Psicologia Bariátrica - Entrevista com a Nutricionista Ana Flavia

Escrito por Academia do Psicólogo | Jan 27, 2017 8:02:00 PM

Esse vídeo é uma entrevista especial que o Psicólogo Douglas Amorim fez com a nutricionista Ana Flavia. O objetivo é apresentar uma visão multidisciplinar da psicologia bariátrica. Assista e compreenda como as duas ciências se complementam e permitem ampliar o olhar sobre a pessoa que procura por atendimento.

https://player.vimeo.com/video/201061957

Douglas

Então, hoje a gente trouxe aqui uma convidada especial na quadra, ela é nutricionista.Ela trabalha, entre outras coisas, com atendimento a pessoas no pré-operatório e a gente vai tentar entender um pouco, através da visão da nutrição, como se dão as questões do obeso. Muita gente sabe sobre o comportamento do obeso, como se estrutura um comportamento, de repente, hiperfágico, algum comportamento que leva a pessoa a se tornar obeso, mas tem algumas outras questões que são de uma outra área e a gente depende do conhecimento muito profissional. 

Ana Flávia

Olá, tudo bem? Meu nome é Ana Flávia , sou nutricionista clínica funcional e me tornei no ano de 2010 na Universidade Federal do Mato Grosso e logo depois que me tornei eu já entrei em um mestrado na própria instituição. O meu mestrado foi na área de metabolismo e transição final.Resumindo, eu vi a parte hormonal, a gente trabalhou muito com hormônio e doença metabólica. Então, a doença metabólica que eu subi no mestrado foi a doença hepática gordurosa não alcoólica, conhecida também como streptose hepática e a gente analisava o perfil genético da população, um gene específico e a associação desse gene com a streptose hepática para ver se tinha um componente genético associado. Junto com esse grupo de pesquisas de gordura hepática, a gente analisou também diabetes e obesidade.Então, nós éramos três alunas, cada uma focava em uma, mas ao mesmo tempo a gente estudava todos. Então, foi aí que foi surgindo a minha vontade de trabalhar com o obeso. O obeso acaba vindo com todas essas doenças metabólicas associadas também, diabetes.A obesidade vem com a complicação do diabetes, vem com a gordura no fígado, pressão alta, tudo isso está tudo interligado. E a partir daí eu fiquei com vontade, muita vontade de trabalhar nessa área e eu estou aqui.

Douglas

A doença do fígado com excesso de gordura tem a ver com excesso de açúcar e com essas outras coisas?

Ana Flávia

Exatamente. Muitas pessoas, o que eu lembro comum dos pacientes, é achar que a gordura no fígado está ligada à ingestão de gordura na alimentação. Por exemplo, eu estou na edutora e só consumo muita gordura, por isso que estou com gordura no fígado.Não. A relação é principalmente com o consumo de frutose, xarope e frutose, que está presente em bebidas açucaradas, biscoitos recheados, sorvete, mas tendendo para a questão do aumento do consumo de carboidrato. Refrigerante, são coisas que as pessoas não associam com gordura no fígado e hoje a principal causa de gordura no fígado é o excesso de peso, mas principalmente vindo desse consumo exagerado de alimentos que incluem carboidrato.

Douglas

Quando você decidiu trabalhar com nutrição, ou agora mais especificamente com a questão da obesidade, do pré e do pós cirurgia bariátrica, você tomou essa decisão por conta de algum histórico? O que te motivou a, de repente, optar por nutrição ou esse trabalho específico?

Ana Flávia

Então, a nutrição, eu tenho uma vontade de trabalhar com nutrição desde os meus 15 anos. E aí acabou que entrei no mestrado, como te disse, fui trabalhar com essa parte da obesidade, dessa metabólica, sempre gostei muito da parte endócrina, hormônio, nutrição clínica. Desde a época de faculdade eu tive um estágio, também um estágio na área de produção, nutrição escolar, outras áreas eu nunca tive a oportunidade de fazer nutrição clínica.A minha família gosta muito de comer, principalmente a família daqui. Eu tenho família no sul, família aqui em Riabá. Então, é família muito grande, minha avó tem 7 filhos, tudo é motivo de eu ir na casa da vovó pra comer.Tá feliz? Vamos comer. Tá triste?Vamos comer, vamos comemorar o sucesso do festival, vamos comemorar o sucesso da empresa. Tudo é comida. E eu tenho casos de obesidade na família, eu tenho casos familiares, de primeiro, segundo, terceiro grau, todos os graus dos filhos que passaram por cirurgia bariátrica também.Então, é um desafio. Então, eu gosto muito dessa área porque eu vejo que a grande maioria tem um sucesso muito grande. A gente consegue ter uma transformação de vida enorme.

