Terapia de Casal na Prática

Escrito por Academia do Psicólogo | Jun 18, 2016 12:27:00 AM

Nesse vídeo, Renata de Azevedo explica toda a parte prática da terapia de casal e as dúvidas mais frequentes dos clientes: tempo, frequência e quantidade de sessões, contrato terapêutico, contrato de ética, processo de alta, sessão de fechamento e a possibilidade de realizar sessões individuais.

https://player.vimeo.com/video/170457587

Transcrição

Olá, eu sou Renata Azevedo e seja muito bem-vindo ao canal de terapia de casal na Academia do Psicólogo. No vídeo passado, falei para você sobre a entrevista, a primeira sessão de terapia de casal, e qual é a estrutura que eu costumo utilizar nessa entrevista.

Depois que termino as perguntas, depois que termino a entrevista, vem uma segunda parte, a parte em que explico para o cliente, para o casal, como é a terapia de casal, como funciona, como pode ajudar. Falo da parte mais prática, de horário, enfim, como funciona. E agora quero falar isso para você.

Agora vou falar sobre essa segunda parte, que é a parte de como a terapia funciona. Como é a parte mais prática, a quantidade de sessões, as dúvidas mais frequentes que os clientes têm nesse primeiro momento, o que eles costumam perguntar. Então vou falar para você da forma que trabalho.

Lembrando que existem outras formas, claro, essa não é a única, mas essa é a forma que trabalho. Que gosto, que percebo que funciona, que dá certo, mas existem outras, lógico. Então vamos lá, eu sempre explico para o cliente, isso é uma dúvida que eles têm também, se a terapia vai ser sempre os dois juntos ou se vão ter sessões individuais.

E aí sempre explico para o cliente o seguinte: como é uma terapia de casal, na maioria das vezes vão vir os dois juntos. Pode ser que em alguns momentos eu peça sessões individuais para um ou para o outro, e eles também tenham a possibilidade de pedir sessões individuais se sentirem essa necessidade, se quiserem. Então existe sim a possibilidade de ter sessões individuais, mas não é sempre que isso acontece.

Se a gente não combinar nada, vão vir sempre os dois. Se não, eu posso pedir uma sessão ou outra e eles também, se for o caso. Lembrando que a outra pessoa precisa concordar, já que é uma terapia de casal, a outra pessoa precisa ficar sabendo que vai existir essa sessão individual, e ela precisa concordar.

E uma coisa muito importante é que eu não posso ter um segredo com nenhum dos dois. Eu não posso saber nada que o outro não saiba, mesmo que seja numa sessão individual. Por quê? Porque os dois precisam ter a mesma confiança em mim.

Não existe terapia se um fica achando que eu sei uma coisa que ele não sabe, que eu sei um segredo, que eu tô combinada com o marido ou com a esposa, sabendo alguma coisa que ele não sabe. Então, isso já mina o pilar principal da terapia, que é a confiança. Então, se a pessoa não tem confiança, se acha que eu tô escondendo alguma coisa dela, já acabou a terapia, né? Assim, vai ficar muito difícil trabalhar dessa forma.

Então, por isso que eu já deixo bem claro que eu não posso saber nada que o outro também não saiba, porque senão, isso prejudica muito o vínculo, prejudica muito a relação. Então, eu deixo claro, se isso acontecer, eu encerro a terapia na hora. Se a pessoa virar pra mim e falar assim, "ah, eu tenho uma coisa pra te contar, mas que o outro não pode saber", então, eu também não posso saber.

Então, eu prefiro que você não me conte, tá? A não ser que seja assim, "olha, eu quero trabalhar isso aqui, porque eu quero contar isso pra ele ou pra ela. Eu tô com dificuldade de contar e eu quero contar. Eu gostaria que você me ajudasse nisso."

Ah, beleza. Porque aí não vai ser um segredo. Vai ser uma coisa que a gente vai trabalhar para ser contada.

Agora, "olha, tem uma coisa que o outro não sabe. Eu não pretendo que saiba nunca", então eu também prefiro não ficar sabendo. Por quê? Porque é uma responsabilidade muito grande que você vai assumir.

