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Áreas de Atuação Neuropsicologia

Neurociências na Prática Clínica

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Muito da história das neurociências se deu em paralelo a da psicologia. Seus caminhos cruzaram diversas vezes, mas possuem um marco especial com os estudos de Alexander Luria (1902-1979). Hoje temos um grande diálogo de áreas da psicologia com as neurociências.

A principal área onde esse diálogo é essencial é a Neuropsicologia.

No entanto, ainda é possível observar que muitos profissionais da área da psicologia acreditam que as neurociências estão muito longe da prática clínica, alguns inclusive não reconhecem essa área como possuindo uma atuação clínica, outros acreditam que ela faz perder ou não inclui os pontos mais subjetivos com os quais a psicologia é tão famosa por trabalhar.

Como as neurociências e a psicologia se aproximam

As neurociências são campos amplos de estudos voltados para o funcionamento do sistema nervoso central, e abarcam conhecimentos advindos de diferentes áreas que se dedicam a esse sistema, cada um a sua maneira, mas visando sempre a integração multidimensional desse conhecimento. As neurociências objetivam principalmente entender os processos pelos quais, nós, seres humanos, realizamos processos mentais tão usuais como perceber o ambiente, aprender, memorizar, escolher comportamentos e agir (Kandel et al., 2014).

E a psicologia é a área que atua de forma mais ampla na tentativa de compreender os processos psicológicos que esse órgão executa. Sejam por determinações mais genéticas, individuais ou mais sociais.

É natural então, ou pelo menos deveria ser, que na psicologia as neurociências encontrassem mais espaço que rejeição. Afinal, por mais subjetivo que seja um fenômeno, é preciso que tenhamos um órgão em funcionamento, e precisamos reconhecer que esse órgão tem padrões e processos típicos e, que também se moldará na individualidade do sujeito e em sua interação com o meio.

A integração das neurociências com a psicologia não precisa ser restrita apenas ao campo da neuropsicologia.

A compreensão do cérebro humano é um requisito básico para a atuação da psicologia, mesmo que em áreas aonde ele não seja o foco essencial ou a pergunta central da teoria utilizada.

Por esse motivo aprendemos na faculdade neuroanatomia e em alguns cursos já temos como parte da grade de disciplinas obrigatórias, matérias como neurociências e/ou neuropsicologia.

Primeiro vamos falar de como as neurociências dialogam mais diretamente através da neuropsicologia, e depois de como os conhecimentos da neurociências servem a prática da psicologia como um todo.

Entendendo de onde vem a neuropsicologia

A neuropsicologia surgiu como uma ciência aplicada destinada a compreensão da expressão cognitiva e comportamental de disfunções cerebrais (Lezak et al., 2012). O cenário era bastante vinculado inicialmente a compreensão de pacientes com lesões cerebrais, ou seja, na observação de pessoas que apresentavam mudanças no comportamento em decorrência de algum grau de comprometimento neurológico.

As grandes guerras, em especial a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais foram uma espécie de laboratório vivo para os psicólogos e demais profissionais dessa emergente área, devido ao infeliz número de soldados que retornavam com algum tipo de lesão cerebral apresentando alterações cognitivas e/ou comportamentais e que necessitavam então de técnicas de reabilitação (Lezak et al., 2012).

A junção desses conhecimentos que vinham em um primeiro momento de áreas médicas, com conhecimentos iniciais desenvolvidos pelos profissionais do campo da psicologia educacional, tal como Alfred Binet e os estudos sobre a inteligência, marcaram com maior nitidez a possibilidade do diálogo mais profundo dessas áreas (Lezak et al., 2012).

Diálogo esse que resultou no desenvolvimento de uma área chamada neuropsicologia. A visão de que era possível compreender o comportamento humano desde sua base cerebral serviu como ponto de partida.

Hoje a neuropsicologia não se atem mais a compreensão da relação cérebro-comportamento/cognição apenas em situações de disfunções cerebrais.

Com o avanço tecnológico, em especial as técnicas de neuroimagem, foi possível estudar o desenvolvimento cerebral, seus marcos e produtos, sem que fosse preciso que tivéssemos estudos de caso com sintomas que sinalizassem um distanciamento do que era até então observado como esperado.

Esse avanço tecnológico possibilitou um aumento exponencial de conhecimento produzido pela área, e marcou oficialmente a consolidação da neuropsicologia como uma área que estuda essa relação da estrutura (o órgão cérebro) com o seu funcionamento (os produtos mentais que observamos serem produzidos pelo órgão). A essa prática damos o nome de correlação estrutura-função.