Douglas

Essa é uma área que eu queria entrar. Normalmente, as críticas raras que a gente ouve à medicina, à nutrição, que acaba acompanhando um pouco o trabalho da medicina, essa coisa de dizer não é focado muito na manifestação da doença. Então, é muito focado na manifestação e não cuida de questões que são comportamentais, que levam aquilo.Eu queria que você falasse um pouco sobre isso, porque conhecendo o seu trabalho um pouco, eu sei que você tem um outro pensamento. Você trabalha a questão embrionária do comportamento, do ensinar as pessoas a se relacionar de uma forma ou de outra com a alimentação.

Ana Flávia

É importante falar disso, porque estamos dando muito grande manifestão. Geralmente, a gente chama de manifestão tradicional, focada na caloria, contando caloria, dando um papel para o paciente, como se aquilo simbolizasse tudo. Como se fosse só isso, seria aquele papel, como se fosse algo básico.Não é assim, a alimentação é muito mais do que isso, do que seguir uma dieta contando caloria. Eu venho de uma linha chamada de nutrição funcional, que já muda um pouco essa área de caloria. A gente trabalha com o alimento em outro aspecto, não contando caloria, mas sempre muito preocupado com a densidade nutritiva do lugar e do alimento.Eu gosto muito de uma área que trabalha com a resposta hormonal à injeção alimentar. Não só dentro da quantidade de nutriente, mas também com o efeito hormonal sobre o corpo. Por exemplo, vou dar um exemplo para ficar mais claro.Vamos supor que um copo de refrigerante tem 80 calorias. Um colher de amêndoa tem 80 calorias. Claro que a caloria é igual.Então, para alguém que segue a linha tradicional, pode dizer que não, mas é importante a caloria. Então, eu vou tomar um copo de refrigerante que tem 80 calorias, porque eu gosto e prefiro tomar refrigerante, eu não gosto de amêndoa. Então, para o nutricionista tradicional, entenderam a questão da caloria.Já para o nutricionista funcional, ele vai pensar assim, mas não é só a caloria. O refrigerante tem nutriente, a caloria varia. Calorias, insulina, sódio, carboidrato, açúcar.A amêndoa tem a questão da gordura boa, das vitaminas e minerais. Eu já penso assim. Além da questão das vitaminas e minerais da gordura boa da amêndoa, tem um efeito que isso causa no corpo em relação à liberação de hormônios.O açúcar, especificamente o refrigerante, vai liberar a insulina, que é um hormônio que tende a armazenar gordura no nosso corpo. É um hormônio anabólico. E não vai me dar saciedade.Esse açúcar vai entrar no meu corpo, vai ser transformado em verdura, vai ser estocado em açúcar, em uns estocos. E não vai me dar saciedade, logo eu vou estar com fome. A amêndoa, além de me nutrir, de me dar gordura boa, vitaminas e minerais, ainda vai manter a minha saciedade controlada.

Douglas

Entendi. Então, a nutrição funcional, ela parte de buscar o que aquilo traz de benefício, não apenas cortar calorias e tentar emagrecer.

Ana Flávia

Qual o efeito daquilo dentro do meu organismo em relação aos hormônios. E aí a gente trouxe uma novidade. A gente não, né?Os professores maravilhosos da instituição que eu me formei, trouxeram uma novidade esse ano no congresso, que até compartilhei aqui tudo que você comentou. Foi sobre o Mindful Eating, que é a questão do se alimentar consciente. Foi o primeiro palestro do professor Gabriel de Carvalho, que é um excelente profissional.Nossa, meu Deus, ele é maravilhoso. E foi abrindo o congresso a questão do se alimentar consciente, de você prestar atenção. Uma coisa básica, né?Porque a gente, às vezes, fica preocupado com cálculos, com libertários. Ah, eu vou colocar 100 gramas a mais, 100 gramas a menos. Qual que é a importância disso, se o paciente não fizer?