Imagina que você, além de tudo que você já tem que pensar, além de tudo que você já tem que tomar cuidado numa terapia, numa sessão, você também vai ter que ficar pensando se você pode ou não falar aquilo. Porque será que o outro sabe? Será que eu ouvi isso aqui? De quem? Eu ouvi isso aqui na sessão de casal ou na sessão individual? Será que eu posso falar isso? Será que eu não posso falar isso? É uma responsabilidade que não é sua. Não é responsabilidade do terapeuta ficar pensando se pode ou não falar aquilo, se aquilo é um segredo ou não.

É uma responsabilidade que não é sua, porque vai que você fala alguma coisa. A culpa vai ser sua, não vai ser do outro. Entendeu? Então, é uma responsabilidade que não é do terapeuta.

Isso, para mim, é um limite muito rígido. Se eu souber alguma coisa que o outro não saiba e não venha a saber, eu encerro a terapia de casal, porque não dá para trabalhar dessa forma. Eu, pelo menos, vejo assim, tá certo? Eu prefiro dessa forma.

Talvez outros terapeutas trabalhem de outras formas, como eu falei. Mas eu prefiro dessa forma, eu me sinto mais confortável dessa forma. Outra coisa, se os dois chegarem separados, às vezes eles chegam juntos, beleza, eles entram, ok.

Mas se os dois chegarem separados, eu sempre espero que o outro chegue, eu espero que os dois cheguem, para a gente poder iniciar a terapia. Porque, senão, acontece o mesmo problema. Acontece sendo uma... Mesmo que seja um pedaço, vai ser individual, para depois começarem os dois.

E aí pode vir aquela dúvida, né? O que eles ficaram falando nesse tempo? Será que estavam falando alguma coisa que eu não sei? Isso não pode acontecer, sabe? Isso é muito ruim. Então eu prefiro que... Eu espero os dois... Eu prefiro que eles entrem juntos, eu espero os dois chegarem, para depois a gente poder entrar e iniciar a terapia, tá? A sessão tem duração de 50 minutos. A frequência semanal... Tem alguns profissionais que eu sei que trabalham com a frequência quinzenal.

Eu não gosto tanto da frequência quinzenal. Eu já trabalhei em outro momento com a frequência quinzenal. Eu gosto mais da frequência semanal.

Eu acho que ela é mais rápida, dá um resultado... Assim, o resultado acaba sendo mais rápido. De 15 em 15 dias, acaba sendo um espaço muito grande de uma sessão para outra. Muita coisa acontece.

Aí acaba sendo uma sessão muito mais de notícia. Até as pessoas te atualizarem do que aconteceu naquela semana, já acabou a sessão. Não deu para a gente trabalhar muita coisa.

Às vezes as pessoas esquecem, porque passou um tempo muito longo. Então as pessoas esquecem aquilo que trabalharam na sessão anterior ou esquecem aquilo que aconteceu durante aquela semana, mesmo que tenha sido algo importante. Então, eu prefiro fazer a frequência semanal.

É a frequência padrão que eu estipulei. Às vezes a gente modifica isso, lógico, para mais ou para menos. Mas a frequência padrão que eu costumo trabalhar é a frequência semanal, que eu vejo que aqui costuma ter mais resultado.

Que eu gosto mais, tá certo? Uma outra coisa é que eu sempre vou indicar se a terapia individual é necessária. Claro que a pessoa vai procurar se ela quiser. É uma decisão dela.

Mas cabe a mim indicar se eu estiver achando que a terapia individual é necessária, que seria interessante uma terapia também individual. Então eu sempre falo para a pessoa, "olha, se eu achar que no meio do caminho, se eu achar que tem alguma questão que pode ser interessante para a terapia individual, eu te sugiro buscar uma terapia individual, te indico se você quiser outra pessoa e tal. Mas claro que é decisão, mas é sempre sua, você que escolhe, mas cabe a mim te indicar, te falar o que eu estou vendo."

Mas você decide se quer fazer ou não, aí fica a seu critério. Então isso é uma coisa que eu já deixo claro também, que eu vou indicar se eu achar que pode ser interessante uma terapia individual também. Para um ou para o outro, para os dois, tá? Eu não trabalho com uma quantidade de sessões pré-determinada, então a pessoa fica livre para ela sair se ela quiser, à hora que quiser, tá? Não trabalho nem com mínimo nem com máximo de sessões.

