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Áreas de Atuação Neuropsicologia

Memória, um Arquivo de Informações

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Normalmente começo minhas aulas sobre memória perguntando o que os alunos acham que é memória. Aqui não seria diferente:

O que vocês acham que é memória?

Arrisco que a maioria pensou em memória como nossa habilidade de lembrar de coisas do passado, não é mesmo?

No popular é assim mesmo que nos referimos a memória.

No entanto, para a neuropsicologia memória é um pouco mais complexo. Complexo porque memória não é um constructo único: A MEMÓRIA. E sim, um complexo sistema de armazenamento de informações que se subdivide conforme o tipo de informação que será armazenado, durante quanto tempo, como recordaremos dessa informação e quais regiões cerebrais são utilizadas.

Antes de entrar em QUAIS MEMÓRIAS, vamos primeiro acessar os arquivos da história e entender um pouco mais sobre a noção de memória como um todo. Pois, apesar delas serem subdividas, são todas memórias, afinal elas partilham elementos centrais em comum.

Viagem no passado

Memória é um dos constructos mais estudados nessa área, não todas elas, mas anda assim é um foco de interesse quando analisamos a cognição humana.

O alemão Hermann Ebbinghaus foi um dos pioneiros no estudo da memória. Seus primeiros estudos datam de 1885, onde descreve um estado mental onde as informações são trazidas a consciência e momentos depois deixam de estar ali. Foi com os estudos dele que uma primeira noção sobre os processos de aquisição e esquecimento de informações foram transformadas em gráfico.

Nesse gráfico Ebbinghaus demonstra a curva de aprendizagem através de repetições sucessivas e a redução do esquecimento ou perda da informação a medida que nos expomos repetidas vezes a ela.

Ou seja, ele demonstrou que informações que vemos uma única vez tem mais chances de se perderem com o passar do tempo (e não precisa ser muito tempo), mas que a repetição dessa exposição faz com que a informação seja melhor consolidada na memória e mais resistente ao esquecimento (Ebbinghaus, 2013).

Figura 1. Curva de esquecimento de Ebbinghaus – Volume de informação esquecida com o passar dos dias em que foram feitas repetições

Outra contribuição importante e atemporal (afinal os estudos atuais continuam encontrando os mesmos efeitos que ele descreveu no século passado) é sobre a posição temporal das informações. Sabemos que informações nos extremos da exposição são mais facilmente recordadas.

Como?

Os primeiros elementos e os últimos a serem processados são mais facilmente registrados nas memórias, e esse fato tem o nome de efeito de recência (últimos a serem vistos) e primazia (os primeiros a serem vistos). Certamente vocês já reparam isso. Se nunca observaram sugiro que quando forem conhecer um grupo novo de pessoas, verifique quais nomes se lembrará com maior facilidade depois que se apresentar a todos em sequência (Baddeley, Anderson, & Eysenck, 2011).

Parece estranho pedir que observem em vocês a ocorrência dos processos cognitivos, mas muitas vezes deixamos eles ocorrerem sem darmos um pouco da atenção devida e possível.

Observando o funcionamento individual podemos aprender muito sobre os mecanismos cerebrais e cognitivos que temos por detrás dessas maravilhas neuropsicológicas. Estudos de caso nos revelam muito sobre as particularidades e generalizações do conhecimento produzido em neuropsicologia e com o estudo da memória não foi diferente.

Na década de 50, um paciente se tornou famoso após uma neurocirurgia para alívio de crises epiléticas incapacitantes. H.M. aos 27 anos passou por uma excisão bilateral no lobo temporal medial, envolvendo as áreas corticais, amígdalas e hipocampos. O resultado? Alívio das crises conforme almejado, porém com uma sequela não prevista naquele tempo - a amnésia (Bear, Connors, & Paradiso, 2007).

H.M. acordou de sua cirurgia sendo capaz de se lembrar de coisas do passado, até o dia da cirurgia, mas não demonstrava mais a capacidade de registrar novas memórias desse dia em diante. O hipocampo e as regiões entorrinais foram então relacionadas a formação de novas memórias. E começou ser visível que diferentes sistemas de memórias atuavam em de forma interdependentes ou independentes.

Passados alguns anos é possível localizar além dos estudos da Dra. Brenda Milner (a neuropsicóloga do H.M.), os estudos de Endel Tulving. Com eles foi possível iniciar uma era de maior cuidado na distinção dos diferentes tipos de memória, em especial daquelas sobre as quais podemos falar verbalmente sobre (Tulving, 1972).