Douglas

Exatamente.

Ana Flávia

Nenhuma. Então, essa questão de você resgatar alguns dos libertários, né? Fala, ah, isso a gente já viu em Carvalho há algum tempo.Como o fato de sentar a mesa das profissões, né? Não realizar as refeições, deixar o celular, assistir televisão. E agora, mais profundamente, vem essa parte do Mindful, que é de você fazer uma meditação com a comida.A gente fez um exercício disso, né? Em que ele nos dava, na hora que a gente entrava na palestra, ele nos dava um pacotinho com castanha. E ele pedia pra nós pegarmos uma castanha de caju.A gente sentia, em Carvalho ele estava no azul, a gente sentia a textura da castanha, o cheiro da castanha, tudo antes de levar a boca. A gente imaginava, fechava os olhos e imaginava aquela castanha sendo produzida, cheirando até ali, sendo embalada para comercialização. Depois, a gente levava a castanha na boca, sentia de novo qual era a textura da castanha, o sabor, tudo isso antes de mastigar.

Douglas

É, mas ele deixava um bom sabor a castanha.

Ana Flávia

É surreal a diferença que você tem. E ele mostra isso tudo já. Isso não é mais uma coisa empírica ou machismo.

Douglas

Não é uma experiência.

Ana Flávia

Não é uma experiência, né? Ele trouxe isso tudo mostrando que até pacientes de cirurgia se alimentavam muito melhor quando eles faziam esses passos. Depois ele passou uma série de outros passos, de você imaginar, por exemplo, será que eu vou comer mais esse prato porque simplesmente está muito gostoso, é uma comida que eu amo?Ou porque eu ainda estou com fome? Eu vou ter que saber respeitar o sinal de saciedade. É muito fácil de comer mais, uma comida que a gente adora.

Douglas

Eu comento com os pacientes, partindo da psicologia cognitivo-comportamental, que a gente coloca as coisas no automático. A gente tem experiências, e aí depois que a gente tem experiências, ou seja, que a gente absorve aquela coisa como uma espécie de comportamento comum, a gente não se pergunta mais, não se questiona mais sobre aquilo. Então, o repetir se torna um hábito.

Ana Flávia

Então, a gente acordar de manhã, eu fico com o pente.

Douglas

É, você vai sem ver, você já está fazendo aquele movimento.

Ana Flávia

Eu dirigi as vezes para vir para o trabalho, tem hora que eu erro o caminho porque eu vou para outro lugar, mas eu já estou direto vindo para o trabalho.

Douglas

Exatamente. E aí a gente coloca no automático. O comer acaba também no automático, ainda mais com o dia-a-dia tão exigente de horários, de compromissos.Muitas pessoas comem no carro, tem comidas escondidas pelo carro, para poder ir fazendo as coisas. O alimentar não é mais uma cerimônia, né? De sentar a mesa, de ir para casa, isso, com manchas, com vinho.

Ana Flávia

É uma casa da avó, uma reunião de ser a família, todo mundo sentava a mesa, hoje em dia não fica isso, raramente.

Douglas

Raramente as pessoas fazem isso, almoçam com manches, com pratos industrializados. Então, é bacana essa visão da nutrição, que vem de encontro com a preocupação dos profissionais psicólogos, que trabalham com a escologia bariátrica, com a obesidade de modo geral. Porque é ensinar para as pessoas que aquele comportamento é aprendido e ele pode ser transformado, ressignificado, ele pode ser perdido.Então, esse exercício que você citou, que vocês fizeram, vem muito de encontro com o que a gente tenta fazer com os pacientes que lutam contra a obesidade. E aquela pessoa que foi obesa, ela sempre vai lutar. É como uma pessoa que fumou durante alguns anos.