A neuropsicologia tem como base então estudar, compreender, explicar e intervir nessa relação.

E como essa relação começa pela compreensão de como o cérebro funciona, não é possível essa área estar distante das neurociências como um todo. A neuropsicologia é, na verdade, uma das áreas das neurociências focada na expressão do comportamento e dos processos cognitivos. No entanto, para compreender o comportamento e a cognição em sua expressão observável é preciso compreender o órgão que os da origem e que os executa.

Dessa forma, a neuropsicologia hoje tem diferentes campos de atuação, com diferentes focos, mas sempre levando em consideração o papel dessa relação entre o cérebro e suas expressões observáveis.

É nessa área que buscamos compreender os processos cognitivos e comportamentais. Como eles ocorrem, quais regiões cerebrais e processos neuronais os suportam, como os diferentes processos cognitivos dialogam entre si e produzem um fluxo cognitivo tão fluído e imperceptível para a maioria de nós – são todas exemplos de perguntas às quais a neuropsicologia se dedica.

É nessa área que compreendemos como memórias são formadas, armazenadas e recordadas, como nosso foco atencional pode ser voluntário ou guiado, como analisamos e determinamos comportamentos motores através de processos visuais do espaço, como a linguagem e nossos conhecimentos são organizados e utilizados - para citar alguns exemplos.

Por ser uma área participante das neurociências vemos a neuropsicologia ser constantemente atualizada em seus estudos científicos e em sua prática clínica. Os estudos com o cérebro tem sido delineados cada vez de forma mais precisa. Cada vez mais temos tecnologias que nos permitem ver esse órgão em funcionamento e isso abrange nossa compreensão sobre seus processos.

Como nós, psicólogos, podemos utilizar a neuropsicologia na prática

Na prática da psicologia, a neuropsicologia vem atuar clinicamente de forma mais intensa buscando avaliar sempre que necessário os processos mentais de sujeitos que apresentam queixas e pensar em processos de reabilitação para aqueles aonde dificuldades no funcionamento cognitivo e comportamental forem identificadas.

Contudo os conhecimentos não se restringem apenas as essas atuações.

Nos últimos anos vemos um movimento de integrar os conhecimentos advindos dessa área nos mais diversos cenários, tanto de atuação da psicologia quanto de atuação de outros profissionais.

Vemos aplicações da compreensão de como determinados processos mentais funcionam para ensinar pessoas a memorizarem melhor informações, para entender como tomamos decisões em situações de risco ou privação, para entender como o processamento do ambiente determina escolhas e ações motoras em esportistas, para citar alguns.

Os conhecimentos advindos dessa área não precisam e não devem ser necessariamente vistos como restritos a área da neuropsicologia.

A psicologia como um todo pode se beneficiar de conhecimentos adquiridos por essa área, assim como a neuropsicologia se beneficia de conhecimentos advindos de outras áreas da psicologia.

  • Quando trabalhamos com crianças ou idosos:

Para listar alguns exemplos aonde essa interlocução pode acontecer de forma mais prática aos profissionais da psicologia, começo com o desenvolvimento cerebral e os importantes marcos do comportamento e da cognição.

Compreender que muitas das limitações cognitivas e comportamentais que são apresentadas no desenvolvimento infantil e idoso são diretamente mediadas por marcos do desenvolvimento cerebral abrem portas para compreendermos com mais clareza as fases do desenvolvimento, o que esperar delas, e o que sinalizar quando percebemos que há algo fora do esperado.

  • Quando aparece um “problema” de desenvolvimento:

As diferentes fases do desenvolvimento tem diferentes chaves neurológicas ocorrendo.

O cérebro tem prioridades organizacionais e maturacionais que precisam ser respeitadas e compreendidas (Giedd & Rapoport, 2010). Muitas vezes nós psicólogos somos procurados por causa de supostos problemas que podem ser apenas etapas normais do desenvolvimento, outras vezes podemos tratar como não preocupantes atrasos muito significativos.

  • Ao trabalhar com questões relacionadas a linguagem:

Compreender por exemplo que a linguagem tem seus marcos e fases essenciais de desenvolvimento e que é uma habilidade cognitiva que depende de regiões cerebrais que são maturadas mais precocemente que outras habilidades, nos permite pensar que atrasos nessa área não podem ser lidados como algo que vai se resolver sozinho em algum momento, ou que apenas questões subjetivas podem estar por trás dessas dificuldades.

