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Psicologia Bariátrica Áreas de Atuação

Comida, Comportamento e Afeto - Psicologia Bariátrica

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Muito se discute se existe o tal Pensar Magro. Se é possível adquirir pensamentos, que desencadeiam emoções e posteriormente ações positivas/negativas sobre os comportamentos que levam uma pessoa a se tornar obesa.

Podemos partir de hábitos, certo? Utilizar a definição de hábitos saudáveis, ou não, para ao menos enxergar a ponta do iceberg que se encontra a manifestação da obesidade. Quando se fala de hábitos a tendência é se focar na definição prática. Na ação do comportamento propriamente dito.

Mas, devemos nos atentar para os hábitos cognitivos também. São eles que assumem a torre de controle do comportamento.

Deleuze, aponta que hábito é a repetição e, além disso, não só o repetir mas, o contemplar. Ou seja, contemplação é a ação não automática, é o investimento que o sujeito faz a partir de uma construção cognitiva. O pensamento do Deleuze esbarra nos hábitos que não são mais contemplados, nos quais coloca-se tudo no automático, confundindo até mesmo com instinto, prazer, culpa e todo esse emaranhado que se encontra o obeso.

Gilles Deleuze foi um filósofo francês que viveu entre 1925 e 1995. Introduziu o conceito de Rizoma, termo emprestado da botânica, observando plantas cujo brotos podem ramificar-se em qualquer ponto. Ou seja, para se compreender a estrutura como um todo (a estrutura cognitiva) deve-se analisar onde cada ponto tomou novo rumo na ramificação.

Um pensamento estrutura o outro, faz base e apoio. Que por sua vez dá origem a novos pensamentos que moldam personalidade, ações, decisões, hábitos. Enfim, “fazem” uma pessoa. Portanto não é um produto linear em que isso gera aquilo, mas sim, um produto da experiência emocional.

Os hábitos são adquiridos e aprendidos a partir, talvez, da infância. Digo aos pacientes que nos relacionamos com a comida e esse relacionamento entra em crise quando o comer se torna uma enfermidade. Em quase todos os casos, segundo minha própria experiência como ex obeso e psicólogo, são enfermidades físicas e emocionais associadas.

O aprendizado deste relacionamento exigirá uma investigação bastante minuciosa por parte do profissional.

Uma investigação que precisará partir da compreensão das primeiras experiências lembradas com a comida: os hábitos cognitivos advindos de emoções negativas, a forma que se estruturou o pensamento a partir dessas experiências, a forma que o meio responde, as construções das escolhas... talvez esse seja o mapa de investigação do profissional.

Prontos? Vamos lá!

Aspectos que precisam ser considerados

O núcleo familiar talvez seja o primeiro foco da investigação. Sempre começo a primeira sessão com levantamento de compreensão de como se dá essa relação. Percebo que o obeso tem uma questão familiar afetiva com a comida. No que tange prazer e desprazer, os excessos em suma estão nessa raiz aí.

Tenho descoberto ao longo do tempo dedicado ao atendimento de obesos e ex obesos, que a forma como o sujeito foi “ensinado” a comer irá conduzir toda uma vida diante do prato.

Muitas crianças não são ensinadas nem mesmo a reconhecer a diferença entre fome e vontade de comer. A equipe multiprofissional precisa compreender isso e que o tratamento eficaz não se dá apenas com cirurgia e reeducação alimentar. Essa é a intervenção para aplacar um mal instantâneo.

Veja bem, isso não é uma crítica a cirurgia e a reeducação, mas é uma observação de que há mais coisas para contribuir com a caminhada contínua e sem retornos.

Há de se considerar uma reeducação comportamental, emocional e principalmente cognitiva. Talvez aí podemos concordar com a Judith Beck, autora do livro Pensar Magro, que de fato existe um Pensar Obeso e que é necessário identificar todas as raízes incrustadas no paciente e auxiliá-lo a arrancar uma por uma, até encontrar o prazer de comer, de saborear e de se levantar da mesa sem a angústia do excesso.

A investigação de onde se dá a instalação do comportamento hiperfágico deverá ser o primeiro passo do investigador psicólogo. Hiperfagia, segundo o dicionário médico CCM, é o aumento anormal do apetite ou ingestão excessiva de alimentos.

A hiperfagia se manifesta da seguinte forma:

  • Ingestão de alimentos em contínuo diversos e variados, sem preferência particular;
  • Uma vontade de comer os alimentos calóricos até mesmo um pacote ou caixa inteiros;
  • Um estado extremo de nervoso;
  • Um leve ou grande sobrepeso;
  • Aumento repentino de peso;
  • Um aumento da taxa de colesterol de acordo com os alimentos ingeridos;
  • Riscos de diabetes;
  • Mal-estar;
  • Dores abdominais sem causa aparente.

A criança não conhece seus próprios limites, não compreende causa e consequência, tampouco consegue saber a diferença entre fome e vontade de comer. Para a criança o mundo existe e deve ser a partir de suas vontades mais primitivas. Se pensa, quer. Não domina o querer.

