Como a Terapia de Casais Mudou! Apego, Amor e Ciência

Escrito por Academia do Psicólogo | Jan 6, 2017 2:07:00 PM

É comum ver a terapia de casal ocupar-se de negociações, gerenciamento de conflitos e sobre como ter decisões mais racionais envolvendo os casais, mas neste artigo a terapeuta familiar Sue Johnson discute a "Terapia de Casal Focada no Emocional" à luz de novas pesquisas sobre o apego em relacionamentos amorosos.

Trata-se de, como Sue propõe, parar de olhar apenas a bola e compreender o jogo. O que uma briga ou uma reclamação sobre o parceiro está realmente querendo expressar?

Ao nomear sentimentos e expor as necessidades de segurança e conexão, focamos o trabalho nas emoções e no desenvolvimento de um relacionamento saudável. Tudo isso de forma muito bem fundamentada na ciência psicológica, apresentando evidências e o recorte de uma sessão como estudo de caso.

Espero que gostem,

Daiana Rauber

A revolução

Apenas alguns anos atrás, a terapia de casais foi cinicamente rotulada como um conjunto de técnicas em busca de uma teoria!

Agora, pesquisadores como John Gottman e Kim Halford sugeriram que mesmo as técnicas aceitas neste campo, como o ensino de resolução de problemas e habilidades de gerenciamento de conflitos, embora benéficas, não parecem chegar ao cerne da questão em termos de oferecer um caminho para uma mudança duradoura nos relacionamentos e não refletem como os casais felizes se relacionam uns com os outros fora da terapia.

Se tudo isso já não fosse difícil o suficiente, todos concordam que a terapia de casais pode ser muito difícil de realizar.

Lidar com duas pessoas, dois conjuntos de emoções em ebulição, brigas que só aumentam, clientes que se machucam, mas não querem ceder... Ser mais razoável e negociar não é para os fracos de coração.

Diante de tudo isso, parece compreensível que a terapia de casais seja muitas vezes ridicularizada ou caluniada como ineficaz na mídia. Mas, apesar disso, milhões de casais persistem em procurar terapeutas, talvez porque, como pesquisas recentes nos dizem, a maioria das pessoas na América do Norte quer encontrar um relacionamento amoroso como seu principal objetivo de vida, colocando-o à frente da carreira ou do sucesso financeiro.

É uma sorte, então, que a imagem da terapia de casais pintada acima não represente toda a sua imagem. Na verdade, esta imagem está simplesmente desatualizada.

A terapia de casais está no meio de uma revolução.

O elemento-chave desta revolução é o desenvolvimento de uma nova ciência do amor e das relações amorosas.

Como Yogi Berra nos disse: "Se você não sabe para onde está indo, vai terminar em outro lugar." Sem um modelo claro de amor e um processo de conexão e desconexão, é difícil saber como concentrar as intervenções na definição dos problemas e momentos de um relacionamento.

É difícil saber quais mudanças realmente vão fazer a diferença e qual deve ser o objetivo geral na terapia de casais.

Se o amor é, como Marilyn Yalom em seu livro The History of the Wife (A História da Esposa) sugere, "uma mistura inebriante de sexo e sentimento que ninguém pode entender", então a terapia de casais é material para mais uma típica série de tv. Como ela sugere, sexo e emoção parecem ser intrínsecos ao amor, mas não tem que ser um mistério completo.

Existem muitas vertentes nesta nova ciência das relações amorosas, mas todas elas se reúnem na crescente literatura sobre o apego entre os adultos, uma extensão relativamente recente do trabalho do psiquiatra inglês John Bowlby sobre os laços emocionais entre mães e filhos.

A perspectiva de apego dá ao terapeuta de casais um mapa significativo e eficaz para o drama e angústia entre os parceiros.

Ele orienta o terapeuta nos momentos cruciais de interações de casais e por que eles importam tanto; oferece ao terapeuta um guia para as necessidades mais profundas e emoções mais fortes de cada parceiro. Mesmo assim, a maioria dos terapeutas vai perguntar: "Mas ele me diz o que fazer de momento em momento em uma sessão de casal?"