Ana Flávia

Olha, você falando sobre isso, agora me lembrei de uma paciente que eu atendi ontem de pré-operatório. Ela me disse assim, Ana, eu sempre lutei contra o efeito. E eu tive muito problema na infância, não lembro se era problema de bronquite, alergia, que ela tinha que ficar muito encrenada.E na época, anos atrás, o problema que ela tinha, eu não me lembro o que era, mas eu sei que ela tinha uma anestesia geral. Ela não tinha... Ah, não, ela estava andando no ônibus.E a anestesia geral, ela tinha que ficar muito tempo sem comer, e tinha que fazer alguns jejum durante um período muito longo, que era criança. Então, ela sempre acorda disso, e hoje ela tem um favor de sentir fome. Ela precisa estar o tempo todo comendo, porque ela tem um favor.E ela lembra muito nitidamente, ela me falou isso, lembra muito nitidamente de passar muita fome na infância, devido à série de exames e jejum que tinha que fazer para as anestesias e para as cirurgias, e hoje tem um favor de ficar com fome.

Douglas

Então, eu imagino que o comportamento dela é todo dia encercada de comida.

Ana Flávia

Ela fala assim, ela não precisa comer muito, mas a geladeira dela tem que estar sempre cheia do que o comportamento dela. Vaziou um pouquinho, ela come, e acaba com a geladeira de comida. Então, esse tipo de paciente, como a maioria dos pacientes, eles não precisam só de um acompanhamento nutricional.Tem muita gente, mas ainda tem muita gente que se confunde com relação à nutrição. Algumas pessoas sabem o que fazer e como fazer. A gente precisa só de liberar as estratégias, mas como a gente vai conseguir fazer aquilo se ele tem todo esse problema que ele faz desde o início?

Douglas

Ana, qual é a diferença entre o paciente que está lutando contra obesidade e essa pergunta não é uma crítica, mas é só para compreender mesmo a diferença entre o paciente que está lutando contra obesidade, seja no pós, no pré, ou a pessoa que decidiu não fazer a cirurgia, mas está lutando, e a pessoa que quer emagrecer para entrar em uma roupa, que quer perder os fatos que eles fazem no verão. Qual é a diferença? Tem diferença nesses perfis?

Ana Flávia

Eu acho que tem, porque geralmente esse paciente que já vem lutando, geralmente o excesso é muito maior. O paciente que quer perder quase 3 quilos, 2 quilos para viajar, para entrar no vestido para uma festa, ele já não é o paciente que vem com excesso de peso. Não tem comorbidade associada, ele vem mais com uma questão estética.E já o paciente que luta no pré, no pós-operatório, geralmente ele vem com excesso de peso, um índice muito acima de comorbidade da 1 ou da 2. E ele já vem lutando com dificuldades.

Douglas

Ele chega já cansado. Ele já chega até esgotado.

Ana Flávia

Ele já esgotou todas as possibilidades. Eu costumo falar que o paciente que vem fazer a cirurgia é o paciente que vem para emagrecer. Qual é a primeira alternativa dele?Ele já vem contado de alternativas, ele já passou por várias condições endocrinologistas, já teve dieta de hormônio sem remédio, dieta da sopa. Então, ele já vem esgotando as possibilidades.

Douglas

Esse outro paciente que vem por questões estéticas, ele tem uma força de vontade um pouco maior porque a questão dele é mais é mais pontual.

Ana Flávia

É quando você tem um objetivo, eu costumo dizer assim, você tem um objetivo, você fica mais focado. Isso é natural do ser humano, né?

Douglas

E perder 4 quilos é muito mais próximo ao resultado que ele quer do que perder 30, 40, 50, né?

Ana Flávia

Exatamente.

Douglas

Você falou sobre a questão hormonal, que foi o foco do teu estudo no mestrado. Alguns pacientes chegam no consultório e eles dizem, eles fazem algumas afirmações, essas afirmações de própria experiência, mas que não tem tanto conhecimento. Ah, depois que eu fiz a cirurgia a minha libido mudou, eu percebo diferente.Tem alguns que declaram que ficou melhor, tem outros que declaram que ficaram piores. E eles associam isso a cirurgia bariátrica, o fato de ter emagrecido de alguma forma. Tem outros que dizem que o humor mudou, que era uma pessoa muito feliz e que agora está uma pessoa um pouco triste e que talvez esteja desenvolvendo um quadro de depressão.Já tem o contrário, as pessoas que diziam que era muito triste ficavam só em casa, agora estão mais expansivas, estão frequentando lugares diferentes, conhecendo pessoas novas. Na praia, né? Tem uma mudança de comportamento que eles colocam na cirurgia bariátrica.Eu, como profissional de psicologia, a gente acaba tendendo a observar o comportamento, mas eu imagino que é uma outra questão, seja hormonal, tipo de alimentação, a diferença de absorção do corpo, você acredita que seja?

