Pular para o conteúdo
Crianças e Adolescentes Áreas de Atuação

Terapia focada em trauma para crianças ucranianas na guerra

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

O trauma na infância é um problema de saúde global. Anualmente, até 1 bilhão de crianças em todo o mundo vivenciam alguma forma de abuso emocional, físico ou sexual. Mais de dois terços das crianças relatam pelo menos um evento traumático até os 16 anos.

Sem intervenção precoce, essas experiências podem infiltrar-se profundamente na mente das crianças, que podem reencenar seu trauma original ao entrar em relacionamentos tóxicos que repetem as dinâmicas do abuso parental. Alternativamente, elas podem se envolver em comportamentos de alto risco, incluindo relações sexuais inseguras, delinquência ou abuso de substâncias.

O trauma na infância pode levar a sentimentos de culpa, vergonha, ansiedade, depressão e até mesmo suicídio. Seus efeitos muitas vezes perduram além da infância e afetam a saúde física e mental na idade adulta.

Sou psicóloga clínica e diretora de treinamento na organização sem fins lucrativos Lifeline for Kids, um centro de trauma infantil na UMass Chan Medical School. Desde março de 2022, venho participando de um projeto que trata crianças ucranianas e famílias afetadas pela guerra.

O projeto é realizado por pesquisadores alemães em colaboração com várias organizações. Por meio deste programa — chamado Terapia Cognitivo-Comportamental Focada em Trauma Ucrânia —, forneço treinamento online e consultas para terapeutas ucranianos que estão tratando crianças diretamente afetadas.

Essa experiência reforçou em mim a grande importância do poder de intervir diretamente durante um trauma em andamento e cedo o suficiente na vida de uma pessoa para ajudar a curar as feridas de adversidades complexas.

O Projeto Ucrânia

Durante os primeiros e trágicos meses da guerra, meu papel foi educar terapeutas sobre esta forma de tratamento para que pudessem aconselhar as crianças impactadas pela guerra e suas famílias.

Considerando que elas ainda estavam expostas a uma ameaça contínua na Ucrânia, era importante ajudar as crianças a diferenciar entre um perigo real e o que era apenas um lembrete de seu trauma. Assim, o terapeuta ensinava-lhes técnicas de relaxamento para gerenciar o estresse causado ao ouvir sirenes ou serem evacuadas para um novo local.

Nossa equipe de treinadores internacionais também abordou o trauma secundário — neste caso, o estresse traumático que os profissionais de saúde mental estavam vivenciando.

Os resultados iniciais mostram que mais de 130 clínicos foram treinados em terapia cognitivo-comportamental focada em trauma. Por sua vez, eles coletaram dados de mais de 140 crianças e cuidadores. Os terapeutas avaliaram sua satisfação geral com o treinamento como alta.

Além disso, o programa se concentrou em adaptar as técnicas de terapia para o contexto cultural e linguístico ucraniano, garantindo que o tratamento fosse relevante e eficaz para as crianças e famílias afetadas. Enfatizou-se a importância de estabelecer um espaço seguro e de confiança, onde as crianças pudessem expressar suas emoções e experiências sem medo de julgamento ou represália.

A abordagem também incluiu o treinamento dos terapeutas para identificar e tratar sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e outros distúrbios relacionados ao trauma em crianças e adolescentes. Essa capacitação abriu caminho para uma intervenção mais profunda e personalizada, focada na recuperação a longo prazo e no bem-estar das crianças.

O impacto desse projeto não se limita apenas às crianças que recebem tratamento direto; ele também promove uma comunidade de prática entre os profissionais de saúde mental na Ucrânia, criando uma rede de apoio e troca de conhecimentos que se estende além do período de crise imediato.

Uma Arquitetura Cerebral Diferente

Embora eventos como guerras, pandemias e violência escolar sejam algumas das razões mais óbvias para o trauma, aproximadamente três quartos dos casos relatados de abuso infantil — como o abuso sexual — são cometidos por membros da família ou outras pessoas que fazem parte do "círculo de confiança" da vítima.