Muitas correntes de pesquisa e teoria abordaram essas questões ultimamente. Meus colegas e eu exploramos essas questões no que chamamos de Terapia de Casal Focada no Emocional (EFT), um conjunto sistemático, rigoroso e testado de intervenções baseadas na visão de ligação do amor e da união.

Recentemente, resumi as abordagens baseadas no apego de uma maneira que pode ser oferecida aos clientes e ao público em “Abrace-me forte: Sete conversas para uma vida de amor”. A grande força dessa nova perspectiva científica é exatamente a de oferecer um corpo rigoroso de observação e pesquisa sobre o que é o amor e como ele muda de forma e cor.

Além disso, é uma abordagem testada para intervenção com excelentes dados de resultado e relevância clínica.

Os clientes também nos dizem que essa maneira de ver e trabalhar realmente chega ao cerne da questão. Neste artigo, vou resumir a perspectiva do apego e como ela é apoiada por diferentes vertentes da ciência dos relacionamentos e como ela se traduz em prática na EFT.

Uma nova teoria científica e prática do amor

A multiplicidade de estudos sobre o apego adulto que surgiu na última década nos diz que a essência do amor não é um intercâmbio negociado de recursos (então por que ensinar habilidades de negociação?), uma amizade, um truque da natureza para te fazer acasalar e passar seus genes, ou um episódio de tempo limitado de vício delirante.

O amor é um tipo muito especial de vínculo emocional, cuja necessidade está conectada ao nosso cérebro por milhões de anos de evolução.

É um imperativo de sobrevivência.

O cérebro humano codifica isolamento e abandono como o perigo e o toque e a responsividade emocional de entes queridos como segurança, uma segurança que promove a máxima flexibilidade e aprendizagem contínua.

Jaak Panksepp, em seus estudos neurobiológicos, acha que a perda de conexão de figuras de apego desencadeia o "pânico primordial", um conjunto especial de respostas de medo. Como Bowlby observa, as palavras "ansiedade" e "raiva" vêm da mesma raiz etimológica e ambas surgem em momentos de desconexão, quando as figuras de apego não respondem.

Essa necessidade de conexão emocional não é uma noção sentimental. A imagem básica de quem somos e quais são as nossas necessidades mais básicas, ou seja, que somos animais sociais que procuram tal ligação, reflete-se nos estudos sobre a saúde. Por exemplo, é claro agora que o isolamento emocional é mais perigoso para a sua saúde do que fumar, e que duplica a probabilidade de ataque cardíaco e derrame.

A teoria do apego afirma que precisamos de um relacionamento que seja um refúgio seguro para nos voltarmos para quando a vida é demais para nós e isso nos oferece uma base segura para encararmos o mundo com confiança. Esta é a dependência efetiva.

Muitos clientes de psicoterapia aprendem que seu problema é que eles são muito próximos ou indiferenciados de entes queridos. A abordagem aqui discutida oferece uma imagem maior: a evidência é que a conexão segura e estreita é uma fonte de força e integração de personalidade ao invés de fraqueza.

Estudos mostram que as pessoas conectadas de forma segura têm um sentido mais articulado e positivo do ego. Dezoito meses após o 11 de setembro, o pesquisador Chris Fraley descobriu que os sobreviventes conectados com segurança, que poderiam recorrer a outros para apoio emocional, foram capazes de lidar com esse trauma e crescer a partir dele, enquanto os sobreviventes inseguros estavam enfrentando problemas mentais significativos.

A conexão segura é moldada pela acessibilidade emocional mútua e responsividade. Este é o centro do drama que se desenrola no consultório do terapeuta do casal. As brigas que importam em um relacionamento são apenas superficialmente sobre as crianças ou dinheiro.

Parceiros e terapeutas podem passar muitas horas falando sobre esses problemas em vez de se concentrar em como o casal fala e, mais especificamente, sobre as questões-chave de apego que levam ao relacionamento negativo do casal.

