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Áreas de Atuação Psicogerontologia

Teorias do Envelhecimento na Psicologia

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

A perspectiva do envelhecimento hoje em dia é bem diferente de como se pensava esse processo há 40 anos. Por isso, a ciência foi tentando, à medida que essas mudanças aconteciam, adaptar-se e criar novas teorias na tentativa de dar conta desse fenômeno.

Como parte dessa dinâmica entre a realidade e a pesquisa científica também estão outros fatores: as questões econômicas, sociais e emocionais. Os idosos, como coletivo, foram criando novas demandas e necessidades. E foi então que a ciência, nesse caso a Psicologia, passou a pensar a velhice como um período em que é possível que o sujeito siga ativo, aprendendo, relacionando-se e buscando adaptar-se.

À raiz disso foram construídas as teorias que vamos citar abaixo. Teorias que concebem o idoso como um ser que pode seguir em transformação e que não tem porque se resignar às limitações que podem ser impostas por aspectos físicos, cognitivos e/ou sociais.

Teoria Psicossocial do Desenvolvimento Humano (Erik Erikson):

O autor enfoca sua teoria no desenvolvimento do ego e nas crises pelas quais este passa, considerando o contexto sociocultural do qual o sujeito faz parte. Entende que a construção da personalidade sofre influência de fatores internos (psicológicos) e externos (sociais) e que, ao longo da vida, o sujeito vai crescendo, transformando-se e amadurecendo.

Erikson amplia os estudos sobre personalidade para além da infância, defendendo que aquilo que construímos durante os anos iniciais do ciclo vital pode ser parcialmente transformado, inclusive durante a velhice.

O autor faz uma analogia entre os desenvolvimentos psicológico e embrionário.

Em ambos os processos, a fase anterior do desenvolvimento dá condições para o surgimento da fase seguinte, influenciando seus desdobramentos. De acordo com essa teoria, o desenvolvimento humano ocorre em oito estágios. Em cada um deles, duas tendências conflitantes deflagram uma crise que precisa ser resolvida de maneira satisfatória para o sujeito.

O desfecho da crise tanto pode ser positivo, tornando o ego mais fortalecido e contribuindo na superação dos futuros desafios, como pode ser negativo, fragilizando o ego e levando novamente o sujeito para estágios anteriores, dificultando a superação das crises seguintes.

Vamos nos deter nos dois últimos estágios, pois são neles que questões do envelhecimento tornam-se mais evidentes.

O sétimo estágio do desenvolvimento caracteriza-se pela crise entre a produtividade e a estagnação e ocorre durante a meia idade. Nesse estágio, o sujeito dedica-se a tudo o que pode construir enquanto valores sociais, materiais, ideias, etc. Existe um movimento de fazer-se sobreviver por meio de suas “obras”, daquilo que produziu durante sua vida.

Perceber que suas realizações não foram acolhidas pelos outros, não terão continuidade (filhos, empresa, etc) pode levar à vivência de estagnação e de uma vida “sem sentido”, sendo este um desfecho negativo.

No último estágio, o da velhice, há a crise entre integridade e desespero. Trata-se de um momento de reflexão, de busca de sentido para sua vida e construção do significado da morte. Para aqueles que chegam à conclusão de que viveram bem, que realizaram muito do que desejavam e de que a vida “valeu à pena”, é uma fase que traz um senso de integridade e dignidade.

Porém, para aqueles que não se sentem realizados, que acreditam que ainda tem muito a fazer e pouco tempo para isso, a vivência de desespero, nostalgia e tristeza acompanha a velhice.

Teoria do Life-Span (Baltes):

Pensa o envelhecimento como uma realidade a ser estudada a partir de uma visão interdisciplinar. Considera o desenvolvimento psicológico um processo que ocorre ao longo de toda a vida e que nenhuma etapa vital tem preponderância sobre a outra. O que significa que o sujeito pode, durante toda sua vida, desenvolver habilidades que facilitem seus processos de adaptação entre perdas e ganhos.

Também entende como imprescindível para a compreensão do desenvolvimento psicológico o estudo conjunto de outras disciplinas como a Antropologia, a Biologia e a Sociologia.