Crianças que vivenciam traumas complexos — seja abuso parental ou o fogo cruzado da guerra — desenvolvem uma biologia muito diferente da de seus pares não traumatizados. Estudos mostram que o trauma deixa marcas não apenas no cérebro, mas também em outras partes do corpo.

O estresse crônico leva à ativação contínua do sistema de resposta ao estresse, o qual ativa conexões neurais envolvidas em medo, ansiedade e reações impulsivas.

Mesmo na ausência de uma ameaça real, a resposta de luta-fuga-congelamento — localizada na amígdala, ou na parte primitiva, instintiva e orientada para a sobrevivência do cérebro — permanece constantemente ativada. Algo tão simples como uma mudança na expressão facial de alguém pode ativar os circuitos de medo.

A resposta crônica ao estresse leva à liberação dos hormônios cortisol e adrenalina, que por sua vez têm efeitos a jusante em outros sistemas. Isso pode levar à supressão do sistema imunológico e a pequenas mudanças na forma como a genética subjacente de uma pessoa responde ao seu ambiente. Além disso, outras regiões do cérebro menos importantes para a sobrevivência — como resolução de problemas, aprendizado e memorização — são menos desenvolvidas em crianças que vivenciaram traumas.

Mas pode haver outra reação, mais positiva, ao estresse, que envolve pedir ajuda e apoio a pessoas seguras. É por isso que a presença de adultos de apoio, juntamente com a aquisição de novas habilidades de enfrentamento, pode atenuar o impacto do trauma. Em última análise, é o amortecimento, e não o sofrimento, que determina como uma criança reage ao trauma.

Crianças são resilientes. Com tratamento adequado e apoio de cuidadores e profissionais, elas podem se curar e prosperar.

Além disso, é importante salientar que o reconhecimento precoce dos sinais de trauma em crianças é fundamental para a intervenção efetiva. Profissionais de saúde mental treinados podem implementar estratégias terapêuticas adequadas para ajudar a mitigar os efeitos negativos do trauma, promovendo a recuperação e o desenvolvimento saudável. Abordagens terapêuticas inovadoras, como a terapia cognitivo-comportamental focada em trauma e a terapia de processamento cognitivo, mostraram ser eficazes no tratamento de crianças e adolescentes com experiências traumáticas.

Por fim, é essencial criar um ambiente de apoio e compreensão, onde as crianças se sintam seguras para expressar suas emoções e experiências. Isso inclui não apenas o suporte terapêutico, mas também o suporte educacional e comunitário, ajudando a construir um sistema de suporte holístico que favorece a resiliência e o bem-estar das crianças.

Narrativas Como Meio de Cura

A terapia cognitivo-comportamental é eficaz para muitas condições de saúde mental. É uma forma de terapia de conversa baseada no entendimento de que os problemas psicológicos surgem de maneiras de pensar inúteis ou imprecisas; esses pensamentos então afetam nossas emoções e comportamentos.

A terapia cognitivo-comportamental focada em trauma difere em vários aspectos. Primeiro, ela ajuda a criança a reconhecer como traumas passados afetam sua visão de si mesma e seu comportamento. Por exemplo, uma adolescente que foi abusada sexualmente pode ser desencadeada por um amigo do sexo masculino que se aproxima fisicamente dela.

A terapia também utiliza uma técnica bem estabelecida chamada narração de trauma. Aqui, a criança narra as experiências traumáticas que sofreu. Pode ser expressa verbalmente, por escrito, ou por meio de um desenho, poema ou música.

Com a ajuda do terapeuta, a criança identifica os pensamentos distorcidos que afetam negativamente suas visões de si mesma, dos outros e do futuro: "Foi minha culpa ter sido abusada sexualmente; não posso confiar em ninguém; estarei quebrada para sempre."

O terapeuta então ajuda a criança a mudar sua perspectiva e incorporar o trauma em sua história de vida de uma maneira que não seja mais avassaladora, prejudicial e vergonhosa.