As perguntas-chave são: "Você está lá para mim?" - Eu tenho importância para você? "Você vai virar para mim e me responder?". Parceiros muitas vezes não sabem como fazer essas perguntas, e os terapeutas muitas vezes não as fazem ou até mesmo as veem como um sinal de dependência imatura.

A teoria do apego nos diz que a emoção e os sinais emocionais são a música da dança entre os íntimos. Muitas terapias encorajam os clientes a contornar uma emoção forte ou a substituí-la por pensamentos ou decisões racionais.

Pesquisadores de emoção como James Gross agora nos dizem que isso não só aumenta a ansiedade na pessoa que está inibindo a emoção, mas também cria tensão no outro parceiro. Uma abordagem que se concentra no apego sugere que a emoção é melhor reconhecida e ouvida, de modo que os sinais emocionais podem ser moldados de formas que tornam a conexão segura.

Novas respostas emocionais também são essenciais se a terapia é para atender os anseios mais profundos de cada parceiro, ajudar os parceiros a formular suas necessidades e oferecer um caminho para o tipo de conexão amorosa compassiva que os casais estão buscando.

Apego seguro, não apenas contenção de conflito, é o objetivo da terapia de casais aqui.

Ao final da terapia, um terapeuta de EFT, por exemplo, quer ver seus clientes ouvirem suas emoções, falarem claramente suas necessidades e alcançarem seu parceiro de uma forma que ajudem o parceiro a sintonizar e responder.

Uma pesquisa dos resultados da EFT nos diz que quando os parceiros podem fazer isso em sessões chaves, vão em direção da recuperação do sofrimento, e esta recuperação tende a ser estável ao longo do tempo. Estudos mostram que mais de 7 de cada 10 casais alcançam isso com EFT.

Então a conexão emocional segura ajuda cada parceiro a lidar positivamente com o estresse e a angústia, independentemente se esse estresse surge de dentro ou fora do relacionamento. Eventos negativos então fazem um relacionamento mais forte.

Jim Coan descobriu que quando as mulheres, em uma máquina de ressonância magnética, recebiam um sinal que parecia que elas estavam levando choque nos seus pés, seus cérebros registraram uma resposta de alto estresse, especialmente se elas estavam sozinhas e mesmo com um estranho segurando sua mão.

Mas se elas se sentiam amadas em seu casamento e seu marido segurasse sua mão, então o cérebro dessas mulheres estava muito mais calmo e o choque parecia doer menos; dar as mãos dadas a um ente querido "acalma neurônios agitados" no cérebro.

Como Bowlby previu, há cada vez mais evidências de que os amantes estão conectados por uma rede neural. Eles regulam a fisiologia e a vida emocional uns dos outros. Quando eles estão sintonizados emocionalmente, eles ajudam um ao outro a alcançar um equilíbrio físico e emocional que promove o funcionamento ideal.

Se você olhar através da lente do apego, as espirais negativas que os casais angustiados criam e são vitimados são todas sobre aflição de separação - a privação e a fome emocional que vem da desconexão emocional.

Quando não conseguimos ter uma figura de apego para responder a nós, entramos em uma sequência de reclamação, primeiro esperançosos e depois irritados, desesperados e coercitivos.

Procuramos contato da maneira que pudermos. Meu cliente me diz: "Eu cutuco ele e atiço ele - qualquer coisa para obter uma resposta dele, para saber que eu importo para ele." Se não podemos obter uma resposta, desespero e depressão se manifestam.

Esta maneira de entender o ciclo de necessidade e afastamento usual em um relacionamento desgastado permite que o terapeuta ajude o casal a ver o jogo em vez da bola e se juntar contra o inimigo comum do isolamento e a relação negativa que está consumindo seu relacionamento.

Isso também implica que, a menos que os problemas de apego subjacentes e o pânico primordial sejam abordados, outras abordagens, como compreensão ou sequências de habilidades de aprendizado, provavelmente não serão eficazes.

