Que esporte faz bem pra saúde nós já sabemos. O legal é que a cada novo estudo descobrem mais e mais possibilidades de benefícios não só relacionadas ao bem estar físico, mas também ao funcionamento cerebral e suas consequências.
A atividade física, em especial as que proporcionam o ganho aeróbico, aumentam e melhoram o funcionamento vascular e circulação de oxigênio em nosso cérebro. Benefícios que auxiliam no melhor funcionamento global desse órgão, e auxilia na redução de fatores de risco, tais como acidente vascular encefálico e outros quadros vasculares do sistema nervoso central.
O interessante é notar que essa melhora de funcionamento não se reduz apenas ao condicionamento vascular cerebral e a disposição de oxigênio.
Entram em jogo agora também questões relacionadas a neurogênese (formação de novos neurônios) e regiões cerebrais que são mais ou menos afetadas pela prática da atividade física.
Apesar de ainda termos estudos com resultados controversos nesse meio, a maioria aponta para um benefício cognitivo da prática de atividade física. No entanto, não parece ser um benefício cognitivo global, ou seja, não é uma melhora ampla em todos os domínios cognitivos que temos.
Algumas práticas parecem melhorar mais alguns aspectos, mesmo que pontuais.
Exemplo: a dança parece trabalhar entre outras funções, as habilidades de orientação espacial e controle do movimento sincronizado no tempo e espaço, enquanto que o Taekwondo parece ser um esporte que melhora as funções executivas.
No entanto, parece que as atividades físicas tem preferência pelo sistema de memória.
Diferentes atividades como caminhada, corrida e ciclismo foram associadas a melhor desempenho das memórias de curto e longo prazo episódica.
Basicamente, esses estudos experimentam colocando um grupo de pessoas para realizar a prática durante algumas semanas e outras pessoas não fazem nada (ou seja, sedentarismo). Dessa forma comparam o desempenho cognitivo antes e depois da prática e, entre o grupos. Alguns estudos incluem também o imageamento cerebral, sendo possível verificar se os padrões de ativação cerebral mudam com a realização da atividade física.
O hipocampo é uma região cerebral com relativa boa ocorrência de neurogênese e parece se beneficiar da pratica de atividade física para aumentar sua formação de novos neurônios. O hipocampo é também a região cerebral mais relacionada a formação e codificação de novas memórias. Dessa forma, já podemos pensar ai em uma conexão.
Durante um período chegou-se a acreditar que a prática de atividade física fosse, na verdade, deletéria para as memórias. Hoje sabemos que não. Na verdade ela mais beneficia do que tem chances de gerar resultados negativos não esperados.
Isso é tão interessante que um estudo recente verificou que após a realização de leitura e exposição a conteúdos que precisam ser aprendidos, o exercício pode potencializar o armazenamento dessas informações.
Os pesquisadores observaram que a prática de ciclismo por aproximadamente 35 minutos 4 horas após a exposição ao conteúdo, permitiu aos participantes uma maior taxa de recordação das informações apresentadas do que os participantes que não praticaram nenhuma atividade física depois.
Os pesquisadores acreditam que isso pode estar relacionado a produção de neurotransmissores relacionados ao processo da consolidação de memórias e que tem sua produção impulsionada pela prática de exercícios físicos.
Sabendo que a prática de atividade física parece promover a neurogênese no hipocampo e estimular a produção de neurotransmissores que auxiliam na formação de novas memórias, que tal esperar dar 4 horas a partir de agora e praticar algo para não esquecer o que acabou de ler?
Referências
Kodali, T. Megahed, V. Mishra, B. Shuai, B. Hattiangady, A. K. Shetty. Voluntary Running Exercise-Mediated Enhanced Neurogenesis Does Not Obliterate Retrograde Spatial Memory. Journal of Neuroscience, 2016; 36 (31): 8112
van Dongen et al. Physical Exercise Performed Four Hours after Learning Improves Memory Retention and Increases Hippocampal Pattern Similarity during Retrieval. Current Biology, 2016 DOI: 10.1016/j.cub.2016.04.07
Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com