É cada vez maior o número de idosos participando do trânsito brasileiro, seja como condutores de veículos ou pedestres e passageiros de transporte coletivo. Vive-se mais, tanto no que diz respeito aos anos de vida, quanto em relação à intensidade com a qual se vive.
As pessoas são cobradas a ocuparem seu tempo com diversas atividades, a maioria delas sendo desenvolvidas fora do ambiente domiciliar.
Consultas médicas, compras, visitas aos familiares e amigos, atividade física, grupos de convivência, compromissos religiosos e cursos são apenas alguns exemplos de atividades realizadas por uma parcela da população idosa.
Mas, será que as cidades brasileiras estão adaptadas para o deslocamento adequado dessa população? Os demais participantes do trânsito estão preparados para dividir espaço com as pessoas mais velhas? Será que conhecem o perfil do idoso, suas limitações e suas possibilidades? Os próprios idosos e seus familiares têm consciência de suas condições físicas e emocionais?
Questionamentos como esses são importantes, caso tenha-se o interesse em construir um trânsito mais eficaz e seguro para todos.
Sabemos que a adequação do trânsito às condições dos idosos é importante para o desenvolvimento da autonomia, inclusão social e vivência da cidadania por parte desse grupo. Estudos indicam que a redução na mobilidade pode levar à diminuição da interação social e, consequentemente, ao comprometimento da qualidade de vida do sujeito.
Pesquisas realizadas no Brasil mostram que os acidentes de trânsito relacionam-se às principais causas externas de mortes e ferimentos, sendo os idosos considerados um grupo de risco. Eles são as principais vítimas de atropelamentos, em nosso país.
Essa vulnerabilidade estaria relacionada à fragilidade comum à faixa etária. Com o envelhecimento, mudanças físicas ocorrem e, somadas às dificuldades apresentadas pelo trânsito (espaço físico e fiscalização inadequados, dentre outros), contribuem para que os mais velhos, principalmente os pedestres, correspondam ao grupo mais vulnerável no trânsito brasileiro.
Dentre as mudanças que mais afetam a mobilidade do idoso, estão:
São muitos os obstáculos encontrados pelos idosos, quando eles realizam seu deslocamento a pé: calçadas com desníveis abruptos, guias e rampas irregulares, vegetação inadequada, piso inapropriado e, muitas vezes, objetos em local não permitido, interrompendo a passagem dos pedestres.
E quando os idosos são pedestres e/ou usuários de transportes coletivos?
A falta de semáforos para pedestres em diversos cruzamentos, assim como o curto tempo destinado à travessia deles, também são fatores que interferem no deslocamento dos idosos.
Em relação aos idosos que fazem uso de transporte coletivo público, sabe-se que grande parcela da frota de ônibus que circula em nossas cidades não apresenta condições de atender às necessidades desses usuários. Queixas relacionadas à altura dos degraus são frequentes, dificultando a subida e a descida do veículo. Outro problema é o atendimento inadequado das empresas e motoristas de ônibus, a impaciência com a lentidão dos idosos, a ocupação dos assentos reservados à pessoa idosa por outros passageiros e acidentes causados pela falta de atenção e cuidado dos motoristas são comuns.
De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), existiam cerca de 7 milhões de condutores com idade acima de 60 anos, no ano de 2013. É importante salientar que a prática da condução não é uma atividade limitada pela idade, mas sim pelas condições físicas e psicológicas de cada pessoa, avaliadas nos exames para a emissão ou renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
O Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) estabelece, através da resolução nº 267/2008, quais processos psíquicos deverão ser avaliados em ocasião de obtenção da carteira nacional de habilitação (CNH). São eles:
Dentre os desafios enfrentados pelos motoristas idosos, citamos:
Além dos entraves físicos, encontramos também problemas na via, como a fiscalização precária, a falta de qualidade do asfalto que o torna “esburacado”, iluminação e sinalizações insuficientes, a postura agressiva dos outros condutores com quem dividem o espaço.
Embora não exista uma idade limite para dirigir, quando a integridade física do idoso e a de outras pessoas é colocada em risco, é preciso que a família e profissionais intervenham junto a este, com intuito de prevenir acidentes e consequências graves. Desse modo, a conscientização, por parte do idoso e daqueles que o rodeiam, a respeito das suas condições físicas e psicológicas é fundamental. Muitas vezes, é a família quem percebe que aquele idoso já não apresenta os requisitos necessários para ser um condutor.
Para muitos idosos, o problema em abdicar de seu direito de dirigir reside no fato de que, não contando mais com seu veículo enquanto meio de transporte, poderão tornar-se mais dependentes para locomoverem-se e realizarem suas atividades. Ao dirigir, o idoso vivencia sua autonomia, seu autocontrole, tem a oportunidade de gerenciar sua vida.
A presença de alguns indícios pode revelar que aquele idoso já não apresenta condições de conduzir o carro. São eles a falta de concentração no trânsito, a participação em uma série de pequenas colisões, a dificuldade em assimilar com rapidez necessária a sinalização. Nesses casos, familiares e equipe profissional devem orientar o idoso e ajudá-lo a tomar a decisão mais segura.
A participação do psicólogo mediando esse processo e trazendo indicadores claros, pode contribuir para uma transição mais leve.
Cada caso é único, por isso, antes de proibi-lo de dirigir, podem ocorrer negociações, dependendo do grau de comprometimento do condutor. Há casos, por exemplo, em que horários e trajetos nos quais o idoso pode permanecer conduzindo seu veículo são estipulados.
Sendo o trânsito um ambiente de interação social, ele ocupa um importante papel na vida de todos. Estudos sobre Psicologia do Trânsito e Psicogerontologia são relevantes para o conhecimento dos comportamentos individuais e sociais do homem neste tipo de situação, contribuindo para que todos circulem de uma maneira mais harmônica.
Esse é um espaço em construção, um ponto de partida e de encontro para falar sobre o envelhecimento em suas mais diversas formas. Somos duas amigas, psicólogas e apaixonadas pela Psicogerontologia, uma morando no Brasil e a outra na Espanha. Nós formamos o Singular Idade. Juliana Rêgo é especialista em Gerontologia pela Universidade de Fortaleza e Clicia Peixoto é doutoranda em Psicogerontologia na Universidade de Valência.