Segundo essa teoria, o envelhecimento depende de determinantes de tipo genético-biológico assim como de fatores socioculturais.

O desenvolvimento é entendido como o resultado da influência de três fatores: os regulados pela idade (genético-biológicos e ambientais); os regulados pela história (psicossociais); e os de tipo não normativos (eventos não regulados pelos fatores anteriores, por exemplo: doenças, acidentes).

Durante a velhice, o ideal é que o sujeito, como nas outras etapas da vida, encontre um equilíbrio entre perdas e ganhos, com a peculiaridade de que nesta etapa o declínio (cognitivo, sensorial e psicomotor) é o aspecto predominante.  Por isso, a plasticidade é um aspecto central nessa teoria, já que ressalta o potencial de adaptação da pessoa a novas situações.

Potencial esse que é construído por recursos internos (conhecimentos, habilidades) e externos (condições ambientais).

“SuccessfulAging” (envelhecimento produtivo, envelhecimento saudável):

Uma das ideias mais fomentadas pelo “Successfulaging” é a do “velho jovem”.  

Envelhecer com êxito pode ser: gozar de um estado de saúde considerado equivalente ao de uma pessoa mais jovem; dispor de um estado de funcionalidade ideal (sem deficiências e sem doenças físicas); ou manter nos aspectos cognitivo e psicossocial um bom nível de satisfação com a vida, ainda que tenha que conviver com alguma doença crônica ou deficiência.

São tomados em consideração aspectos como a deficiência, o funcionamento físico e, especialmente, o nível de rendimento nas Atividades da Vida Diária (AVD).

Em especial a teoria do Envelhecimento Produtivo propõe que os idosos estabeleçam um compromisso ativo com suas vidas, evitando doenças e ao mesmo tempo mantendo-se ativas cognitiva e fisicamente. Trata-se basicamente de uma perspectiva do envelhecimento que prima às atividades que os idosos podem fazer em benefício aos demais.

Para essa teoria as atividades que se restrinjam ao âmbito individual não são tão importantes.

O principal é oferecer a sua capacidade de trabalho ao “outro”, podendo ser este “outro” a comunidade, os netos, os assistidos de uma instituição de voluntariado, etc. Entretanto não se trata de impor uma teoria homogeneizante no sentido de que todos os idosos deveriam participar socialmente, essa seria apenas uma forma de envelhecer.

A construção de tais teorias é de grande relevância porque reconhece o envelhecimento como uma etapa de oportunidades e de crescimento pessoal e, porque não, profissional. É uma forma de admitir junto ao mundo que o idoso uma vez que passa dos 60, 70, 80 anos não deixa de ser atuante, de desejar e de existir.

Algumas consequências práticas são:

  • O surgimento de novas propostas políticas baseadas na perspectiva do envelhecimento ativo;
  • O crescimento de formações específicas de profissionais que queiram trabalhar com envelhecimento;
  • O aumento do interesse e da quantidade de pesquisas na área de gerontologia, principalmente na área de psicogerontologia;
  • O surgimento de novas instituições e empresas voltadas para idosos, seus cuidadores e familiares;
  • Uma maior compreensão e aceitação, por parte das instituições e dos próprios idosos, da presença de profissionais com formação em gerontologia, tendo em vista que estes podem melhorar o modo de cuidar e perceber o envelhecimento, proporcionando uma melhora na qualidade dos serviços oferecidos;
  • O desenvolvimento de produtos específicos para o público idoso.

Que possamos continuar desenvolvendo novos saberes e práticas que possibilitem vivências cada vez mais satisfatórias e saudáveis para nossos idosos, porque enquanto houver desejo, haverá vida!

AUTORAS

SINGULAR IDADE
singular.idade.web@gmail.com

Esse é um espaço em construção, um ponto de partida e de encontro para falar sobre o envelhecimento em suas mais diversas formas. Somos duas amigas, psicólogas e apaixonadas pela Psicogerontologia, uma morando no Brasil e a outra na Espanha. Nós formamos o Singular Idade. Juliana Rêgo é especialista em Gerontologia pela Universidade de Fortaleza e Clicia Peixoto é doutoranda em Psicogerontologia na Universidade de Valência.

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