O cérebro é um órgão pouco acessível e com suas principais janelas de desenvolvimento ainda na infância. No entanto, possui a importante capacidade de ser maleável, flexível e adaptável.
O termo neuroplasticidade se refere a habilidade do cérebro de se reorganizar e readaptar, física e funcionalmente, frente às mudanças nos ambientes externo (meio em que estamos inseridos) e interno (alterações estruturais, hormonais, entre outras do próprio organismo). Dessa forma, nosso cérebro reage a estímulos ambientais, demandas cognitivas e experiências vividas tornando-se mais adaptado.
A observação de que algumas pessoas com lesões cerebrais (em regiões necessárias para o funcionamento de determinado domínio cognitivo) conseguem retomar a função prejudicada, mesmo que ainda com desempenho inferior ao possuído antes da lesão, nos mostrou que o cérebro muitas vezes age reestruturando suas conexões e recrutando novas áreas para auxiliarem em seu funcionamento.
Apesar do cérebro possuir essa capacidade, temos certas regiões cerebrais que parecem ser únicas para determinadas habilidades cognitivas e lesões nessas regiões não costumam ser reconstituídas através da neuroplasticidade.
Por exemplo, lesões bilaterais de hipocampo tendem a provocar déficit na formação de memórias de forma persistente. Temos o famoso exemplo do paciente H.M que, após uma neurocirurgia para retirada de focos de epilepsia bilaterais (o que resultou na remoção de seus hipocampos), perdeu a habilidade de formar novas memórias do dia da cirurgia até seu falecimento.
A neuroplasticidade conta com dois grandes fatores: a formação de novos neurônios e a formação de novas conexões.
A neurogênese (formação de novos neurônios) é realmente bastante restrita se compararmos com a reposição celular de outros órgãos. Algumas regiões cerebrais são mais propensas a neurogênese, como as regiões primárias envolvidas em processamento sensorial e o hipocampo, região chave para a codificação de novas memórias.
Isso nos permite entender porque temos constante formação de novas memórias, aprendizados sensoriais e motores!
No entanto, parece ser mais fácil para o cérebro a criação e desenvolvimento de novas sinapses (conexão entre os neurônios já existentes). Esse processo permite que os mesmos neurônios sejam utilizados porém com uma nova codificação mediante o estímulo ou que neurônios que antes não eram conectados passem a ser.
Em grande parte a aquisição de conhecimentos semânticos se apoia nesse caminho: usar conexões já existentes que servem de base para novos conhecimentos sejam codificados.
Quando olhamos para a neuroplasticidade ao longo do desenvolvimento humano, há nítidas diferenças se compararmos crianças e adultos. Nos adultos e idosos a neurogênese existe, porém em taxa inferior ao observado em crianças e em taxa inferior as perdas neurais naturais que vão ocorrendo. Ou seja, se repõe menos do que naturalmente se perde.
Dessa forma é mais difícil que um adulto ou idoso se recupere de uma lesão cerebral que atinja regiões essenciais, do que crianças, onde o cérebro possui uma maior capacidade de reorganização. O cérebro infantil está em fase de especificação, determinação de redes e, portanto, se adapta melhor as possíveis mudanças e exigências do ambiente.
Contudo, parece haver nas crianças um limite de idade onde os danos causados pelas lesões podem ser mais ou menos impactantes no que diz respeito a capacidade de neuroplasticidade. Lesões em crianças com menos de um ano de idade tendem a ser tão ou mais impactantes que lesões em adultos, gerando déficit mais abrangentes.
O bonito disso tudo é que é através dessa plasticidade que aprendemos novas coisas durante a vida. Aprendemos um novo corpo de conhecimentos e comportamentos, simplesmente porque nosso corpo aprende como se portar a medida que interage com o meio.
O ambiente possui um diálogo importante com o cérebro, que apesar de ter uma programação para se organizar e funcionar, dará mais ou menos importância a determinados funcionamentos de acordo com as exigências do ambiente.
Exemplo: se aprendermos a tocar um instrumento daremos mais importância as regiões motoras e sensoriais. Enquanto que se nos privarmos da luz e da habilidade de enxergar, o cérebro lentamente perderá a capacidade de interpretar os estímulos visuais com precisão.
Resumindo: o que é usado e que o ambiente demanda, o cérebro desenvolve mais. O que é pouco ou nada usado, o cérebro interpreta como conexões desnecessárias e acaba mantendo o mínimo para o funcionamento.
E como a neuroplasticidade muda com o desenvolvimento? É possível ver isso de verdade?
Vamos pegar como exemplo a aquisição de uma segunda língua: se adquirimos quando crianças nosso cérebro usa as mesmas regiões cerebrais destinadas ao funcionamento da linguagem para ambas as línguas: nativa e estrangeira. Isso permite uma melhor fluência, pronúncia e domínio fonético da nova língua.
Quando aprendemos já adultos o cérebro acaba recrutando uma região adjacente e próxima a área de Broca (conhecida como a área motora da fala), mas não exatamente ela (como ocorre nas crianças). Isso mostra que o cérebro é plástico o suficiente para aprender a nova língua na vida adulta, mas já não é plástico o suficiente para usar as mesmas regiões que são mais propícias a linguagem, tornando a nova língua algo diferente da língua nativa.
Esse simples processo torna o uso da segunda língua mais árduo e com mais dificuldades de discriminação de fonemas que a língua nativa e é mais difícil falar sem sotaque ou incorporar a estrutura gramatical com tanta fluidez como fazemos com o português.
Desafio vocês a pensarem aí: o que o cérebro de vocês foi capaz de aprender e se adaptar a medida que precisaram?
Muitas coisas?
Referências:
Hübener, M., & Bonhoeffer, T. (2014). Neuronal Plasticity: Beyond the Critical Period. Cell, 159(4), 727–737.
Kolb B, Whishaw IQ (2007) Fundamentals of human neuropsychology (5ed). New York, NY: Worth Publishers.
Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos – laissbertola@gmail.com