Quando as coisas já estão melhorando, aí eu costumo fazer algo que eu chamo de processo da alta da terapia, aí sim a gente começa a espaçar as sessões, aí a gente passa para de 15 em 15, passa para uma vez por mês, até a gente encerrar, meio que como manutenção, meio que um desmame, sabe? Para ir tirando a terapia aos pouquinhos, eu não gosto desse corte brusco, assim, "ah, então agora vocês estão bem, agora acabou a terapia, tchau". Eu não gosto muito, eu prefiro ir tirando aos pouquinhos, para o casal ir sentindo, sabe? Teve um casal que estava nessa fase de processo da alta, de desmame, digamos assim, e ele falou uma metáfora que eu achei tão legal, sabe? Ele falou que estava se sentindo como se ele estivesse aprendendo a andar de bicicleta, e aí sabe quando você está ali, o pai está segurando a bicicleta, o assento, e aí o pai tira a mão, e aí você pedala um pouco sozinho, aí bota a mão de novo, aí você olha para trás para ver se o pai realmente está ali segurando, ele falou que estava se sentindo assim, sabe? Como se ele estivesse aprendendo a andar de bicicleta, e estivesse olhando assim para ver se tem uma pessoa ali mesmo ajudando, sabe? Ou se ele está fazendo sozinho, então eu achei muito legal essa metáfora, eu falei assim, "poxa, muito legal", até passei a usar, de vez em quando eu uso. Então é isso, sabe? Para o casal ir ganhando mais confiança, de que eles podem passar pelas situações sozinhos, eles não precisam mais da terapia porque eles já estão bem, pelo menos naquele momento, então que eles podem passar pelas situações sozinhos.

E se for o caso do casal encerrar a terapia antes da alta, eu sempre gosto de fazer uma sessão de encerramento, eu gosto de fazer um fechamento da terapia, eu combino com a pessoa que não seja um abandono, que ela me avise com pelo menos uma sessão de antecedência, que é para a sessão seguinte, para a gente poder fazer o fechamento da terapia, porque eu explico que a terapia tem início, meio e fim, a gente precisa fechar um ciclo, ela é um ciclo, ela precisa ter esse fechamento, isso é importante, mesmo que o fechamento não seja alta da terapia, é importante a gente fechar, que ela não fique uma coisinha aberta, então que não seja um abandono, ou que não avise pelo telefone, "não vou mais não", por WhatsApp, "não vou mais não", que me avise pelo menos antes dessa última sessão, que é para eu guardar os minutos finais da última sessão, para a gente fazer esse encerramento, que é uma avaliação da terapia, de como foi o processo, como foi estar ali, se ajudou, se não ajudou, se teve de bom e tal,

Então, essa sessão de fechamento é muito importante, eu sempre combino isso na primeira sessão, na entrevista, na primeira sessão de terapia, e a maioria costuma cumprir direitinho, a maioria costuma fazer essa sessão de fechamento, porque entende que é um ciclo a ser fechado, a terapia é um ciclo, e precisa encerrar também. Uma outra coisa que eu explico, é que eu sempre parto do princípio que ambos estão certos, que eu não acredito que existe um certo e um errado, então que não esperem que eu vá julgar nada, porque esse não é o meu papel, porque simplesmente cada um tem o seu ponto de vista, porque cada um tem as suas experiências, as suas histórias, e por isso cada um tem o seu ponto de vista, e eu não considero que um ponto de vista é mais importante do que o outro, portanto, eu não posso julgar que ponto de vista é melhor, que ponto de vista é certo, que ponto de vista está errado, porque eu considero que os dois estão certos, apenas são pontos de vista, interpretações diferentes, e isso certamente tem uma explicação no seu histórico, em suas experiências, então eu explico isso para a pessoa, que não esperem que eu vá julgar, porque isso não vai acontecer.

