A História da Relação entre Psicologia e Fisiologia
A relação entre psicologia e fisiologia tem sido descrita por diversos termos ao longo dos anos. As principais perspectivas incluem a psicofisiologia, a psicologia fisiológica, a psiconeuroimunologia e a neurociência. Cada uma dessas áreas oferece uma visão única sobre a interconexão entre os processos psicológicos e os sistemas biológicos.
A psicofisiologia foca-se no estudo das correlações entre os estados psicológicos e a atividade fisiológica. Essa área explora como os processos mentais como emoções, pensamentos e comportamentos influenciam, e são influenciados por, funções fisiológicas como a frequência cardíaca, a atividade cerebral e a resposta galvânica da pele.
A psicologia fisiológica, por sua vez, examina de maneira mais detalhada como o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso afeta o comportamento e os processos mentais. Esta abordagem é mais centrada nos mecanismos neurobiológicos subjacentes aos fenômenos psicológicos.
Já a psiconeuroimunologia é um campo interdisciplinar que estuda as interações entre os processos psicológicos, o sistema nervoso e o sistema imunológico. Esta área reconhece a profunda influência que a mente e as emoções podem ter sobre a saúde física, especialmente no que diz respeito à imunidade e à reação do corpo a doenças.
Finalmente, a neurociência tem emergido como um termo abrangente que engloba todas essas perspectivas, focando na interação entre o sistema nervoso e os comportamentos e processos mentais. O termo 'neurociência' substituiu muitos dos termos mais antigos e é frequentemente usado como um termo genérico para qualquer relação entre psicologia e fisiologia.
Cada uma dessas perspectivas oferece um ângulo valioso no entendimento da complexa relação entre mente e corpo, e suas contribuições têm sido fundamentais no avanço do conhecimento na área da saúde mental e comportamental.
Psicofisiologia: Insights Através do EEG e da Ressonância Magnética Funcional (fMRI)
A psicofisiologia visa medir a atividade cerebral e correlacioná-la com eventos psicológicos, geralmente utilizando tecnologias não invasivas. A eletroencefalografia (EEG) mede as correntes elétricas geradas pelo cérebro, detectadas por eletrodos colocados no couro cabeludo. Richard Caton, fisiologista escocês, foi o primeiro a observar a atividade elétrica espontânea do cérebro em animais, notando variações conforme o estado de vigília ou sono, e a cessação dessa atividade após a morte. Sua pesquisa foi publicada em 1875. Entretanto, a descoberta do EEG é frequentemente atribuída a Hans Berger, psiquiatra alemão, que em 1929 publicou o primeiro traçado de EEG humano. O EEG tem duas limitações principais: sua complexidade, exigindo procedimentos estatísticos avançados para a extração de informações, e a imprecisão na localização exata das funções cerebrais devido à propagação dos sinais elétricos através do cérebro e do couro cabeludo.
Em 1990, a ressonância magnética funcional (fMRI) surgiu como uma técnica inovadora para investigar o cérebro, medindo o fluxo sanguíneo cerebral. A fMRI utiliza as propriedades magnéticas das moléculas de água no cérebro para gerar imagens da atividade cerebral, proporcionando uma localização precisa das funções cerebrais. A técnica oferece uma visão baseada no tempo da atividade de diferentes partes do cérebro.
EEG e fMRI fornecem informações sobre onde ocorrem certos tipos de atividade mental no cérebro. Contudo, assim como a localização de um livro em uma biblioteca oferece apenas uma visão geral de seu conteúdo, essas técnicas indicam quais partes do cérebro estão ativas, mas não descrevem detalhadamente os processos psicológicos subjacentes.
A importância da psicofisiologia reside em dois aspectos. Primeiro, a correlação demonstrada entre fenômenos cerebrais e psicológicos impactou significativamente a percepção pública da psicologia como ciência. Tal impacto reflete a busca contínua por validação científica na psicologia, apesar do entendimento de que eventos psicológicos e fisiológicos estão correlacionados, pois as mentes não existem sem corpos. Segundo, a melhoria contínua nas técnicas de medição está proporcionando detalhes cada vez mais precisos sobre o que acontece no cérebro durante pensamentos e tarefas específicas. À medida que esses detalhes se aprofundam, aumenta a possibilidade de associar pensamentos específicos a eventos cerebrais, potencialmente explicando a psicologia em termos puramente fisiológicos.
Psicologia Fisiológica: Desenvolvimento de Psicofármacos e Seus Impactos
A psicologia fisiológica tem um histórico intrigante no desenvolvimento de drogas psicoativas. Em uma conferência sobre placebos, foi apresentado que o uso de placebo gera mudanças neurológicas similares aos efeitos do medicamento ativo. Esses resultados confirmam que placebos possuem efeitos biológicos, uma vez que a mente está intrinsecamente conectada ao corpo. Essa constatação pode parecer óbvia, mas reitera a importância de considerar efeitos biológicos em intervenções psicológicas.
Historicamente, os efeitos alteradores da mente de certas drogas são conhecidos há milhares de anos. Desde o século XIX, substâncias como o álcool e o ópio foram usadas no tratamento de doenças nervosas. Antes da metade do século XX, pacientes com problemas de saúde mental eram tratados com químicos que, na maioria das vezes, eram mais prejudiciais do que benéficos, devido à falta de uma explicação biológica credível para essas doenças.
Por volta de 1950, ocorreu uma "revolução farmacológica" com a descoberta de três substâncias antipsicóticas eficazes: sais de lítio, clorpromazina e reserpina. Estas descobertas foram acidentais e, inicialmente, sem uma explicação biológica para a psicose. Por exemplo, a clorpromazina, originalmente desenvolvida para a indústria de tinturas, demonstrou efeitos antipsicóticos por meio de experimentações.