Quando isso acontece, sintomas relacionados ao trauma, como hipervigilância, pensamentos repetitivos e evitação diminuem significativamente. Em vez de se verem como quebradas, danificadas e não amadas, essas crianças reconhecem sua resiliência e força.

Um exemplo: Um menino de 8 anos que viu sua mãe morrer de câncer estava tendo pesadelos severos. O pensamento de doença ou morte o aterrorizava. Ele se recusava a sair de casa, estava emocionalmente retraído e não queria ver amigos.

Mas, após receber terapia cognitivo-comportamental focada em trauma, ele conseguiu expressar suas emoções sobre a morte de sua mãe. Ele não estava mais com medo à noite e seus pesadelos diminuíram. Ele formou novas amizades.

A terapia geralmente requer de oito a 25 sessões, dependendo do número de experiências traumáticas e da complexidade dos sintomas.

Além disso, é importante destacar que a terapia cognitivo-comportamental focada em trauma é adaptável a diferentes faixas etárias e contextos culturais, permitindo que seja eficaz em uma variedade de situações. Os terapeutas são treinados para criar um ambiente seguro e empático, onde a criança se sente confortável para compartilhar suas experiências. Eles também trabalham para fortalecer as habilidades de enfrentamento da criança e promover o pensamento crítico sobre suas crenças e percepções.

Essa abordagem terapêutica não apenas alivia os sintomas do trauma, mas também empodera as crianças, ajudando-as a desenvolver uma narrativa de vida mais positiva e resiliente. Isso tem um impacto significativo em seu bem-estar a longo prazo e na capacidade de lidar com desafios futuros.

Cuidadores são Fundamentais

O fator número um para a cura do trauma é a presença de um cuidador seguro, carinhoso e previsível — seja um pai, avô, assistente social, pastor ou treinador.

Um dos momentos mais poderosos no tratamento ocorre quando a criança — com o apoio do terapeuta — compartilha a narrativa com o cuidador ou outro adulto significativo em sua vida. Essas sessões oferecem uma oportunidade para o cuidador elogiar a criança e reconhecer a força que ela demonstrou ao criar e compartilhar sua narrativa.

Estudos clínicos mostraram que a terapia cognitivo-comportamental focada em trauma é eficaz para crianças e jovens adultos de 3 a 21 anos em todos os cenários geográficos, étnicos, de gênero, religiosos e socioeconômicos. Funciona tanto para um adolescente ucraniano vítima de guerra quanto para uma criança abusada vivendo em um subúrbio dos EUA.

Estudos sobre essa forma de psicoterapia mostram consistentemente que os pacientes têm menos ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático do que aqueles que passaram por outras formas de tratamento. As crianças se tornam mais resilientes e os benefícios da terapia são mais duradouros.

A terapia cognitivo-comportamental focada em trauma ajuda as crianças a mudarem sua história de uma quebrada para uma heroica.

Como uma garota de 16 anos me disse: "Essa terapia mudou completamente minha vida para melhor. Agora acordo todos os dias sem ter esse peso de vergonha e depressão sobre mim. Finalmente posso viver minha vida sem sentir que vou desmoronar a qualquer segundo."

Além disso, é vital reconhecer o papel dos cuidadores no processo de recuperação. Eles não são apenas uma fonte de apoio emocional, mas também desempenham um papel ativo na implementação das estratégias aprendidas na terapia. A capacitação e educação dos cuidadores sobre como lidar com o trauma e suas consequências podem potencializar os resultados da terapia.

As sessões conjuntas entre criança, cuidador e terapeuta fortalecem o vínculo e melhoram a comunicação, permitindo que o cuidador entenda melhor as necessidades e os desafios enfrentados pela criança. Isso cria um ambiente familiar mais saudável e propício para a cura.

Por fim, a integração dos cuidadores no tratamento reforça a noção de que a recuperação do trauma é um processo colaborativo e de apoio mútuo, vital para o desenvolvimento e bem-estar emocional da criança.

Autora: Zlatina Kostova

Fonte: MedicalXPress

Compartilhar este post