Simplesmente porque se perdemos a melhor janela de plasticidade para trabalhar esse desenvolvimento cerebral e cognitivo, não necessariamente teremos um cérebro que responderá com tanto empenho quando passar a se dedicar ao funcionamento de outras áreas cerebrais.

  • Quando nos relatam memórias na psicoterapia ou psicologia jurídica:

Saber, por exemplo, que a formação de memórias tem limitações importantes nos primeiros anos da infância porque as regiões cerebrais responsáveis por esses processos ainda não se maturaram o suficiente, nos permite ter maior cuidado ao nos apoiarmos nos relatos mnemônicos de crianças muito pequenas (Rose et al., 2011).

Compreender que memórias episódicas quando recuperadas estão sujeitas a alterações e modificações, e que diante de estímulos novos podem se tornar falsas memórias (ou seja, memórias que são armazenadas, mas que aquele evento relatado nunca existiu) ou podem ser descritas com valências emocionais diferentes das originais, alerta nossa atuação em meios como a psicoterapia e a psicologia jurídica (Patihis et al., 2013).

  • Ao trabalhar com as mais diversas questões de aprendizagem:

Conhecimentos a respeito de como o cérebro aprende, o que favorece a aprendizagem e como cérebros com dificuldades de aprendizagem precisam de técnicas diferenciadas de ensino, podem certamente auxiliar o meio da psicologia escolar em suas atuações, bem como da pedagogia (Dehaene-Lambertz & Spelke, 2015) podem em muito auxiliar os processos de inclusão educacional para que sejam de fato inclusivos.

  • No trabalho com adolescentes:

Podemos pensar na atuação desses conhecimentos em programas de prevenção a saúde, no cuidado com o cérebro, no cuidado com a cognição e o comportamento.

Pensar em como instruir adolescentes para redução de comportamentos disruptivos levando em consideração a compreensão desse momento único de desenvolvimento cerebral e que determinadas funções cognitivas (como as funções executivas) possuem um importante impacto nos alcances da vida adulta (Diamond, 2013).

  • Quando nos deparamos com um quadro neurológico mais grave:

E claro, sempre que pensarmos em casos mais precisos onde haja lesão cerebral ou quadros neurológicos é sempre preciso nos atentarmos para as particularidades desse órgão.

Termos o cuidado clínico em verificar que algumas queixas e alterações persistentes podem se referir a quadros precisos, e que esses normalmente requerem um olhar mais cauteloso que vá além da produção da subjetividade e possa refletir um padrão de funcionamento cerebral mais específico.

As aplicações de conhecimentos vindos da neurociências na psicologia são inúmeros, precisamos apenas abrir as portas e as possibilidades de diálogos para que a construção de conhecimentos mais integrados a respeito do ser humano e suas potencialidades possam acontecer.

E se quiser saber mais sobre isso, o vídeo sobre Neuropsicologia Clínica pode ajudar. Lá falo sobre avaliação neuropsicológica, reabilitação, pesquisa e a interação da Neuropsicologia com outros conhecimentos.

Referências

Dehaene-Lambertz, G., & Spelke, E. S. (2015). The Infancy of the Human Brain. Neuron, 88(1), 93–109. doi:10.1016/j.neuron.2015.09.026

Diamond, A. (2013). Executive Functions. Annu. Rev. Psychol., 64(1), 135–168. doi:10.1146/annurev-psych-113011-143750

Giedd, J. N., & Rapoport, J. L. (2010). Structural MRI of Pediatric Brain Development: What Have We Learned and Where Are We Going? Neuron, 67(5), 728–734. doi:10.1016/j.neuron.2010.08.040

Kandel, E.,  Schwartz, J., Jessel, T., Siegelbaum, S., Hudspeth, A.J. Princípios de Neurociências. 5. ed. – Porto Alegre : AMGH, 2014.

Lezak, M. D. (2012). Neuropsychological assessment (5th ed.). Oxford ; New York: Oxford University Press.

Patihis, L., Frenda, S. J., LePort, A. K. R., Petersen, N., Nichols, R. M., Stark, C. E. L., … Loftus, E. F. (2013). False memories in highly superior autobiographical memory individuals. Proceedings of the National Academy of Sciences, 110(52), 20947–20952. doi:10.1073/pnas.1314373110

Rose, S. A., Feldman, J. F., Jankowski, J. J., & Van Rossem, R. (2010). The structure of memory in infants and toddlers: an SEM study with full-terms and preterms. Developmental Science, 14(1), 83–91. doi:10.1111/j.1467-7687.2010.00959.x

Autora

LAISS BERTOLA

Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com

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