A geratividade é a bela capacidade que em geral todos os seres humanos temos para transmitir às outras gerações algo nosso.
É o que faz o laço entre crianças, jovens, adultos e idosos.
Tal conceito, dentro do campo da Gerontologia, destaca a importância do idoso como agente propulsor de diversas ações sociais com uma ênfase especial na capacidade do individuo em deixar uma herança principalmente simbólica (valores, crenças) para os demais através da convivência intergeracional e/ou através de obras (de arte, livros, música, etc).
Isso levou à construção de teorias que começaram com a contribuição imprescindível das ideias de Erik Erikson e que foram sendo revistas por outros pesquisadores. A teoria do desenvolvimento de Erikson propõe que o sujeito ao final de sua vida passe por um processo de integração dos momentos de crises e ganhos que ocorreram em etapas anteriores.
O conceito de integridade está relacionado com a aceitação da vida e do que o sujeito realizou.
Essa seria a última fase da existência humana, vivida depois dos 65 anos, durante a qual se opõem integridade e desesperação. A desesperação ocorreria quando o sujeito se sente muito insatisfeito com sua historia e nesse caso, pensar em seu passado lhe causaria angústia e inquietação.
Na fase adulta, entre os 40 e os 65 anos a polaridade seria entre a geratividade e o estancamento.
A geratividade consiste na capacidade que o sujeito tem para ensinar, transmitir suas experiências aos outros, dar conselhos e cuidar dos demais, sendo como uma ponte entre sua geração e as gerações mais jovens. Em contrapartida, o estancamento seria não transmitir nada aos mais jovens, encerrando-se em sua própria geração. Segundo a primeira versão da teoria de Erikson a integridade seria própria da velhice e a geratividade, própria da idade adulta.
A geratividade teria grande destaque na idade adulta, período em que as pessoas se preocupam mais pelos seus legados e se fazem mais conscientes do sentimento de sentirem-se necessários.
Entretanto, a delimitação etária estabelecida por Erikson é discutível atualmente considerando que muitos idosos são gerativos quando cuidam dos netos, quando contam suas experiências de vida, quando criam obras (livros, pinturas) que ficarão para a posteridade, etc. Atividades que ocorrem entre idosos mais jovens (60 a 80 anos) e idosos da quarta idade (80 anos ou mais) (Villar & Triadó).
A posteriori, se viu a pesquisa em geratividade avançar e se atualizar com teóricos como Kotre, Bradley, Mc. Adams e de St. Aubin, sendo os dois últimos os principais responsáveis por haver impulsionado as pesquisas de geratividade em Psicogerontología.
A geratividade segundo Kotre poderia ser classificada em quatro tipos: biológica, parental, técnica e cultural. Sua ênfase está na ideia de um Eu que resistiria à morte física através da geratividade, o que ele chama de imortalidade simbólica.
O autor considera inclusive a possibilidade de que o indivíduo possa repassar às próximas gerações, valores e crenças perniciosos, já que a geratividade não necessariamente tem que ser positiva e depende essencialmente da história de vida de cada sujeito e de uma seleção que o sujeito faz dos conteúdos e exemplos que deseja deixar para os demais.
Por outro lado, Bradley qualifica o sujeito gerativo como aquele que guia e orienta os demais, mesmo quando o grupo não compartilha do seu mesmo sistema de crenças e valores.
São definidos cinco perfis a partir do grau de implicação ativa que o indivíduo apresenta ao se preocupar por si mesmo e pelos demais e de sua capacidade para incluir a si e aos outros em suas ações/atividades gerativas. Por ordem decrescente de implicação e de inclusão os tipos seriam:
Bradley e Marcia assim como Van Hiel, Mervielde e De Fruyt abrem uma nova compreensão sobre o que seria realmente um sujeito estancado. Eles propõem que um indivíduo pouco gerativo não se aproxima de um tipo extremamente egocêntrico, e sim a uma pessoa negligente com seu próprio desenvolvimento e com o desenvolvimento dos demais.
Por último os dois grandes reformadores da teoria da geratividade de Erikson, McAdams e De St. Aubin adicionaram que além do desejo interno de fazer-se imortal simbolicamente e de sentir-se necessitado por outros, o sujeito também pode se sentir motivado a ser gerativo por uma demanda cultural.
Em outras palavras, o ato gerativo pode incluir-se, por exemplo, no papel que um profissional ocupa como líder em uma empresa, como pai, como cidadão, etc. À parte os autores também observam que o ser gerativo pode ser algo consciente ou não, o que há permanecido como um desejo interno que não passou à ação.
É a demanda cultural combinada a um desejo interno que se expressa em interesse consciente.
É importante também para essa teoria três variáveis, que podem se combinar de diversas maneiras, para que a geratividade seja parte da realidade de uma pessoa:
As fontes motivacionais, em interação com os planos e pensamentos do indivíduo criam significados subjetivos que se expressam na narração de sua história de vida, resultando na identidade.
McAdams e De St. Aubin (1992) se ocuparam em buscar os componentes da geratividade permitindo uma análise mais detalhada de um conceito bastante subjetivo e teoricamente muito recente.
As pesquisas sobre geratividade como a realizada por Clark e Arnold e muitas outras buscam aprofundar separadamente a relação, por exemplo, que a preocupação, o compromisso em ser generativo e a ação generativa tem com determinados aspectos da vida do individuo como a família, o cuidado interpessoal e social, a produtividade, a liderança.
O mais importante, entretanto, é que a geratividade está sendo investigada como estando associada ao bem-estar psicológico e subjetivo das pessoas, além das atividades consideradas gerativas estarem incluídas dentro de conceitos mais amplos como a Teoria do envelhecimento produtivo, a Teoria do envelhecimento gerativo e tantas outras teorias englobadas dentro da perspectiva do Envelhecimento satisfatório.
Então, da próxima vez que você pensar na transmissão entre gerações e no legado que podemos deixar para os demais, saiba que esse é um exercício gerativo que pode fazer envelhecer com mais satisfação, com a sensação de ter um propósito na vida e que pode fazer crescer pessoalmente!
Incentivemos, como psicólogos e como sujeitos, a geratividade nas suas mais diversas formas!
Esse é um espaço em construção, um ponto de partida e de encontro para falar sobre o envelhecimento em suas mais diversas formas. Somos duas amigas, psicólogas e apaixonadas pela Psicogerontologia, uma morando no Brasil e a outra na Espanha. Nós formamos o Singular Idade. Juliana Rêgo é especialista em Gerontologia pela Universidade de Fortaleza e Clicia Peixoto é doutoranda em Psicogerontologia na Universidade de Valência.