Conhecemos a psicóloga Juliana Mendes, que trabalha com crianças e adolescentes na abordagem cognitivo-comportamental. Neste vídeo, vamos falar sobre regulação emocional, como acessar as crianças na realidade do consultório, como identificar e trabalhar com o que a criança sente, pensa e como se comporta.
weslleycarneiro@gmail.com - @wcarneiropsi
Psicólogo de formação
♂️Psicoterapeuta #ACT e #Mindfulness por paixão
Mineiro idealista e idealizador do @netmet.psi
Bom, pessoal, olá! Eu estou aqui, mais uma vez, dentro do CogniMundi para poder fazer o que a gente tem de mais novo e mais útil, né? Dentro da terapia cognitiva e das terapias contextuais. E hoje eu vim falar com vocês de crianças e adolescentes. Quem já acompanha um pouquinho o meu trabalho vai saber a minha dificuldade de lidar com esses pequenos humanos, né? Eu, particularmente, acho que a criança, quando chega do consultório, ela é igual a gente leva o carro no mecânico, né? Que é entregar e ver, olha, não sei, resolve e entrega.
Os pais fazem muito isso, então eu deixei para quem tem. E foi aí que eu trouxe aqui a Juliana Mendes. Conheci, tive o privilégio de conhecer, na minha própria cidade, aqui em Belo Horizonte, que ela é a idealizadora aqui do Integrar.
É um, me parece, um projeto bem legal que envolve não só a criança e o adolescente, mas a família como um todo. E hoje ela está aqui para poder falar um pouquinho para a gente sobre como é lidar com esses pequenos humanos aí. E os nem tão pequenos assim, né, Juliana? Isso, exatamente.
A gente trabalha com criança e os adolescentes também. Isso é muito importante. E é o seguinte, gente, eu cheguei num dia bem legal para conhecer a Juliana.
A gente acabou de sair de uma roda de conversa que falava um pouco de regulação emocional para crianças e adolescentes. Era uma sala que ela não estava só com psicólogos lá, né? Me parece que tinham educadores, tinham pais, com todas as suas aflições. E eu pude entender um pouquinho, né, como é que talvez esses pais se sintam, como é que os educadores se sentem.
E a Juliana parece que é uma excelente fonte para contar para a gente como que a TCC cabe na vida desses pequenos aí. Como é que a TCC pode ajudar essa flor? Então, as crianças, geralmente elas chegam no consultório com as emoções, a flor dá tempo. E a gente trabalha justamente a regulação emocional, né? Então, os pais trazem as crianças porque já não conseguem mais conversar com seus filhos, não conseguem entender o dia a dia, né? Adultos crescem e parece que esqueceram de como que se é criança.
Então, na verdade, a gente trabalha, primeira coisa, com os pais, entendendo o que os pais colocam como problemas, ou como se diz, problemas, probleminhas e problemonas. E aí, nessa linguagem, tanto os pais conseguem me dizer o que está incomodando um pouco, o que incomoda médio, o que incomoda muito. E aí, nessa entrevista, nesse acolhimento, a criança vem e a gente trabalha basicamente com acesso às emoções, né? A alegria, a tristeza, medo, nojo, raiva.
E aí, a gente trabalha com as crianças em todos os lugares que elas estão, né? Na escola, no futebol, e como que essas emoções aparecem, né? Se elas estão pra cima ou pra baixo, porque as emoções todos nós sentimos, elas precisam estar reguladas. E é isso que a gente trabalha com as crianças e com os pais dessas crianças. Regulando as emoções, dizendo quando é que a gente sente, o que é que a gente sente.
Então, basicamente, o acesso à criança é via as emoções, nesse sentido. Da forma como você escreveu, parecia muito aquele filme, Divertidamente. Exatamente.
Qual que é o link que a gente tem aí das duas coisas? Exatamente. A criança do filme, os pais tinham uma ilusão de que ela não podia sentir tristeza. E a tristeza é muito importante, porque é preciso ficar triste pra que a gente pare, pra gente refletir o que a gente está fazendo, o que está valendo a pena, né? Então, as crianças chegam aqui assim.
Os pais, ah, meu filho está muito triste, né? Quando vai ver, um cachorrinho morreu, um coleguinha se mudou. E, realmente, é um momento difícil. E a gente trabalha a regulação dessa tristeza.
Nem pra mais e nem pra menos. Não é uma depressão, mas é uma tristeza que dói, uma tristeza que incomoda. E, às vezes, os pais não sabem manejar.