Criando uma conexão segura

Se não podemos encontrar uma maneira de nos voltarmos para o nosso parceiro e moldar um senso de conexão segura, existem apenas duas outras estratégias secundárias abertas para nós e elas mapeiam duas realidades emocionais com uma lógica requintada.

  • A primeira estratégia é deixar-se levar pelo medo do abandono e exigir a capacidade de resposta culpando o outro; infelizmente, isso muitas vezes ameaça o outro e afasta mais ainda a outra pessoa, especialmente se essa estratégia se torna habitual e automática.
  • A segunda estratégia é adormecer as necessidades e sentimentos de apego e evitar o engajamento (e o conflito), ou seja, fechar-se e retirar-se. Infelizmente, isso faz a outra pessoa se fechar.

Ambas as estratégias secundárias são maneiras de tentar se agarrar a um relacionamento de apego e lidar com sentimentos difíceis, mas elas muitas vezes são contraproducentes.

Ao longo dos estudos e prática do EFT, temos sido capazes de traçar as realidades emocionais dos parceiros durante o uso dessas estratégias. Uma vez que eles podem ordenar e nomear seus sentimentos, os reclamantes falam de se sentirem sozinhos, esquecidos, sem importância, abandonados, e sentirem insignificantes para seu parceiro.

Por debaixo da sua raiva eles são extremamente vulneráveis. Os que se afastam falam de sentir vergonha e medo de ouvir que eles são fracassos. Eles acreditam que eles nunca podem agradar seu parceiro e, portanto, se sentem impotentes e paralisados.

Terapia de casal orientada para o apego

Teoria do apego oferece um mapa para a dança do amor e as emoções poderosas que movem os parceiros nesta dança. Nas interações momento a momento, modelos cognitivos de identidade pessoal também são moldados. Cada pessoa é definida e define-se como amável ou indigna e o outro como confiável ou perigoso. O mapa oferecido aqui permite que o terapeuta vá ao interior de cada parceiro, entre os parceiros e seus padrões.

O terapeuta então, com as intervenções da EFT baseadas no apego, forma novas interações e novas emoções, ajudando os parceiros a passar da raiva desesperada, por exemplo, para uma clara expressão de medo e saudade que evoca cuidado e compaixão no outro parceiro e cria o contato que eles tanto anseiam.

A EFT como uma terapia orientada para o apego supõe que as emoções remodeladas e os sinais emocionais e as novas sequências de interação responsiva são necessárias para transformar um relacionamento de apego. A terapia de casais tem sido justamente, sob esse ponto de vista, acusada de ignorar o cuidado e a conexão para um foco no gerenciamento de conflitos, poder e limites.

Esta abordagem resolve esse problema tendo como foco construir relacionamentos satisfatórios e significativos.

Os anseios de apego estão conectados em nossos cérebros e a tendência para alcançar e confiar e para o conforto e cuidado estão sempre lá, mesmo se não reconhecidas ou negadas. A tendência de responder a uma desconexão dolorosa por se fechar ou atacar também está sempre presente e pode tornar-se habitual para todos nós.

Bowlby, como Carl Rogers, viu como todos nós podemos ficar presos em estratégias sem saída de lidar com as nossas necessidades emocionais e com os entes queridos, mas também acreditava que podemos ter uma experiência corretiva emocional de conexão segura que abre novas portas para nós e muda essas maneiras.

O que tem que acontecer - ou o que é necessário e suficiente para uma mudança transformacional duradoura ocorrer em uma relação com problemas?

Minha experiência leva-me a acreditar que uma experiência emocional corretiva de conexão segura que é então integrada no ego e na relação é necessária. E como seria isso?

Sabemos de milhares de estudos sobre apegos entre mãe e filho e de amor adulto nos quais ao viver relacionamentos seguros essas pessoas podem tomar consciência e regular suas emoções de apego, aceitar suas necessidades e expressar essas necessidades de forma coerente e abertamente para o outro.

