Existe Mesmo uma Pílula Mágica?
Hoje vamos falar um pouco sobre o uso de medicamentos que são desenvolvidos e prescritos para situações onde, entre tantos outros fatores, encontramos a necessidade de uma potencialização de determinado funcionamento cognitivo. Isso ocorre porque nessas situações as pessoas possuem transtornos psiquiátricos ou neurológicos que envolvem sintomas cognitivos, de humor e prejuízos funcionais em diferentes esferas de suas vidas.
No entanto, a humanidade parece gostar de soluções rápidas e sem esforço.
E não demorou para que pessoas saudáveis começassem a querer fazer uso desses medicamentos com a crença de melhorarem seu desempenho (já saudável e dentro do esperado – é importante frisar isso!) e, consequentemente, o uso dessas substâncias tem tomado rumos não esperados.
O uso recreativo ou o uso para melhora de desempenho no meio profissional dessas substâncias, delineadas para propósitos clínicos, tem iniciado uma série de discussões a respeito de até onde elas funcionam ou não em pessoas saudáveis, até que ponto são potencialmente prejudiciais para cérebros saudáveis, e como isso será visto do ponto de vista ético.
Medicamentos classificados como possíveis melhoradores cognitivos são normalmente desenvolvidos para potencializar funções deficitárias em pacientes, ou seja, melhorar o funcionamento de algo que esteja em um estado inferior por motivos clínicos.
Exemplo: quando medicamos pacientes com Demência de Alzheimer, estamos tentando, além de outros fatores, que a memória deles, já deficitária, possa funcionar um pouco melhor.
Só que, e quando vemos pessoas saudáveis querendo fazer uso dessas medicações para poderem melhoras suas memórias (que até então) não são deficitárias? Porque simplesmente acreditam que podem melhorar ainda mais sua atenção para estudar, ou até mesmo sua inteligência...
Calma, muita calma! Para início de conversa inteligência é um constructo cognitivo complexo e estável demais. Nossa inteligência não sai mudando assim! Quem dera fosse fácil né!
Bom, voltando aos medicamentos, temos poucos estudos com pessoas saudáveis e os efeitos reais dessas medicações na cognição humana. Temos mais estudos com medicações envolvendo as anfetaminas, metilfenidato e modafenil.
Nem todos os estudos encontram efeitos benéficos do consumo dessas substâncias no desempenho cognitivo, e os que encontraram não necessariamente controlaram para o chamado efeito-placebo (aquele famoso efeito de melhora que independe da medicação, e sim do fato de acreditarmos no tratamento).
Outro ponto é que em quase nenhum estudo há dados do uso prolongado dessas medicações em pessoas saudáveis.
Ou seja, diferente dos estudos de liberação de medicamentos controlados, nós não sabemos os efeitos dessas medicações em pessoas saudáveis, tanto em questões de efeitos colaterais quanto àqueles referentes ao uso contínuo.
Temos que assumir que é um risco.
A importância do psicólogo propor uma leitura global
Infelizmente vemos uma onda de jovens e profissionais querendo por querer, sem justificativas plausíveis, os resultados “esperados” dessas medicações. Lembrando que são esperados para grupos clínicos e não saudáveis. É como querer que seu cérebro reaja a uma medicação melhorando o funcionamento que na verdade já está bom, homeostático e em equilíbrio.
Mas, sabem porque queremos isso?
Porque é mais fácil!
Para que dormir 8 horas por noite e ter lazer para descansar, se eu posso trabalhar/estudar 16 horas por dia e forçar meu cérebro a se adaptar e funcionar a pleno vapor nessas condições? Para que fazer treinos de atenção, aprender a controlar minha cognição através de esforços sucessivos se eu posso magicamente conseguir prestar atenção?
São por esses e outros imediatismos que pessoas optam pelo risco do uso, ao invés da organização e gerência de suas próprias vidas.
Usam e querem usar medicações sem nem ao menos saberem com exatidão se tem algo que lhes afeta, ou não. E se tem, qual seria a melhor forma de tratar isso. Por exemplo, nem todo mundo que tem queixas de que a memória não funciona bem tem de fato problemas na memória.
Temos várias possibilidades de situações que podem resultar em uma mesma queixa, e fazer essa leitura global é fundamental.
A ausência de um diagnóstico mais holístico, que envolva desde as condições socioambientais, a personalidade, o estado de saúde geral e o funcionamento mental, tem grandes chances de resultar em usos equivocados dessas medicações.
Temos que aprender que nosso cérebro tem limites! E que esses limites fazem parte de seu funcionamento saudável. Ou seja, não tem nada de errado em se sentir cansado ao longo do dia, em ter atenção flutuante, em não se lembrar de tudo. Desde que esses eventos não estejam interferindo em uma vida ponderada e saudável, não temos nada de errado aí.
E se queremos melhorar, por que não investir em uma melhora de vida geral ao invés de sobrecarregar nosso cérebro desnecessariamente?
Ninguém sai tomando remédio de pressão alta sem ter, ou mesmo de diabetes... mas o cérebro... a o cérebro... tem sempre algo místico nele que faz as pessoas quererem sempre o melhor! Nada de errado nisso, mas nem sempre o caminho mais fácil é o melhor para ele.
Por fim, o uso dessas substâncias levantam questões éticas importantes daqui para frente, e que poderíamos ficar uma eternidade falando sobre elas. Por exemplo, se essas medicações se mostrarem potencializadoras no futuro, serão elas legais juridicamente? Serão elas de acesso livre para toda humanidade?
Bom, não nos cabe aqui discutir isso, até porque, por mais que já tenhamos visto movimentos de uso ilegal dessas medicações, elas não tem estudos suficientes que provem ser benéficas em pessoas saudáveis como o são para pessoas com diagnósticos precisos.
De toda forma, vale a discussão para pensarmos sempre no cuidado que devemos ter com facilidades e modismos que as vezes atacam a área do neuro, por querermos sempre um bom cérebro, mas sem esforço!
O ideal para as pessoas sem transtornos é deixar a lassidão de lado e colocar o cérebro que tem à obra!
Referências:
Rose, S. P. (2002). 'Smart drugs': do they work? Are they ethical? Will they be legal? Nat Rev Neurosci, 3(12), 975-979.
Smith, M. E., & Farah, M. J. (2011). Are prescription stimulants “smart pills”? The epidemiology and cognitive neuroscience of prescription stimulant use by normal healthy individuals. Psychological Bulletin, 137(5), 717–741.
Sahakian BJ et al. 2015 The impact of neuroscience on society: cognitive enhancement in neuropsychiatric disorders and in healthy people. Phil. Trans. R. Soc. B 370: 20140214.
Autora:
LAISS BERTOLA
Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com