Ana Flávia

Então, com relação à alimentação, a gente tem mais um efeito da perda de peso. Como a gente já tinha conversado antes, o tecido adiposo, a gordura, ela tende a diminuir o nível de testosterona, que é o hormônio responsável pela libido, tanto dos homens quanto das mulheres. Então, pensando na fisiologia, perder peso, perder gordura ajudaria o organismo a aumentar o nível de testosterona porque isso aumentaria a libido.É óbvio que isso não acontece com todos os pacientes, tem pacientes que tem o efeito contrário. Eu acho que é muito mais ligado à questão da psicologia e da forma como o paciente se vende pelo medicamento. A questão de imagens torcidas, etc.Com relação aos pacientes que envolvem o quadro de refeição, isso pra mim é muito notório a questão psicológica. Por quê? A comida é usada praticamente por todos os pacientes, eu vejo como um alto escape.Então, eu estou muito triste, estou com raiva, como uma paciente que eu tenho por cima. Ela já fez uma cirurgia com a do café há 15 anos atrás e estava indo pra um outro procedimento, e ela lutou com depressão, transtorno de estresse psicológico de algum tipo. E ela disse pra mim, eu como quando eu sinto muita raiva, quando eu estou muito irritada, eu preciso de comida.Agora ela conseguiu não comer mais quando está triste, antes ela comia quando estava triste também. Ela conseguiu tirar a comida quando está triste, mas quando eu estou com raiva, eu preciso comer. Então, a comida é usada pra conter emoções.E aí, o que acontece com o paciente quando ele faz cirurgia? Ele não pode mais comer, se alimentar como se alimentava antes. A quantidade de índole, muitas vezes a tolerância a alguns alimentos que ele gostava muito, não era mais a mesma, o paladar muda, isso controla muito a cabeça do paciente.Por isso que é importante esse acompanhamento com o terapeuta, no pós-operatório, no pré-operatório, pra dar ferramentas pro paciente, como lidar com isso.

Douglas

Como lidar com essa mudança.

Ana Flávia

Como lidar com essa mudança, porque ele só vive isso e não come.

Douglas

Então, está ligado ao próprio corpo que muda, com a absorção, com as questões hormonais, mas isso também vem ligado a uma questão comportamental e que inicialmente fez com que ele se tornasse obeso, essa associação emocional com a comida, né?

Ana Flávia

É, eu costumo falar assim, gente, comida não é terapia. E eu tenho pedido ao médico pra ele não operar o seu estômago. Isso é uma mudança anatomofideológica, né?Mas que comanda naturalmente.

Douglas

Alguns pacientes, eles relatam, e eu posso falar até da minha experiência, que eles, quando crianças, eles não tinham horários. Então, quando quisessem, ou até a geladeira, até o armário, ou alguns relatam, né, que passaram fome na infância, alguma dificuldade, e quando cresceu, criou esse hábito, até o momento que você viu, esse hábito de comer em excesso, comer quando quisesse, porque a comida vira uma recompensa, vira um carinho que se dá, um afago, e aí eles relatam que quando criança, eles não sabiam a diferença entre fome e vontade de comer, por quê?A criança, por não saber, toda vontade de comer que surge, ela fala é fome, né? Existem diferenças entre fome e vontade de comer?

