento liberta
