Envelhecimento Saudável e Neurociência

Escrito por Academia do Psicólogo | Jul 21, 2016 5:19:00 PM

Neste vídeo, apresentamos o olhar da neurociência sobre o envelhecimento saudável. Vamos olhar para os domínios cognitivos cristalizados e fluidos, bem como, para as estratégias de intervenção do psicólogo: os alicerces para oferecer uma vida mais engajada e saudável durante nosso processo de envelhecimento.

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TRANSCRIÇÃO

Olá, hoje em dia se fala muito sobre o processo de envelhecimento. Todos nós queremos envelhecer de uma forma saudável e, nesse meio, algumas pessoas acabam prometendo aplicativos para os smartphones e tablets ou exercícios mentais que possam promover esse envelhecimento saudável, como se existisse uma fórmula para o processo de envelhecimento. Mas será que isso tudo funciona? A gente hoje vai ver um pouquinho sobre o que acontece no processo de envelhecimento.

A gente tem algumas alterações cerebrais e, com elas, a consequente alteração dos processos cognitivos. O que acontece com o nosso comportamento? E quando a gente deve observar e suspeitar que existe algum desvio desse processo de envelhecimento saudável? Antes de mais nada, nosso cérebro é um órgão como outro qualquer. Ele vai envelhecer.

E nesse processo de envelhecimento, há perdas neuronais, a redução da duplicação desses neurônios, a redução da capacidade de comunicação entre os neurônios e transmissão da informação. Nem sempre isso é tão visível a olho nu em exames estruturais. Muitas vezes, exames que demonstram a conexão cerebral tornam esse processo mais evidente aos nossos olhos.

O que acontece então com esse processo de forma clinicamente visível? Há alterações cognitivas. As alterações cognitivas são mais marcadas pelo declínio no processo de envelhecimento. Diferente do que acontece com a balança da infância, onde há muitos ganhos e poucas perdas, no processo de envelhecimento há mais perdas e poucos ganhos.

E esse processo de envelhecimento não se dá de uma forma exatamente uniforme para todos os nossos domínios cognitivos. Para isso, a gente vai separar esses domínios em dois grandes grupos. O grupo dos domínios cristalizados e os dos domínios fluidos.

Antes de mais nada, se acreditava que os domínios cristalizados não sentiriam o processo de envelhecimento e poderiam se manter estáveis durante toda a vida. Hoje, a gente já sabe que não é bem assim que funciona. Mesmo que eles comecem o processo de declínio bem mais tarde do que os fluidos, os processos cristalizados também vão declinar no processo de envelhecimento.

Entre os domínios cristalizados, a gente encontra, por exemplo, a linguagem e a memória semântica. São aqueles domínios que são mais influenciados pela escolarização e pelo processo cultural. A linguagem, responsável pela nossa comunicação, discurso, nossas estruturas gramaticais e lexicais, assim como a memória semântica, aquele domínio responsável pelos nossos conhecimentos específicos e gerais, nomes, definição de palavras.

Esses domínios se tornam de uma forma visivelmente um pouco mais estável durante o início do processo de envelhecimento e sofrem então sutis perdas durante o processo de forma mais tardia, por volta dos 70, 75 anos. Por outro lado, os domínios fluidos, que são processos mais biológicos, onde a gente tem um envolvimento cognitivo maior que não necessariamente é aprendido de antemão, a gente encontra a memória episódica, por exemplo, que é aquela memória responsável por armazenar fatos recentes, marcados no tempo e no espaço, como o que a gente comeu no almoço hoje, como as funções executivas, que são responsáveis por regular o nosso comportamento frente a um objetivo específico e ajustar esse comportamento sempre que for necessário, e as habilidades visiospaciais, ou seja, saber fazer manipulações mentais, espaciais e estruturais no nosso dia a dia. Esses domínios, por exemplo, eles sentem muito mais o processo de envelhecimento mesmo que saudável, e isso é o que abre portas para que a gente escute com bastante frequência que mesmo idosos bastante robustos com envelhecimento aparentemente saudável tenham queixas de que andam esquecendo mais do que eles costumavam quando mais jovens.