Ana Flávia

Existe, a gente tem trabalhado no profissional, e eu sempre falo para os pacientes, tem até umas recomendações que eu dou antes de entregar o plano alimentar, que eu coloco, mastigar devagar os alimentos para obter saciedade, descansar os carinhos no prato, essa é a primeira. A segunda é diferenciar fome real, fome física, de vontade de comer, esse parece emocional, por quê? O que acontece?Isso acontece com a gente também, e aí eu falo para eles, se perguntam, na hora que bate a fome, primeiro coisa, se você não souber se é fome ou vontade de comer, tiver na dúvida, eu comeria um alimento que eu não gosto, vou dar um exemplo, eu não curto muito, digamos, peito de frango, aí pensa no peito de frango, aquele bem branco, sem tempero, sem gosto, eu comeria isso agora, uma salada verde, se eu não sou muito fã de salada?Ah, eu comeria isso, não é fome. Se você se perguntar isso e dizer que não, aquilo ali pesa mais, porque aquilo ali não é fome, porque a fome não é seletiva, a vontade de comer é seletiva, ela geralmente vem acompanhada ou de emoções, estou muito triste, estou muito feliz, estou ansioso, ou de alimentos que a gente gosta muito de comer, por exemplo, eu gosto muito de doce, eu gosto muito de fritura, então, eu sempre peço para se perguntar, tem rolado uma frase nas redes sociais que eu tenho gostado bastante, sentir fome é como estar apaixonado, se você está em dúvida, não é fome. Quando a gente está apaixonado, não tem dúvida, a gente está ou não está, e quando a gente está com fome, a gente não tem dúvida, ou você está com fome, ou você não está com fome, então, se você fica se perguntando, já não é fome. Então, tem muita diferença, o problema é controlar essas vontades, saber lidar com isso, porque realmente, na hora que você está comendo, a gente o sente, a gente também é humano, a gente tem que falar, eu estou falando com meus pais, com gente, eu também estou comendo um doce, o paciente chega e diz, ah, eu também estou comendo um doce.Então, é muito contra isso também. Então, isso é bacana, você se identificar com as dificuldades dos pacientes, eu me identifico com praticamente todas. Prevista de fazer exercício?Quem não tem? Você acha que eu acordo 5 e meia da manhã, todo dia, morta, oh, animadíssima, vamos lá. Não, né?Mas, algumas coisas, a gente faz porque tem que ser feito, porque a gente gosta do resultado, porque, no final, a gente sabe que a gente vai se sentir bem. Então, é trabalhar com isso.

Douglas

Então, o que você está dizendo é que é uma reestruturação cognitiva mesmo, né? Esses exercícios de dar o que dá, eu tenho preguiça, estou com fome, eu estou com fome, o que eu gostaria de comer de verdade. Então, é uma reestruturação cognitiva e não apenas uma receita de uma dieta, não é, não é na fada, não é apenas um siga isso, esse roteiro.

Ana Flávia

Como seguir, né?

Douglas

Siga isso e como seguir. Isso é muito importante para o paciente, porque ele se sente acolhido, observado, ele se sente, ele não sente a frieza do apenas vir buscar um papel, um papel, eu preciso passar por você para conseguir a liberação da cirurgia, eu preciso passar por você porque a pessoa da academia me indicou, eu estou aqui e agora, por conta dessa tua postura, eu sei a importância de estar aqui, né? É uma conscientização mesmo do paciente como um todo, isso é muito importante para as áreas multidisciplinares que envolvem a obesidade, cirurgia bariátrica, né?Muito bacana, quero te agradecer muito pelo seu tempo, dizer que o trabalho que você faz é muito, muito importante para todas as áreas, por conhecer o seu trabalho, posso afirmar isso, essa questão de observar o paciente como um todo e olhá-lo como um indivíduo, uma pessoa, é isso que contribui com os resultados positivos, sabe, do paciente no final, porque, mais uma vez, ele não sai daqui apenas como um papel, ele sai daqui como até um acolhimento, sabe, mas eu queria levar até aquele momentão para te agradecer, pedir para você fazer as considerações finais, e é isso.

Ana Flávia

É certo, muito agradeço o convite, eu gosto muito de falar sobre esse tema, né? Já devem ter percebido, eu gosto de falar, e esse tema é um tema que eu tenho em facilidade, porque o trabalho que inicia é o que eu gosto, realmente, eu estou no ar e eu gosto, eu vejo profissionais trabalhando em algumas áreas por necessidade, ou por oportunidade, trabalhando nessa área, eu gosto muito, eu acho que tudo o que a gente gosta, a gente tende a fazer um jeito melhor, e falando que o passo, o sujeito melhor vai ser o sujeito.