E a resposta do adulto a esse querer é associada ao afeto que se recebe. Os próprios pais associam a negativa da solicitação das crianças como falta de afeto, ou crueldade. Imagina que pais cruéis não dariam comida para uma criança que afirma estar com fome, quando na verdade apenas teve uma vontade repentina de comer fora de horário.

Se a criança não for ensinada a diferença entre um e outro, e tendo como resposta ao estímulo a manifestação da vontade a liberação da comida fora do horário, logo a hiperfagia começa a se tornar uma característica da criança.

Um caso de Hiperfagia

Posso dividir um pouco da minha experiência clínica com vocês?

Carlos, (nome fictício) disse que seus pais tiveram uma infância muito simples, de escassez muitas vezes. Conta que seu pai, apesar das dificuldades, nunca passou fome, já sua mãe sim. Sua mãe relata que houve dias em que não havia nada para comer e precisava contar com a incerteza do dia seguinte, e essa experiência impactou na forma como ela educou os filhos diante da mesa.

Seus pais casados e trabalhando, e já com filhos, não deixavam a geladeira vazia. Estava sempre cheia de guloseimas muito convidativas para crianças. Não havendo horários para se alimentar. Suas irmãs e ele não precisavam de nada mais que a vontade para lançar mão de algo e comer.

Resultado: Todos acima do peso durante um certo tempo. Negar comida para os filhos era algo cruel demais para ser feito por uma pessoa que passou fome na infância.

O paciente em preparo pré-cirúrgico provavelmente não estará disposto a identificar o diagnóstico, como o de hiperfagia por exemplo. Nem investigar se a questão é orgânica ou emocional, se a resposta está na infância ou não, pois já decidiu pela solução através da cirurgia.

Ainda assim, se deve evidenciar a importância dos diagnósticos para que lhe traga a consciência o processo embrionário da instalação da obesidade. Dominando o processo que lhe causou a doença pode elaborar em conjunto com o psicoterapeuta um plano de ação comportamental e cognitivo para estabelecer o Pensar Magro.

O psicoterapeuta será o guia dessa viagem no tempo, no sentido de levar o paciente a sair da superfície da questão.

Mostrar que a obesidade é a manifestação de um processo cognitivo aprendido a sua vida toda, e que para que haja uma modificação completa precisará não ignorar nenhuma das crenças mantidas até ali. Todo pensamento sobre si mesmo, sobre a comida, sobre recompensa, sobre afeto, sobre núcleo familiar, sobre fome, sobre vontade de comer, sobre exercícios físicos, sobre estética, sobre relacionamentos amorosos, amizades.

Tudo deverá ser verificado pelo profissional.

A obesidade, a psicologia e a cirurgia bariátrica são temas que pouco tem se priorizado o interesse em conjunto. Mas, certamente em nossas práticas clínicas, como profissionais da saúde emocional e psíquica, nos depararemos com questões desencadeadas pela obesidade.

A tríade pensamento, emoção, comportamento obeso, não fundamentalmente nesta ordem, será o fio condutor em pacientes obesos, no pré e pós cirurgia bariátrica, com transtornos alimentares, de imagem, questões relacionais, autoestima, etc.

Sabemos que o número de obesos no mundo triplicou.

Se por um lado temos uma população mais preocupada e consciente com as questões de saúde, observamos um aumento na procura de pessoas por hábitos saudáveis, desejo esse ligado também a questões estéticas, por outro nos deparamos com uma população cada vez mais obesa. O aumento entre crianças e adultos chegou a 50% na última década.

É uma epidemia.

A obesidade era considerada uma doença de países desenvolvidos. Hoje os países subdesenvolvidos já alardeiam em números o tamanho cada vez maior em sua população obesa. No Brasil mais da metade da população está acima do peso, e desse número boa parte sofre em decorrência de doenças correlacionadas a obesidade, tais como doenças cardíacas, hipertensão, doenças hepáticas, câncer, diabetes, etc.

O paciente chega na clínica psicológica com questões específicas a partir da condição de obesidade. E o psicólogo precisa estar atento as manifestações emocionais a partir dessa condição.

Os números nos preparam para essa realidade, mesmo que seu foco não seja pacientes obesos ou em processo para a cirurgia bariátrica, se atentar para essa realidade mundial é se importar com a questão do paciente.

É enxergá-lo!

Manifestações psicológicas da obesidade

Quem procura a cirurgia bariátrica certamente já enfrentou alguma situação ou questão limitadora.

Se não foi por comorbidades tais como as citadas, foi por questões de uma sociedade que estigmatiza e marginaliza o obeso. Os pacientes apontam experiências em que sofreram algum tipo de desvantagem por ser obeso. Em entrevistas de trabalho, em uma promoção que exigia estética ou habilidades físicas especificas, em um relacionamento amoroso.

O obeso é estigmatizado como limitado, pouco ágil, o que faz com que suas oportunidades e experiências fiquem também limitadas. Não é preciso apontar que isso é gerador de angústia, de baixa autoestima e muitas vezes desencadeador de depressão.

Há uma infantilização deste por parte das pessoas, o que provoca a resposta consonante  por parte do obeso. Estímulo-Resposta. Apresentam-se manifestações de dependência emocional, comportamentos passivos, agressividade velada, forte crítica aos outros.  Campos (1993) identificou algumas características em adultos obesos que vem de encontro a minha observação prática.