Isso é normal. A gente só tem que observar se esses esquecimentos não estão de uma forma muito mais frequente, muito mais intensa no dia a dia desses idosos. Se essas queixas cognitivas começarem a aparecer de forma mais frequente, de forma mais intensa e começando a gerar determinados prejuízos funcionais, essas queixas já não são tão compatíveis com o que é esperado de um envelhecimento saudável.
O comportamento em contramão, ele tende a se manter relativamente bastante estável durante o processo de envelhecimento. Não é tão comum que a gente encontre, por exemplo, sinais de tristeza, de ansiedade, de agitação, de agressividade nesses idosos. Então quando a gente observa alterações de humor ou de personalidade nos idosos de forma que isso fuja ao que eles normalmente apresentaram durante a vida, isso também começa a sinalizar para a gente algum tipo de desvio do que seria o envelhecimento saudável.

Bom, então sabendo que a gente tem esse desequilíbrio onde há mais perdas do que ganhos, e que nem todos os nossos processos cognitivos vão se comportar da mesma maneira ao longo do processo de envelhecimento, mas que de alguma forma todos eles vão declinar, a gente fica aqui sentado de braços cruzados esperando o tempo passar e sabendo que a gente vai declinar? Não, não é isso que ninguém quer. E é nesse meio que existem as oportunidades de pensar em estratégias de intervenção que possibilitem ou que enriqueçam o processo de envelhecimento de forma protegeu. Só que estudos cientificamente validados, nesse campo eles são mais raros, eles são mais custosos, eles envolvem estudos randômicos, controlados, com envasamento teórico específico, de forma que a intervenção ela possa ser feita com um grupo de idosos e comparada a um grupo de idosos que não recebeu essa intervenção.

Só que como a gente trabalha com idosos que estão inseridos em um meio social onde tem uma série de fatores que podem influenciar a cognição, o produto que seria a cognição, que para esses estudos às vezes fica difícil estabelecer essa relação de causalidade de forma muito clara. É difícil dizer que foi aquela intervenção que promoveu esse processo de envelhecimento saudável. E muitas vezes o que a gente quer não é verificar um processo de envelhecimento saudável de curto prazo, a gente quer que essa intervenção seja capaz de promover o envelhecimento saudável a longo prazo, durante alguns anos ainda.

Então como esses estudos, quando eles existem, eles têm esses achados que por vezes ficam mais conturbados, o meio encontrou formas de oferecer estratégias e atividades clichês. O problema das atividades mais clichês, do nosso que a gente ouve falar que seriam bons pro processo de envelhecimento, é que elas acabam não sendo generalizadas como deveriam. O que isso quer dizer? Toda vez que a gente se envolve em algum tipo de reabilitação ou de estimulação pro nosso cérebro, o ideal é que aquela função, da forma como a gente trabalha ela, ou da forma como a gente melhora ela, ela possa ser utilizada no dia a dia, em diferentes esferas e cenários, e não só pra realizar aquela determinada tarefa.

O que acontece com essas atividades mais generalistas é que a gente fica muito bom nelas, mas leva muito pouco pra vida real. Não adianta que eu fique boa em fazer um exercício específico se isso não me servir no meu dia a dia. Então existe processo de estimulação que a gente possa fazer no processo de envelhecimento? Claro.

Só que essa estimulação precisa ser baseada em evidências. Ela vai levar em consideração o perfil desse idoso que a gente tem hoje, qual é a sua funcionalidade, quais são as demandas, o que ele tem preservado, o que ele possa utilizar de compensação, de forma a otimizar esse processo, o que seria de certa forma generalizado pro aspecto da vida dele. São intervenções baseadas em evidências e não simplesmente no ah, eu vou fazer isso e isso consequentemente vai me deixar melhor pro processo de envelhecimento.

Mas aí de novo a gente cai no segundo ponto. Então eu preciso necessariamente passar por um profissional pra fazer a leitura do meu processo de envelhecimento, pra que então eu decida quais são os processos de estimulação, se eu preciso ou não, o que eu vou fazer ou não. Nesse meio tempo se eu não fizer isso, eu fico o que, sentado, esperado de novo? Não.

