Neste vídeo, Laiss apresenta o que é, para que serve e quais principais formas de utilização da avaliação neuropsicológica. Se ficar com alguma dúvida ou quiser conversar mais sobre o tema, pode deixar seu comentário!
Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com
Olá, hoje a gente vai falar sobre avaliação neuropsicológica, o que é, para que que é, o que que a gente tira dela, para que que a gente usa ela e, principalmente, quais são suas estruturas e quais são os detalhes que a gente tem que prestar atenção. Vamos lá?
A avaliação neuropsicológica é uma das formas de atuação do profissional dentro da área da neuropsicologia. Ela serve, basicamente, para a gente avaliar, de uma forma objetiva, tanto quantitativa quanto qualitativa, os aspectos da cognição e do comportamento, ou seja, se eu quero ver como a memória desse paciente funciona, eu preciso, sabe, realmente observar essa memória em funcionamento, seja, muitas vezes, de forma qualitativa no ambiente da clínica, seja de forma quantitativa, simulando o funcionamento da memória através de tarefas cognitivas específicas.
É importante que a gente tenha conhecimento das bases neurobiológicas da cognição e do comportamento, porque, basicamente, quando a gente faz essa, a gente precisa desse entendimento da relação entre o cérebro e os processos cognitivos e comportamentais, entender quais são as bases desses processos, permite que a gente tenha uma maior noção de pacientes que já chegam com problemas neurológicos, ou de pacientes que têm determinados perfis ou manifestações cognitivas, e o que a gente pode esperar, além das queixas deles quando eles trazem um primeiro relato. Bom, segundo ponto, quem faz a avaliação? Quem são as pessoas que fazem? Bom, quem faz do lado do avaliador, no caso, somos nós, psicólogos, neuropsicólogos, que recebem as pessoas para fazer a avaliação neuropsicológica por algum motivo. Do ponto de vista do paciente ou do cliente, de quem procura, pode-se fazer avaliação de crianças desde agora do estágio mais pré-escolar até idosos, muito idosos.
O motivo que gera a solicitação desse público é bastante variado. Então, normalmente, o que a gente recebe são pessoas para fazer a avaliação neuropsicológica porque algum outro serviço, ou a própria pessoa, suspeita de que o seu funcionamento cerebral não está intacto como deveria, ou começou a não funcionar da forma como sempre funcionou e que a pessoa está acostumada. Então é muito interessante a gente observar que surgem questões, por exemplo, para serem avaliadas relacionadas a dificuldades de aprendizagem, então essa criança já deveria ter, de certa forma, adquirido esse grau de habilidades acadêmicas e ela não adquiriu, tem alguma coisa cognitiva que justifique a não aquisição desse conhecimento.
Um idoso que observa que a memória está piorando ao longo do tempo e ele percebe que esses esquecimentos deixaram de ser esquecimentos usuais, pouco importantes e passaram a impactar a vida dele, então ele está perdendo a habilidade de gerenciar a própria vida por causa desses esquecimentos. Isso são motivos, por exemplo, tradicionais, que acabam trazendo as pessoas para fazer essa avaliação. Então o que elas querem desse público, por isso o público é bastante variado, desde crianças a idosos, porque depende do que precisa ser investigado.
Tem pacientes que vem especificamente pela decorrência de algum quadro neurológico, um acidente muscular encefálico, um traumatismo canencefálico e aí eles precisam ver quais são os prejuízos, os déficits gerados desses eventos. Tem pessoas que vêm porque possuem algum quadro psiquiátrico e aí querem identificar em que grau o quadro psiquiátrico tem de certa forma afetado também o funcionamento cognitivo para que essa pessoa possa gerir a própria vida. Então existe uma série de solicitações diversas que podem acontecer.
Bom, terceiro ponto, o que a gente quer com a avaliação neuropsicológica? Bom, a gente já teve alguns posts e falamos um pouco sobre a neuropsicologia, se essa área da psicologia de certa forma, mesmo que muito disciplinar, que acaba querendo saber como a gente funciona cognitivamente e comportamentalmente e essas relações com o cérebro, com o órgão em funcionamento. O que a gente quer com a avaliação neuropsicológica é justamente traçar o funcionamento dessa pessoa de acordo com as hipóteses que foram levantadas. Então as pessoas vêm para um processo de avaliação neuropsicológica de acordo com a entrevista, são levantadas hipóteses diversas e essas hipóteses acabam permitindo que a gente faça uma seleção de tarefas.
