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Áreas de Atuação Neuropsicologia

A Amamentação e o Cérebro

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Dia 1º de agosto foi o Dia Mundial da Amamentação.

O mundo inteiro reconhece os benefícios que o aleitamento materno pode proporcionar ao bebê.

Entre os mais destacados benefícios encontramos melhor teor nutritivo, fornecimento de anticorpos fundamentais para a proteção do bebê, reduz mortalidade por doenças infecciosas e a presença de doenças respiratórias, e reduz a longo prazo a ocorrência nesses futuros adultos de hipertensão e doenças como diabetes.

Mas, o melhor disso tudo é que os benefícios da amamentação não ficam apenas nesses aspectos listados. O cérebro também é bastante beneficiado pela ocorrência da amamentação.

Antes disso...

O cérebro de um bebê ainda dentro da barriga está passando por um longo processo de organização neuronal.

Os neurônios seguem sinalizações para atingirem as regiões cerebrais aonde deverão permanecer para executarem seus papéis. Ao mesmo tempo, logo após o nascimento começam uma enxurrada de processos que envolvem a criação de novas sinapses entre as diferentes regiões cerebrais, permitindo um melhor funcionamento delas e da comunicação necessária.

Dessa forma, nos primeiros seis meses (tempo médio mínimo sugerido para a amamentação), temos o pico do desenvolvimento de sinapses para as regiões cerebrais que processam a audição, visão, e a linguagem (fala e compreensão).  

Mesmo que o bebê nessa idade ainda não esboce essas habilidades com precisão, o cérebro dele está em pleno vapor nesse estabelecimento de conexões neuronais.

Logo mais adiante, por volta dos 12 meses, temos o pico de sinaptogênese de regiões cerebrais que são usadas para realização de funções cognitivas complexas e de alto nível, tais como raciocínio abstrato, resolução de problemas, entre outras.

E a amamentação?

Agora que já entendemos um pouco do que acontece no cérebro no primeiro ano de vida, o que o aleitamento materno tem a oferecer nesse meio?

Tudo começa nos nutrientes que o leite materno possui.

O leite materno é rico em substância que compõe o grupo dos ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa, que influenciam uma série de processos celulares e fisiológicos, incluindo o crescimento e sinalização de neurônios, principalmente os que compõe o córtex cerebral (centro das funções mentais mais complexas).

Se pegarmos um cérebro em processo de maturação e desenvolvimento, como é o caso dos recém nascidos, e oferecer a eles mais nutrientes que possam permitir que esse neurodesenvolvimento aconteça com qualidade, o que temos é:

Melhor cérebro e mais chances de melhor cognição.

E é exatamente o que alguns estudos tem sugerido com crianças que nasceram a termo ou pré-maturas. O aleitamento materno tem sido correlacionado com melhores capacidades cognitivas tanto das funções executivas quanto a inteligência geral, o famoso QI.

Ou seja, crianças amamentadas expressam melhor habilidade cognitiva geral, sendo mais hábeis na resolução de problemas aprendidos e nunca antes visto, e no uso do conhecimento adquirido.

Mas, atenção!

Em nenhum momento se diz que crianças que não recebem aleitamento materno não terão boas habilidades cognitivas, ok? Claro que sabemos que nem todas as mães conseguem amamentar seus bebês por vários motivos que não listarei aqui.

O que ocorre nesses estudos que mensuram esses fatores é ver que mesmo que todas crianças participantes tenham um bom e esperado desenvolvimento intelectual, as que receberam aleitamento materno possuem um desempenho um pouco acima das que não receberam.

Interessante notar que os estudos buscam controlar outros fatores ditos confundidores, tais como nível socioeconômico da mãe/família e nível educacional da mãe. Esses aspectos tem sido relacionados diretamente ao desenvolvimento cognitivo de crianças a anos e, portanto, para dizermos que o leite materno contribui, é preciso que a influência desses outros pontos sejam descartadas.

Dessa forma o que hoje sabemos é que receber o leite materno nos primeiro meses de vida parece fornecer aos bebês uma maior nutrição que afeta diretamente o neurodesenvolvimento e a consequente manifestação de habilidades cognitivas quando crianças e adultos.

Sim! Alguns estudos conseguiram encontrar diferenças até em adultos, quando o desenvolvimento cerebral atinge o seu ápice.

Bom, sabendo que o leite materno possa ter mais esse fator de benefício aos filhos, pensando não só em nutrição e imunidade, mas também em cognição, temos mais um forte motivo para incentivar ainda mais o hábito da amamentação, não é?

Referências

Belfort, M. B., Anderson, P. J., Nowak, V. A., Lee, K. J., Molesworth, C., Thompson, D. K., . . . Inder, T. E. (2016). Breast Milk Feeding, Brain Development, and Neurocognitive Outcomes: A 7-Year Longitudinal Study in Infants Born at Less Than 30 Weeks' Gestation. The Journal of Pediatrics. doi:10.1016/j.jpeds.2016.06.045
Kramer, M. S. (2008). Breastfeeding and Child Cognitive Development. Archives of General Psychiatry, 65(5), 578. doi:10.1001/archpsyc.65.5.578

AUTORA

LAISS BERTOLA

Laiss Bertola é neuropsicóloga PhD, Especialista em Adultos e Idosos - laissbertola@gmail.com

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