Os modelos de memória e as regiões cerebrais envolvidas foram e ainda estão se aperfeiçoando a medida que nosso métodos e conhecimentos na área se desenvolvem, atualizam e refinam. Veremos o modelo, as regiões e como podemos pensar nas memórias.

Elementos em comum

Antes de vermos os subtipos de memória, veremos o que eles partilham em comum, para poderem, mesmo cada um com sua especificidade, serem agrupados sob o termo memória.

Todos os sistemas de memória requerem três etapas básicas: codificação, armazenamento e recuperação.

A codificação se refere a introdução da informação a ser armazenada no sistema nervoso. O armazenamento se refere ao arquivamento e manutenção da informação. A recuperação se refere a capacidade de acessar e trazer à tona as informações que foram armazenadas, seja de forma espontânea (evocando) ou mais passiva (reconhecendo) (Baddeley et al., 2011).

Ou seja, nosso cérebro entra em contato com um informação (por exemplo perceptual), e ela precisa ser registrada com padrões de ativação neuronal, determinando o que e como essa informação será armazenada. Outras regiões cerebrais são então requisitadas a realizarem essa manutenção de registro e sempre que necessário essa informação poderá ser acessada.

Mas, um detalhe: nem tudo que nosso cérebro processa vira memória e nem tudo que virou memória estará lá intacto e disponível para sempre, ok?

Modelo cognitivo

Figura 2. Modelo Memória (Squire et al., 1993)

Veremos agora então qual o modelo de memória que temos utilizado hoje em dia, e quais são os subtipos de memória.

A primeira divisão que fazemos da memória é relacionada ao tempo em que a informação fica registrada e armazenada em nosso cérebro. Dessa forma separamos as memórias em curto prazo e longo prazo (Squire, Knowlton, & Musen, 1993).

A memória de curto prazo tem como característica armazenar informações por pequenos períodos de tempo (segundos, minutos e horas), enquanto que a memória de longo prazo armazena informações que se tornam presentes por maiores períodos (dias, meses e anos).

A memória de longo prazo é ainda subdividida de acordo com o tipo de informação que é armazenado por tempos maiores. A primeira divisão por tipo de informação se refere ao fato de as informações serem mais facilmente verbalizadas e relatas (declarativas/explícitas) ou serem mais difíceis de verbalizar e fáceis de demonstrar (não declarativas/implícitas).

As memórias de longo prazo declarativas são ainda subdividas de acordo com os pormenores referentes as informações armazenadas. A memória episódica é relacionada ao armazenamento de eventos cotidianos, episódios marcados no tempo e no espaço e normalmente, com detalhes perceptuais. A memória semântica por outro lado é relacionada ao armazenamento de conhecimentos, funcionando como nossa enciclopédia mental.

As memórias de longo prazo não declarativas são também subdividas em habilidade motoras, condicionamento e priming. As habilidades motoras são relacionadas a sequências motoras que executamos com destreza, como amarrar os cadarços. O condicionamento está relacionado a respostas mnemônicas prepotentes diante de um estímulo que elicia uma ação.  E o priming está relacionado a uma pré-ativação cerebral de rede de informações relacionadas quando um elemento é evocado ou alvo de foco atencional.

Bases neuroanatômicas

Podemos esperar que com tantos subtipos de memória, diferentes regiões cerebrais sejam correlacionadas estruturalmente as diferentes memórias. De uma forma mais ampla, os subtipos de memória possuem correlações estruturais com as seguintes regiões (García-Lázaro, Ramirez-Carmona, Lara-Romero, & Roldan-Valadez, 2012; Henke, 2010):

  • Curto Prazo: Lobo Frontal
  • Longo Prazo:
    • Episódica e Semântica: Lobo temporal medial e diencéfalo
    • Habilidade motoras: Gânglios da base
    • Condicionamento: Amígdala e Cerebelo
    • Priming: Neocórtex

No entanto, especificações existem nessas divisões anatômicas, onde nem sempre a mesma região realiza as três etapas básicas de cada memória (codificar – armazenar – recuperar).

Para ficar mais claro, darei o exemplo da memória episódica, que está relacionada as regiões mediais do lobo temporal, especialmente o hipocampo e córtex entorrinal.