Uma outra coisa é que o objetivo da terapia é a relação, a gente vai tratar de questões individuais, lógico, porque são duas pessoas, então claro que a gente precisa tratar de questões individuais, porque tem duas pessoas ali, só que são questões que estão influenciando na relação, se não é algo que influencia na relação, "ah, influencia no meu trabalho", então aí é terapia individual, você leva para a sua terapia individual, agora a gente vai trabalhar tudo aquilo que está influenciando na relação, o objetivo ali, claro que cada um vai acabar se melhorando, cada um vai acabar se desenvolvendo, isso é lógico, porque é uma terapia, mas o objetivo vai ser sempre no desenvolvimento e na melhora da relação, não de forma individual, mas na relação, esse é o objetivo de uma terapia de casal, esse é o que diferencia da terapia individual, e eu não trabalho nem só com o passado e nem só com o presente, é algo que eu também explico, não fica só no presente, aquela coisa mais objetiva de "vamos ver o que pode fazer então para melhorar, quais são as outras possibilidades", não é algo só tão objetivo, é isso também, é algo mais no presente, algo mais focado, mas tem também a parte do passado, de verificar a história de cada um, as experiências de cada um, por que aquilo chegou daquela forma, por que chegou no estado que chegou o relacionamento, então eu sempre falo que a gente fica nesse ping pong de passado e de presente, tanto olhando lá atrás as causas, tentando entender muitas coisas, porque a partir do momento que a gente entende, a gente toma consciência, e aí fica muito mais fácil de conseguir modificar o que precisar modificar.

E também, a gente vem para o presente, trabalha de forma mais objetiva, porque é aqui no presente que a mudança de fato acontece, então eu falo que a gente fica nesse ping pong, eu sempre explico isso, que não vai ser nem só no passado, nem só no presente, mas a gente vai ficar indo e voltando, porque os dois são muito importantes, e os dois fazem parte da terapia, uma outra coisa é que eu falo, eu chamo de contrato de ética entre o casal, porque a terapia de casal pode ser o céu ou o inferno, e aí é o casal que vai decidir isso, por que? Porque a terapia de casal é um espaço de cuidado, só que é um espaço que as pessoas vão falar coisas difíceis, vão ouvir coisas difíceis também, nem sempre eles vão sair felizes e contentes da terapia, então uma coisa que é importante, é que eles encarem a terapia como um espaço de cuidado, e não peguem aquilo que a gente está trabalhando, as questões que a pessoa está expondo, colocando na terapia como munição para uma próxima briga, porque tem gente que faz isso, colhe as informações na terapia, que a pessoa expõe, e aí em uma próxima briga em casa despeja tudo isso, na cara do outro, e aí detona a terapia de casal, porque a outra pessoa já não vai se sentir confortável para falar, porque vai ficar com medo, com receio de que isso aconteça novamente, lógico, óbvio, então ela não vai se sentir mais tão à vontade para expor, para falar dentro da terapia, e aí não tem muito mais sentido a terapia, e isso acaba atrapalhando e até impossibilitando mesmo a continuidade do processo, porque se a pessoa não está se sentindo à vontade, então fica mais difícil da gente conseguir trabalhar.

E uma outra questão, e isso eu chamo de contrato de ética, entre o casal, eu falo que isso é extremamente importante, eles precisam estar de acordo com isso, senão a terapia de casal fica muito difícil, e uma outra coisa importante é o nosso contrato de terapia, tudo que eu explico sobre a parte mais objetiva da terapia, a mais prática, de horário, valor do investimento, falta, férias, frequência, tudo isso eu coloco num contrato de terapia, esse contrato é real mesmo, não é só um contrato de boca, não, eu envio esse contrato para a pessoa por e-mail, e ela querendo iniciar, eu imprimo o contrato, são duas cópias, ela fica com uma cópia, eu fico com a outra, o contrato ele não prende a nada, ele não tem multa, não tem nada disso, mas ele é muito importante, eu considero ele muito importante, para a gente ter tudo claro, tudo certinho, e eu acho esse contrato tão importante, mas tão importante, que eu acho que ele merece uma parte especial para ele, então a gente vai, em outro momento, a gente vai debater, a gente vai falar só sobre o contrato de terapia, tá certo? Bom, então, essa é a parte mais prática, né, da terapia de casal, é isso que eu explico para os clientes, quando eles vêm buscar terapia de casal, como eu falei, essa é a minha forma de trabalhar, certamente existem outras, tá? É dessa forma que eu gosto de trabalhar, que eu me sinto mais à vontade, e que eu percebo que ajuda, que funciona, então é isso que eu estou passando para você, tá certo? Então, até uma próxima e até lá!