Alguns modelos vão propor que a gente tem 4 alicerces fundamentais pro processo de envelhecimento bem sucedido. Esses alicerces fornecem em equilíbrio um processo de envelhecimento que é saudável como um todo, desde que levado em consideração ao mesmo tempo, todos ao mesmo tempo. O primeiro eixo é justamente a gente evitar doenças e reduzir incapacidades.

O que isso quer dizer? Se o idoso tem uma patologia que é um fator de risco pro processo de envelhecimento não tão bem sucedido, essas patologias, essas doenças, elas tem que ser muito bem controladas e se possível eliminadas. Por exemplo, hipertensão, diabetes, transtorno depressivo, todos esses fatores, quando controlados os seus sintomas, eles tendem a reduzir o processo de impacto ou o fator de risco que eles exercem sobre o processo de envelhecimento. E também a gente deve evitar adicionar fatores de risco na nossa vida.

Então, por exemplo, o uso abusivo de substâncias é um fator que tende a piorar o processo de envelhecimento. O segundo eixo é manter esse idoso engajado com a sua própria vida. Ou seja, ele manter algum tipo de profissão, ou substituir aquela profissão por alguma ocupação que lhe promova prazer, ou lhe traga um engajamento com a sua situação, manter-se cognitivamente estimulado naquele momento, de forma a exercer essa função que demonstra o engajamento com a sua própria vida.

O terceiro ponto é que ele seja psicologicamente adaptado à sua realidade, que ele entenda o processo da sinistência, que ele verifique esses processos e como eles mudem, que ele se ajuste emocionalmente a esses processos do envelhecimento e que ele mantenha um bom suporte social durante esse processo. E o quarto, e não o último, mas não menos importante eixo, é que eles mantenham um alto funcionamento físico e cognitivo. Ou seja, que eles estejam fisicamente ativos e bem, e que eles mantenham um controle mental do seu funcionamento, que eles sejam cognitivamente estimulados, e que eles mantenham a percepção a respeito do seu próprio processo de envelhecimento.

Nesse caso, não adianta manter um eixo e deixar o outro desequilibrar. Não adianta eu reduzir o dano de doenças e esquecer de me manter engajado com a minha própria vida. Ou não adianta eu ter uma ótima percepção sobre o processo de sinistência e esquecer de ter todo o processo de controle mental e exercício mental que seria necessário.

Esses desequilíbrios, eles também não são benéficos. É claro que nesse processo a gente adiciona uma série de outros fatores que são generalistas, mas altamente benéficos, entre as práticas de esporte, as atividades cognitivamente estimulantes, uma boa alimentação, atividade de lazer, grupos sociais, manutenção de grupos sociais, entre outros fatores. Um outro modelo no processo de envelhecimento que leva em consideração de que agora a balança está desequilibrada mais pra perdas do que pra ganhos, ele sugere que o idoso saiba selecionar as esferas da vida de onde ele vai engajar com maior intensidade.

Que esse engajamento seja otimizado e eficaz nesse processo e que mediante as dificuldades que vão surgindo ele saiba compensar essas dificuldades de alguma forma durante a vida. Esse processo fornece ao idoso de selecionar, otimizar e compensar uma interação com o ambiente, entre o seu organismo, o seu próprio status biológico e a cultura e a sociedade de uma forma muito mais eficaz pro seu processo de envelhecimento. Bom, então eu já pude mostrar pra vocês que fórmula secreta a gente não tem.

A gente tem alguns conhecimentos de coisas que por mais que sejam abrangentes demais elas certamente funcionam de alguma forma. E isso tudo pra mostrar que a gente ainda não tem essa fórmula secreta ou esse caminho aonde isso tudo seja muito fácil. É literalmente quando a esmola é demais, o salto desconfia nesse momento.

Se fosse fácil resolver esse quebra-cabeça de bilhões de neurônios, os neurocientistas não precisariam estar aí estudando o processo de envelhecimento afinco, buscando soluções tanto pro saudável quanto pro patológico. Eles não estariam nadando contra a maré de propósito. Se fosse simplesmente realizar algumas tarefas de forma automatizada.

Bom, então sabendo que a gente pode oferecer pro nosso cérebro uma vida mais saudável, mais engajada, que leve em consideração todos esses alicerces, que tal a gente fazer isso pro nosso processo de envelhecimento?

AUTORA

LAISS BERTOLA

Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com