O hipocampo é uma região chave para a etapa de codificação da memória, enquanto que o neocortex (em especial frontal e temporal) são responsáveis pelo armazenamento dessa memória. Dessa forma, vemos que as memória uma vez armazenadas, não possuem um local extremamente específico para ficarem fisicamente no cérebro.

Porém, temos o imprescindível papel dos hipocampos na formação de novas memórias, e nesse caso, lesões hipocampais geram dificuldades na formação contínua de memórias. Foi exatamente o que vimos com o H.M. Ele não mais formava novas memórias (hipocampo e córtex entorrinal), mas não perdeu memórias armazenadas previamente a cirurgia (neocórtex frontal e temporal).

Curiosidades

Um aspecto curioso sobre as memórias é que nem todas são codificadas e armazenadas na mesma rapidez e facilidade. Por dois motivos simples: regiões cerebrais e tipo de informação. Outro ponto é que nem todas memórias são resistentes a alterações na sua codificação inicial como gostaríamos de crer.

As memórias que temos como sendo de rápida codificação, mas maleável a alterações são a episódica e o priming. As memórias semântica, habilidades motoras e condicionamento são memórias com codificação longa, que depende da repetição, mas que terminam por manter essas codificações de forma mais estáveis ao longo do tempo (Henke, 2010).

O que essa curiosidade nos diz?

Bom, aquela memória responsável por eventos pessoais e informações cotidianas (episódica), acaba sendo alterada a cada vez que lembramos da informação e com o passar do tempo. E aquelas memórias relacionadas a nossa aprendizagem na escola (semântica) e para tocarmos um instrumento musical (habilidades motoras) só se tornam efetivamente codificadas se nos expusermos a informação várias vezes.

Ou seja, aprender algo na escola/faculdade/vida requer que vejamos a mesma informação mais de uma vez para que a memória semântica possa oficialmente armazenar.

Outro ponto curioso é que o tempo e a reorganização cerebral para a entrada de novas informações pode eliminar memórias por pouco uso ou contribuição imprecisa para a sua vida.

Para guardar na memória

Após essa exposição mais ampla sobre memória(s), convido vocês profissionais a ficarem mais atentos aos diferentes tipos de memória. No popular todos nossos clientes falarão apenas memória. Mas a que tipo de memória ele se refere?

Por que isso é importante?

Porque diferentes tipos de memória tem diferentes tipos de qualidade na recuperação da informação trazida pelo cliente. Porque quando eles se queixam de dificuldades de memória, entender de qual memória ele relata dificuldades nos leva a pensar em possibilidades e intervenções completamente diferentes. Porque quando pensamos em crianças, adultos e idosos podemos esperar diferentes tipos de curva do desenvolvimento para as memórias.

Como falamos de memória de forma global, convido vocês para os próximos textos aonde poderemos conversar sobre as memórias separadamente, de uma forma mais aprofundada e discutirmos as implicações clínicas e cotidianas de cada uma delas.

Por hora, o desafio é guardar na memória semântica todos esses tipos de memória e observá-las no dia-a-dia.

Referências

Ebbinghaus, H. (2013). Memory: a contribution to experimental psychology. Ann Neurosci, 20(4), 155-156. doi:10.5214/ans.0972.7531.200408

Baddeley, A., Anderson, M. C., & Eysenck, M. W. (2011). Memória (1st ed.). Porto Alegre: Artmed.

Bear, M., Connors, B., & Paradiso, M. (2007). NeuroscienceSunderland (MA): Sinauer Associates. https://doi.org/978-0878937257

García-Lázaro, H. G., Ramirez-Carmona, R., Lara-Romero, R., & Roldan-Valadez, E. (2012). Neuroanatomy of episodic and semantic memory in humans: A brief review of neuroimaging studies. Neurology India60(6), 613–618. https://doi.org/10.4103/0028-3886.105196

Henke, K. (2010). A model for memory systems based on processing modes rather than consciousness. Nature Reviews. Neuroscience11(7), 523–32. https://doi.org/10.1038/nrn2850

Squire, L. R., Knowlton, B., & Musen, G. (1993). The structure and organization of memory. Annual Review of Psychology44(1), 453–495. https://doi.org/10.1073/pnas.70.5.1478

Tulving, E. (1972). Episodic and semantic memory. Organization of Memory. https://doi.org/10.1017/S0140525X00047257

Autora

LAISS BERTOLA

Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com

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