A reserpina, que depleta monoaminas, também foi descoberta acidentalmente. A observação de que o uso de reserpina em psicóticos causava depressão levou à hipótese serotoninérgica, que associava a depressão à falta de serotonina e dopamina. Essa hipótese conduziu ao desenvolvimento de antidepressivos que aumentam a serotonina nos anos 1960. Atualmente, antidepressivos serotoninérgicos são amplamente utilizados. Contudo, estudos recentes questionam a validade da hipótese serotoninérgica, indicando que grande parte da eficácia dos antidepressivos deve-se ao efeito placebo, e apenas uma minoria dos pacientes tratados com antidepressivos apresenta um efeito substancial além do placebo.
Desde os anos 1950, muitos agentes farmacológicos foram desenvolvidos que alteram a química cerebral e, consequentemente, a psicologia das pessoas. Isso demonstra a base biológica dos fenômenos psicológicos, uma premissa já assumida por Wundt. Apesar dos desafios contínuos, a eficácia dos fármacos na vida mental sugere duas possibilidades: a potencialidade de tratar doenças mentais com sucesso por meio de medicamentos e a necessidade de outras formas de terapia, incluindo intervenções biológicas não farmacológicas (exercício, nutrição) e intervenções psicológicas (terapia, mudança de estilo de vida), devido à falha em determinar a base química de muitas doenças mentais e ao benefício terapêutico limitado dos medicamentos.
Psiconeuroimunologia: A Interconexão entre Mente, Cérebro e Sistema Imunológico
A psiconeuroimunologia, termo cunhado inicialmente como psicoimunologia pelo psiquiatra George Solomon, evoluiu para incluir a conexão entre cérebro e sistema imunológico em suas investigações. Enquanto a psicologia fisiológica foca nos efeitos de drogas no cérebro e o impacto do comportamento sobre substâncias químicas cerebrais, a psiconeuroimunologia examina a relação entre mente, cérebro e sistema imunológico. Esta área de pesquisa tem demonstrado, por exemplo, como o estresse afeta o sistema imunológico e, consequentemente, o estado psicológico. Foi constatado que o estresse aumenta a inflamação, elevando os níveis de citocinas pró-inflamatórias, que são mensageiras no sistema imunológico indicando infecção. Essas citocinas exacerbam diversos processos de doenças como câncer, doenças cardíacas, asma e esclerose múltipla, estabelecendo uma relação clara entre estresse e doença.
O impacto das citocinas pró-inflamatórias no cérebro afeta o estado psicológico, causando, entre outros sintomas, fadiga e depressão. No entanto, não foi estabelecida uma relação um-para-um entre citocinas específicas e estados mentais específicos. O que se observa é um aumento geral de todas as citocinas pró-inflamatórias em estados de fadiga e depressão, mas de maneira inconsistente entre diferentes indivíduos. Assim como na psicologia fisiológica, há uma relação entre fisiologia e psicologia, porém não de forma precisa ou que permita uma correlação direta entre os dois campos.
A psiconeuroimunologia tem sido crucial na história da fisiologia da psicologia, influenciando a percepção externa da psicologia. Ela demonstrou a relevância da psicologia nas causas e mecanismos de uma ampla gama de doenças, incluindo doenças somáticas, não apenas doenças mentais. Enquanto a psicofisiologia e a psicologia fisiológica se concentraram na relação entre cérebro e psicologia, a psiconeuroimunologia mostrou que o sistema imunológico também é uma peça fundamental na compreensão da fisiologia que sustenta a psicologia.
Pesquisas mais recentes expandiram o foco para outras partes do corpo, como o intestino, descrito como o "segundo cérebro" devido à sua rica rede nervosa e papel central no aprendizado imunológico. A saúde intestinal, influenciada pelo microbioma intestinal, afeta o estado psicológico. Dietas variadas, ricas em diferentes vegetais, são benéficas para o microbioma intestinal e, consequentemente, para o bem-estar. Assim, o sistema nervoso, o sistema imunológico, o intestino e o microbioma intestinal estão interconectados, influenciando conjuntamente o estado psicológico.
Neurociência Cognitiva: Vinculando Conceitos Cognitivos à Fisiologia
A neurociência cognitiva representa a associação entre conceitos cognitivos e fisiologia, englobando variados conceitos cognitivos e descrições fisiológicas. O paradigma cognitivo, que utiliza termos teóricos para conectar situações a comportamentos, baseia-se na descrição funcional de mecanismos, conforme proposto por Fodor em 1968 e Hyland em 1985. Este campo busca modelar e entender como as funções cognitivas são realizadas pelo cérebro.
Um exemplo de como a neurociência cognitiva opera pode ser visto na medição da velocidade de processamento, um indicador fisiológico obtido através de avaliações por EEG e calculado pelo potencial relacionado a eventos. Estudos demonstraram que a velocidade de processamento está relacionada à inteligência e outras habilidades cognitivas. Esses resultados fornecem evidências de uma base fisiológica para o conceito de inteligência geral, um conceito derivado da mensuração de testes psicológicos.
A neurociência cognitiva, portanto, desempenha um papel na ponte entre teoria psicológica e evidência fisiológica. Ela permite uma compreensão mais profunda de como processos cognitivos abstratos, como memória, atenção e linguagem, estão associados a atividades cerebrais específicas. Essa abordagem integrativa contribui significativamente para o entendimento da relação entre mente e corpo, oferecendo insights valiosos sobre como o cérebro executa funções cognitivas e influencia o comportamento.
Fonte: "A History of Psychology in Ten Questions", Michael Hyland