O importante é que no final a minha avaliação seja capaz de me oferecer informações sobre a cognição e o comportamento da pessoa que fez a avaliação. Então o que eu quero no final dessa avaliação é saber como essa pessoa funciona cognitivamente, como ela funciona mentalmente nesses aspectos cognitivos mais complexos. Então basicamente eu vou entender como ela funciona em questões desde a inteligência, a memória, as funções executivas, a atenção, a velocidade de processamento, entre outros domínios que forem importantes caso a caso.
Então independente da nossa habilidade de conseguir ou não identificar um perfil perfeito de algum quadro neurológico ou psiquiátrico que normalmente a gente acontece, a gente acha, então a pessoa vem com uma queixa, por exemplo, de um Alzheimer e aí quando a gente faz a avaliação ela realmente encaixa no perfil que a gente acredita ser, o que a gente conhece hoje, do que seria uma pessoa com uma demência de Alzheimer. Mesmo que as pessoas não encaixem nesse perfil de acordo com as hipóteses, a avaliação é extremamente importante para fornecer para a gente informações sobre como essa pessoa funciona, até porque o funcionamento cognitivo e comportamental dela pode sinalizar alguma dificuldade que acaba afetando na independência diária e isso é extremamente importante para as pessoas. Então mesmo que a gente não feche um perfil claro de nenhum quadro, é extremamente importante que a gente veja e descreva para a pessoa como ela tem funcionado, porque mesmo que aquilo não encaixe em nenhum quadro, aquela avaliação ainda se oferece para as pessoas, para os clientes, para os pacientes, informações sobre como eles processam as atividades mentais deles.
Então isso, de certa forma, é uma coisa que não deve ser descartada. A avaliação não serve para nada se eu não achei um perfil cognitivo específico. Não, ela sempre vai servir, nem que seja para vocês oferecerem uma linha de base.
Então essa pessoa, se ela não achou nada, hoje ela sabe que ela funciona dessa forma intacta e se ela precisar mais para frente, ela vai ter informações de como ela funcionava no passado, o que é extremamente válido e importante. E se forem encontradas dificuldades pontuais, que essa pessoa tenha ciência de que elas existem e o que pode ser feito para remediar ou para contornar essas dificuldades. Então, no quarto ponto, a gente vai ver agora como a gente estrutura esse processo da avaliação neuropsicológica.
Bom, a estruturação da avaliação neuropsicológica, ela começa, antes de mais nada, com uma entrevista ou uma anamnese, uma entrevista clínica. Então a primeira coisa que a gente quer saber na entrevista é o levantamento de informações clínicas a respeito dessa pessoa, a respeito das queixas que trouxeram ela para a avaliação e a respeito dos estados de saúde, de outros tratamentos, de tudo que ela já possa ter feito que possa influenciar o funcionamento mental, os processos do cérebro. Ou seja, a gente levanta históricos, tanto psiquiátricos quanto neurológicos, levanta informações a respeito de condições médicas que, de certa forma, impactam o funcionamento cerebral e levanta informações sobre medicamentos que podem impactar o funcionamento cerebral, entre outros aspectos, além de deixar bastante claro no final dessa entrevista, dessa anamnese, como começaram os sintomas, como eles têm se apresentado, quais são as queixas cognitivas e comportamentais que aparecem antes de mais nada.
Então isso é uma coisa que é extremamente importante, porque é daí, desse levantamento de informações, que eu vou levantar o que a gente chama das minhas hipóteses. Então a avaliação, ela vem para testar as hipóteses do avaliador, ou seja, a pessoa me descreveu um quadro clínico da qual ela não necessariamente sabe qual é, certo? Ela está me descrevendo os sintomas e aí cabe a mim, de acordo com a ocorrência dos sintomas, como eles aparecem, como eles se manifestam, como eles progridem ou não, determinar quais são os possíveis quadros que a gente vai trabalhar, qual são os quadros que a gente vai testar e, principalmente, saber que se ela está me dizendo daquele sintoma, aquele sintoma é memória episódica, ou é memória semântica, ou é linguagem, ou são funções executivas. Saber fazer esse discernimento de uma forma técnica é importante para que a gente levante essas hipóteses e só com essas hipóteses levantadas a gente faz a seleção dos instrumentos.
Então, uma vez feita essa entrevista e o levantamento das hipóteses, aí a gente seleciona para essa pessoa, de acordo com a idade, a escolaridade e as hipóteses que foram levantadas, quais são os instrumentos neuropsicológicos e psicológicos que a gente vai utilizar para avaliar o funcionamento cognitivo e mental dessa pessoa. Então, quando a gente vai lá, a gente começa, antes de mais nada, com essa primeira entrevista, no processo de avaliação. Depois que a gente faz esse processo, aí a gente entra, já tem as hipóteses, a seleção dos meus instrumentos, aí eu começo oficialmente o mecanismo de avaliação de forma mais quantitativa e qualitativa.