Elas podem aceitar o conforto quando oferecido e, em um relacionamento adulto, oferecer conforto ao outro. Elas podem então usar esse senso de segurança que sentem e projetá-lo no mundo, para explorar e aprender. Em eventos de mudança específicos que predizem resultados positivos na segunda fase da EFT, quando o terapeuta está guiando o casal em ciclos positivos de engajamento e confiança, isso também é o que vemos.

Com ambos os parceiros ansiosos, tanto o que culpa quanto o que se afasta, o terapeuta os ajuda a entrar em uma conexão mais profunda com seus próprios medos e desejos e, em seguida, expressar esses medos e desejos para seu parceiro de uma forma que puxa o outro para perto.

Os que se afastam afirmam suas necessidades de segurança e podem dizer ao seu amante o que eles precisam para ficar emocionalmente engajados. David diz: "Tenho que sentir que posso vencer aqui, não posso andar em cascas de ovos e duvidar e me abater todos os dias, quero estar perto, preciso de sua ajuda e de uma pequena confiança de você". E os parceiros que culpam podem expressar seus medos e também arriscar se aproximar de seus parceiros.

A esposa de David, Sue, pode dizer: "Tenho tanto medo de ser decepcionada, de entrar em queda livre, mas preciso de sua tranquilidade, tenho que saber que tenho importância para você - que você não vai deixar que percamos um ao outro".

Quando os casais podem se reconectar (ou mesmo se conectar pela primeira vez!) desta forma, eventos de ligação imensamente positivos acontecem. Os parceiros começam a se ver mais plenamente e são mais autênticos e compassivos uns com os outros.

Sua conexão capacita cada um deles e abre a porta para todos os benefícios que a pesquisa nos diz que vem com um apego seguro. Sua maneira de se engajar com suas próprias emoções, seus entes queridos e o mundo, que agora contém um refúgio seguro, muda.

A pesquisa sobre a ligação sugere que, quando eles fazem este tipo de conexão, os amantes são provavelmente inundados com o hormônio do abraço, a oxitocina. Isso é liberado durante o orgasmo, amamentação ou simplesmente quando as figuras de apego se aproximam de nós. A oxitocina também está ligada à liberação de dopamina, um opiáceo natural ligado ao prazer, e que regula o cortisol, o hormônio do estresse.

A base neuroquímica da ligação - a fonte física do sentimento eufórico e calmo associado ao amor - não é mais um mistério. Uma vez que um casal pode criar esses tipos de interações, eles podem passar para a fase de consolidação final da EFT.

A aplicação prática do apego e os resultados de pesquisas associadas também levam a novas áreas excitantes. Ela leva a uma nova compreensão de como criar perdão para as feridas nos relacionamentos de apego. Um processo de sete etapas foi delineado e testado (Johnson, 2004). Uma nova pesquisa também dá ao terapeuta um guia para a integração do sexo e do apego, ajudando-nos a entender os resultados da pesquisa recente de Laumann que o sexo mais satisfatório ocorre em relacionamentos amorosos de longo prazo.

Presença emocional e engajamento são as chaves para o sexo permanecer emocionante, em vez de procurar novidade ou necessidade de distância para provocar o desejo.

Uma nova compreensão do amor também estende o alcance do terapeuta de casais. EFT é usado para criar relacionamentos de porto-seguro para aqueles que estão traumatizados. Se podemos curar relacionamentos, também podemos criar relacionamentos que curam. Um relacionamento seguro e amoroso é o antídoto natural para o tsunami emocional do trauma.

Sam e Kate: Uma sessão de casais EFT

Vamos agora ver algumas intervenções em um pequeno pedaço de terapia de casais e ver como tudo isso afeta as escolhas que o terapeuta faz em uma sessão.

Kate e Sam são um casal de idosos que foram muito feridos em relacionamentos passados. Kate foi ferida no começo pela relutância de Sam, nos primeiros anos de seu relacionamento, em se comprometer com ela. Ele precisava de uma "rota de fuga", a ponto de ela se sentir humilhada e excluída por ele, especialmente em situações sociais. Eles percorreram um longo caminho. Sam agora está expressando seu compromisso e carinho, mas Kate não consegue confiar nele e ir morar com ele novamente.

