Já repararam que cada hora nos dizem uma coisa? Afinal, é ou não para tomar uma taça de vinho diária?
Diferente do que comumente se sente, o álcool é uma substância inibidora do sistema nervoso central, ao invés de excitatória.
Ele tem preferência por moléculas que contém receptores para GABA, considerado o neurotransmissor mais inibitório que possuímos. Neurônios que contém GABA estão distribuídos no cérebro e agem inibindo a atividade de outros neurônios. Quando ativados pelo álcool, aumentam seu papel inibidor.
Vou listar, para fins de exemplo, três interpretações desse efeito comportamental do álcool:
1) A teoria da desinibição, onde primeiro o álcool começa a inibir nossas funções corticais superiores, em especial a circuitaria frontal, responsável pelas nossas funções executivas (habilidades de inibir comportamentos, fazer julgamentos e raciocínios mais precisos, entre outras) e preserva em um primeiro momento as estruturas mais sub-corticais, responsáveis por comportamentos mais primitivos.
2) A teoria de que na verdade os efeitos do álcool são comportamentos aprendidos pela cultura, grupo, e contexto em que se está inserido.
3) A teoria de que o álcool provoca um tipo de miopia alcoólica, onde pessoas sobre a influência dessa substância tendem a responder de maneira restrita por observarem apenas algumas dicas ambientais mais nítidas e ignorar as dicas mais sutis e remotas na autorregulação comportamental.
Apesar das interpretações possíveis, fato é que o álcool como toda substância psicoativa, apresenta efeitos neuronais intoxicantes que podem resultar em morte neural e redução da neurogênese (formação de novos neurônios). Mas ai vem uma reportagem e nos diz: “Tomar uma taça de vinho por dia faz bem ao cérebro e ao envelhecimento cerebral”.
Será?
Primeiro temos uma dificuldade em equivaler os diferentes estudos porque variam na inclusão do tipo de bebida (só vinho ou qualquer bebida alcoólica) e a quantidade aceitável por dia para ser “benéfica” ou “prejudicial” (um copo, uma garrafa, duas...). E aí?
Os estudos que encontram efeitos benéficos do consumo alcoólico, só o encontram com a ingestão de vinho e praticamente nenhuma outra bebida alcoólica. Certamente nesse ponto vocês estão se questionando o mesmo que eu: mas se fosse o efeito álcool não deveríamos ver o mesmo benefício em qualquer bebida?
Exato!
Isso nos leva a verificar que em maioria os estudos tendem a encontrar mais efeitos deletérios que benéficos do consumo regular do álcool (Isso sem considerar o uso abusivo, ok?). E que talvez o segredo esteja nas uvas e não no álcool.
Uvas possuem substâncias antioxidantes que são já conhecidas por serem benéficas ao cérebro. Assim como as uvas, o grupo das berries (morango, amora, mirtilo, entre outras) também são ricas nessas substâncias e tem sido associadas a uma melhor manutenção cerebral quando consumidas com frequência na dieta.
Chegamos então a uma segunda pergunta: vale a pena adicionar o álcool para se ter o efeito que pode ser só da uva?
Recentemente alguns estudos tem verificado o impacto do álcool em não só acelerar processos inflamatórios no corpo, bem como aumentarem o risco de consumo abusivo e suas consequências altamente impactantes tanto corpóreas, psicológicas e sociais.
Adolescentes de países onde idade mínima de consumo legalizado é após os 21 anos tendem a apresentar um consumo menos intenso, menores taxas de dependência da substância e menor taxa de mortalidade a longo prazo da vida por fatores relacionados a ingestão (desde físicos a envolvimento em acidentes automobilísticos, por exemplo).
Visto tudo isso, o brinde à saúde é mesmo um brinde?
Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com