Foram observados comportamentos em obesos por hiperfagia: passividade e submissão, preocupação excessiva com comida, ingestão compulsiva de alimentos e drogas, dependência e infantilização, primitivismo, não aceitação do esquema corporal, temor de não ser aceito ou amado, indicadores de dificuldades de adaptação social, bloqueio da agressividade, dificuldade para absorver frustração, desamparo, insegurança, intolerância e culpa.

O obeso se submete à relacionamentos abusivos por considerar que, se impor limites, talvez perca aquele relacionamento. Cria-se uma dependência emocional e uma submissão, crença que o outro não deve ser confrontado por temor de ser abandonado, inclusive no que tange amizades.

Em um dos atendimentos o paciente relatou que percebia algumas aproximações de amigos por conta de ser o único a ter carro e que chegando no destino, nas festas que iam, era deixado de lado. Não conseguia confrontar seus amigos, nem mesmo dar um basta na situação causadora de angústia. A crença era que a partir do momento que não pudesse oferecer a vantagem da carona, não lhe sobrariam amigos.

O temor era do abandono.

Temor que fazia com que permanecesse respondendo às solicitações mesmo que isso lhe causasse emoções negativas sobre si mesmo. Percebeu que isso estava lhe causando prejuízos tanto financeiros, quanto emocionais. Estava até mesmo passando a deixar de seguir alguns planejamentos pessoais, algumas atividades no meio da semana para levar ou buscar esse ou aquele e, que não tinha nem auxílio financeiro. Ainda assim não conseguia se posicionar.

Esse comportamento e sentimento se estende a outras relações. No campo amoroso tende a se colocar como alguém excessivamente à disposição, criando redes de relacionamento abusivos com pessoas que observam esse traço e buscam obter vantagens.

A grande questão nos atendimentos

A obesidade como falado anteriormente no texto é a manifestação de um processo cognitivo. Essa é a grande questão nos atendimentos psicológicos a obesos.

Trazer isso a luz diante do paciente, fazê-lo investigar junto, analisar as pistas que revelem suas crenças, torná-lo protagonista do processo, é o grande pulo do gato.

Ele precisa entrar em contato com sua primitividade, para compreender que aquele “Pensar Obeso” não é algo DELE, não é um estabelecimento existencial imutável, mas que há ferramentas de reestruturação comportamental que só terão efeitos práticos se a investigação emocional for permitida dentro do consultório psicológico.

No texto pincelo algumas dessas pistas:

  • Investigação do aprender a comer;
  • Investigação da hiperfagia;
  • Investigação de como enxerga sua condição obesa;
  • Investigação se associa afeto a comida;
  • Investigação de dependências emocionais.

E apesar de me focar nos termos da Terapia Cognitivo Comportamental que é minha prática clínica, a investigação independe da abordagem, claro, cada abordagem terá suas ferramentas específicas para isso.

Trazendo a brasa pra minha sardinha, eu encontrei na TCC a abordagem que mais me ferramentaliza para atender e entender o processo do pensamento obeso como um todo, e mais, ao fazer o remodelamento/reeducação do comportamento do paciente, trazendo resultados mais rápidos para esse processo que é tão drástico, como uma cirurgia bariátrica por exemplo, em que o tempo é curto de um processo de um “Pensar Obeso” para um “Pensar Magro”.

Processando as informações

Pessoas são produtos de hábitos. Repetições emocionais/cognitivas de visão das experiências, sendo negativas ou positivas. A estruturação da rizoma está dada, e são cada uma das ramificações que irá apontar a compreensão de como se deu esse produto.

Não raro a questão está inexorável na infância onde se iniciam as ramificações. Após estruturada, o paciente raramente irá reestruturar a experiência, refazer o norte da ramificação e transformar em outro produto. Imagina o pensamento solidificado, ligado à uma obviedade criada para dar suporte e conforto, e por fim colocado no automático.

É nesse esquema que o psicoterapeuta encontra o trabalho terapêutico. Trazer a luz, tirar do automático, fazer repensar, rever, reviver, reestruturar.

O paciente em sua frente é um produto de hábitos mentais a partir de experiências. Não é uma definição simplória. É uma estrutura complexa. E complexa por se tratar do subjetivo, do singular, do particular, do não duplicado. Se ele chega com a questão bem na superfície, dado a dor destas experiências, o caminho é aprofundar, resgatar e trazer à tona.

Cabe ao psicoterapeuta dar vazão para que o paciente compreenda esses aspectos da complexidade de sua estrutura.

É importante ensinar ao paciente primeiramente sobre o que é psicoterapia.

Sim, isso é extremamente importante.

Se ele não entende como se dá o processo é bem possível que ele não consiga nem compreender as intervenções e exercícios propostos. O famoso esquema de não apenas ensinar, mas, ensinar a como aprender. Só assim a relação psicoterápica será catalisadora das mudanças necessárias para o repensar-se, refazer-se daquele que sofre diante da mesa e com suas consequências.

Psicólogo Douglas Amorim

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