Esta sessão centrou-se na resolução deste impasse. Abaixo está uma lista de um número de intervenções usadas e alguns exemplos de interações terapêuticas com Sam e Kate.

  • A validação é usada para criar um refúgio seguro na sessão para ambos os parceiros.
  • As emoções são rastreadas, desempacotadas e amarradas em etapas-chave no drama do casal.
  • As respostas são enquadradas e clarificadas dentro da nova compreensão do apego.
  • As emoções profundas são aumentadas e evocadas para mover os parceiros em interações novas, mais responsivas.
  • Novas promulgações são moldadas para ajudar os parceiros a interagirem onde cada um deles pode alcançar o outro e responder carinhosamente ao outro.

Sam: Estamos bem e então não estamos. Ela fica tão chateada. É desanimador. Então eu sou repreendido sobre todos os ferimentos e crimes passados. (Ele dá os ombros e ergue as mãos.)

Terapeuta: (Escolhe se concentrar no processo - as emoções de Sam e como elas o movem na dança do apego.) Você se sente desanimado, e como você estivesse sendo repreendido. Meio desesperado, então? Então, o que você faz aqui? É um desses momentos em que você, como você disse, tenta "explicar", dar razões para ações passadas, e acaba "retrocedendo" um pouco? (Sam concorda com a cabeça e Kate também.) Isso deve ser tão difícil para você, Kate. (O terapeuta reflete ativamente o padrão de apego deste casal, valida e enfatiza para criar um refúgio seguro na sessão.)

Kate: Ainda não me sinto ouvida. Eu era dispensável para ele - estou ferida.

Uma nova pesquisa sobre a dor descobre que ela é uma mistura de raiva, tristeza e medo - o medo de ser excluído, abandonado e rejeitado.

Nós conversamos muito, mas isso não muda. E então fomos para aquela festa no sábado e depois brigamos. A dor continua para sempre. Então eu só digo: "Apenas saia." (Ela chora amargamente.) Alguns dias eu vejo que ele está se esforçando para estar lá, mas... Então nós apenas nos afastamos um do outro. Eu não posso confiar e ele simplesmente desiste de nós.

Terapeuta: Alguma parte de você vê que ele está lutando por você, (ela acena com a cabeça). Mas nesses momentos - esta dor ainda é desencadeada e atinge como um tsunami (aumentando as emoções de apego primário). A dor é tristeza? (Ela acena com a cabeça). Há alguma raiva, e uma terrível sensação de que isso é insuportável. A única resposta é para ele sair e você se proteger, não deixá-lo entrar? A dor vai continuar e continuar - essa é a parte assustadora.

Kate: Sim. É triste e é assustador. Eu nunca vou sentir segurança aqui. Não posso arriscar com ele.

Terapeuta: (Usando o mapa de emoções de apego.) Há um pânico. Você pode sentir esse medo agora? Kate murmura que sim.

Kate: É como se eu estivesse em queda livre.

Sam: Eu tento. Eu tento dizer-lhe que estou aqui, que quero que você vá para a festa comigo. Eu sei que no passado as festas eram como um campo minado. Eu sei que eu mantive você distante. Agora eu tento chegar até você, mas você não confia nisso. Então o que eu posso fazer? (Ele novamente lança os braços para cima no ar e se afasta.) Você é tão atraente, tão competente. Você é perigosa para mim também.

Terapeuta: Sam, quero que fique aqui agora, não se afaste e desanime. Eu sei que é difícil estender a mão para Kate e ver que ela não é capaz de corresponder. Isso requer coragem. Mas você pode ver que ela está com medo? Muitas feridas do passado e medos estão lá para ela nesses momentos. (Seus medos são validados e as respostas de Kate são esclarecidas à luz das vulnerabilidades de apego.) Você pode dizer a ela, "Eu quero que você esteja comigo nas festas, eu quero tranquilizá-la, cuidar de você e fazê-la sentir-se segura"? (Destaque a mensagem de anexo, o convite, vindo de Sam.)