Então, nesse momento, eu já vou aplicar as tarefas cognitivas e neuropsicológicas, vou aplicar nessas pessoas esses testes que simulam o desempenho cognitivo que elas deveriam apresentar dos vários domínios que eu tiver selecionado, que precisam ser avaliados em cada caso. E depois que eu obter os resultados dos desempenhos nessas sessões de avaliação, aí eu vou fazendo, ao mesmo tempo, depois de uma sessão para outra, a correção. E depois, a correção quantitativa desses valores para saber se essa pessoa se encontra dentro da curva da normalidade ou não, se é um desempenho que está dentro do que seria esperado para a idade, para a escolaridade dela, ou se é um desempenho que está acima do que a gente esperaria, se é um desempenho que está abaixo do que a gente esperaria, se realmente sinalizaria o déficit ou sinalizaria um benefício, como assim dizer, um ganho cognitivo maior.
Feito esse processo de interpretação quantitativa, a gente vai para esses processos de interpretação qualitativa, então o que isso quer dizer? Então o que quer dizer um desempenho de memória episódica abaixo do que seria esperado para a idade, para a escolaridade dessa pessoa? O que seria um desempenho de atenção abaixo do esperado para a idade, para a escolaridade dessa pessoa? O que isso vai refletir cognitivamente? O que isso quer dizer em conjunto quando a gente observa o desempenho mental de vários domínios cognitivos ao mesmo tempo? Quando a gente tem essas informações quantitativas, qualitativas, a gente produz o relatório, então a gente faz um relatório dessa avaliação que a pessoa vai ter por escrito todas essas informações, ela vai ter registrado essas informações que vão trazer desde o levantamento da anamnese, das informações clínicas da entrevista, ao processo do que foi selecionado para ser avaliado, os instrumentos que foram avaliados, o desempenho dessa pessoa nos instrumentos, se isso é interpretado de forma qualitativa dentro ou fora do esperado, a apresentação dos valores que ela obteve, o que isso quer dizer em comparação com as populações, e aí a gente chega numa síntese final, onde a gente tem que dizer o que isso tudo em conjunto significa. Esse todo em conjunto é extremamente importante porque é daí que saem, por exemplo, as conclusões que a pessoa tem para tirar dúvidas, se ela tem dificuldade de atenção, se você encontrou ou não uma dificuldade de atenção e o que isso quer dizer. Se a pessoa veio para procurar por causa de esquecimentos ou alterações da linguagem, se você encontrou ou não e o que isso quer dizer.
E aí uma vez que esse relatório está pronto, claro, e vocês fizeram se ocorrer, se essa pessoa faz atendimentos com outras áreas da saúde ou da educação, é importante que vocês se comuniquem durante esse período para o levantamento de mais informações a respeito, das intervenções que são feitas, da evolução dessa pessoa nessas intervenções, ou a percepção clínica de outros aspectos, como se as avaliações vêm dos médicos, saber se outros aspectos clínicos estão controlados, se eles não estão adicionando fatores confundidores para a avaliação. E aí quando a gente termina esse relatório, é ideal que a gente entregue para o paciente, para os seus familiares, para quem acompanha essa pessoa no processo de avaliação, a revolutiva do que foi encontrado, ou seja, é entregar para essa pessoa e explicar para ela o que foi obtido nesse processo avaliativo. Se foram identificados determinadas forças ou fraquezas cognitivas, que isso fique claro para eles, para que isso aponte direções para o que é preciso fazer a partir de agora, se é preciso fazer reabilitações ou intervenções dentro da área cognitiva, se é preciso fazer intervenções ou tratamentos com outros profissionais da saúde, principalmente farmacológicos e não farmacológicos, dependendo do aparecimento dos sintomas.
E aí o encaminhamento desse paciente para outros profissionais pode ser necessário, e em especial geralmente esses pacientes retornam para quem fez a solicitação inicial. E aí esse retorno para a solicitação inicial, ele também é importante, porque se ele veio para a gente fazer um diagnóstico diferencial, saber precisamente se existem ou não essas dificuldades cognitivas que são importantes para fechar um diagnóstico de algum quadro, geralmente com um recebimento dos relatórios os médicos conseguem definir com mais clareza qual é o quadro clínico que eles estão avaliando como um todo e não só. A avaliação serve também como um exame de auxílio para fechamento de diagnóstico e para pensamento de possibilidades de tratamento e intervenções disponíveis.
Então mais para frente a gente vai conversar sobre outros pontos específicos da avaliação e eu espero você que goste desse vídeo. Tchau, tchau!