Sam: (Se vira para Kate) Sim. Sim, estou falando do meu coração. (Ele põe a mão em seu braço.)

Terapeuta: Kate, você pode sentir a mão de Sam em seu braço? (Ela balança a cabeça.) Você não pode sentir o calor em sua mão? (Ela sacode a cabeça novamente.) Você está tão assustada que você fica entorpecida, é isso?

Kate: Eu fico anestesiada. Na festa da outra noite, eu estava anestesiada. Tão assustada que a velha situação pudesse acontecer novamente. Que ele se afastaria; agiria como se eu não fosse sua companheira. Na fachada funciona, mas por dentro...

Terapeuta: Você está com tanto medo de se ferir novamente, de sentir-se sem importância, dispensável. (Kate acena com a cabeça.) Então você fica anestesiada. Você não pode sentir seu calor. Você não sente confiança nele. Então ele fica desanimado e começa a expressar desesperança e isso confirma o seu medo. Você pode dizer a ele: "Estou com tanto medo de você me deixar esperando, de começar a sentir e precisar de você de novo"?

Kate: (Para Sam) Estou tão assustada. Quero acreditar que você está comigo agora, mas quando fazemos coisas como ir a uma festa, toda a velha dor vem e eu apenas fico anestesiada. Então quando você me toca, é como se você estivesse a um milhão de km de distância.

Terapeuta: Como Sam pode te ajudar, Kate? Como ele pode ajudá-la com seu medo, sua dúvida? ("Não sei", Kate murmura.) Você pode olhar para ele? Você vê que ele se importa, que ele não quer que você fique magoadoa ou com medo?

Kate: (Olha Sam atentamente.) Sim, eu vejo isso. Preciso que ele ouça a velha dor que tenho e me ajude com isso. Eu preciso dele para me ajudar a curar e para me tranquilizar de que está tudo bem eu voltar a colocar minha confiança nele. (De repente ela sorri e ele se aproxima e sorri para ela.)

Sam: Bem, então é isso que vamos fazer. Não sei bem como fazê-lo, mas estou aqui. (Ela se inclina para frente e se dobra em seu ombro.)

Neste momento, Sam oferece a Kate um senso de conexão, e vejo o dueto neural que os pesquisadores descrevem quando falam de neurônios espelhados disparando no cérebro para que sintamos dentro de nossos corpos os movimentos e emoções de outro. Esse sentido de conexão sentida parece criar um estado de ressonância de que os físicos falam.

Neste estado conectado, duas partículas vibram juntas e movem-se em uma coordenação requintada, uma sincronia natural de ritmos e respostas correspondentes, onde as intenções e os movimentos são transparentes e perfeitamente antecipados.

Este tipo de engajamento pode ser visto em momentos de alegria entre mãe e filho, pai e filho. É também parte destes momentos entre os amantes adultos, como Sam e Kate. Esta é talvez a essência do amor.

Então sim! A terapia de casais mudou.

Está mudando para uma rica disciplina científica que tem um lugar central para o amor e o apego. Nós alcançamos o espaço, Marte e além. Esta ciência da conexão humana muda tudo, permitindo-nos alcançar o espaço interior.

E cá entre nós... mudou para melhor.

*Este artigo foi traduzido e publicado com autorização do site original, desde que fosse citada a fonte, a versão original pode ser vista aqui.

**A Dra. Sue Johnson é uma das criadoras e principal proponente da Terapia de Casais Focada no Emocional (EFT), agora uma das intervenções de casais mais validadas na América do Norte. Ela é diretora do Instituto de Casais e Famílias de Ottawa (Canadá) e do Centro Internacional de Excelência em Terapia Emocionalmente Focada, além de Professora de Psicologia Clínica da Universidade de Ottawa e Professora de Pesquisa da Alliant University em San Diego, Califórnia.