Claro que existem os casos de crianças que já são deprimidas, que têm uma patologia. Mas, na maioria das vezes, são crianças que precisam ser entendidas nas suas emoções, na manifestação das emoções, na compreensão, na validação dessas emoções. Validação.
Foi uma palavra que eu escutei muito durante a roda de conversa. Validação e empatia. Qual é o papel dessas duas expressões quando a gente está falando do acompanhamento de criança e adolescente? Então, pra criança, é muito importante que ela perceba que o adulto é empático.
Se coloca no lugar T dela, da criança. Então, desde o terapeuta, até a professora da escola, até os pais, principalmente, o outro coleguinha. Então, empatia é isso.
Se colocar no lugar do outro. E a criança precisa disso. Ela precisa sentir que tem adultos que estão juntos dela.
E a validação é isso. Uma criança não é fraca porque ela sente medo. O medo, as emoções, elas são biologicamente sentidas.
Nós temos processamento da emoção em todo o nosso cérebro. Então, a criança sente medo como uma reação de que ela está correndo perigo, de que ela acha que algo é assustador. O que a gente trabalha é validando.
Entendo que você sente medo, medo do escuro. Eu, no seu lugar, ou na sua idade, eu também sentiria medo. Mas vamos ver o que há de real nesse medo.
O que é realmente perigoso? Então, isso é que é validar. Compreender, entender, se colocar no lugar da criança e buscar alternativas para que ela regule essa emoção. Buscando o que, de fato, é real.
Naquilo que ela está sentindo. Eu falo muito para a turma que me acompanha no canal da diferença de quando a gente lê a cartilha do TCC. Lê o livro base, quando a gente está falando de Beck, exatamente.
Com todos os protocolos, a conceitualização cognitiva. E todo aquele processo que ele é mais… Biformatado, se a gente pode dizer assim. Mas eu sempre falo para a turma que nem sempre a… A gente vai seguir o protocolo.
Que nem sempre a gente vai fazer conforme… Não vai funcionar se a gente se guiar nisso que é o papel. Porque precisa de ter a relação ali presente. Como que é isso para você? Como que você vê a TCC para crianças naquele formato mesmo e a realidade do computador? Como? Você pode compartilhar um pouquinho para a gente? Então, a criança, como eu digo, ela precisa ser acessada.
E a gente acessa a criança via brinquedo, via o jogo, via literatura infantil. E depois que a gente acessa a emoção, que a gente psicoeduca, o que são as emoções? Quais são as emoções básicas? E aí a criança sente que pode confiar na gente. Aí a gente começa a trabalhar os pensamentos que acompanham essas emoções.
E nós utilizamos um recurso muito legal que são os baralhos. Os baralhos da emoção, os baralhos do pensamento, os baralhos do comportamento. Então, a gente acessa as emoções.
A criança diz o que sente, o quanto sente, como sente, quando sente. E aí, à medida que a gente vai trabalhando essa questão das emoções, ela vai dizendo o que pensa quando sente cada emoção. E a gente começa a verificar que o comportamento passa a ser resultado disso que ela pensa, que ela pensa e que ela sente.
Nesse sentido, a gente acessa a criança. Nesse protocolo. Então, pessoal, pode ficar bem tranquilo pelo que eu entendi, acontece da mesma forma que a gente vê nos livros.
Só que não de uma maneira tão formatada. Tem emoção, tem pensamento, tem comportamento. É isso mesmo? Exatamente.
Só que a gente acessa via emoção. Porque a criança, quando ela diz o que passa pela sua cabeça, é muito formal para a criança. Ela consegue dizer o que ela sente.
E quando ela sente, o que ela pensa sobre o que ela sente. Eu junto com o que ela sente. Então, tem vários exemplos.
Uma criança chegou me contando que estava sentindo raiva da professora, porque ela tirou uma excelente nota na prova, mas a professora pegou a prova para corrigir. Ela disse, eu senti raiva da professora. Tudo bem? Você valida dizendo, é, a gente sente raiva.
Eu também senti raiva. Se uma professora me levasse a melhor nota para casa. E aí, eu disse, mas o que passou pela sua cabeça? Ela disse, a professora não gosta de mim.
E aí, nós fomos buscar a evidência, a validade disso. E nas próprias cartas dos baralhos dos pensamentos, tem essas palavrinhas, porém, portanto, logo, posso aceitar. Então, no final das contas, nós descobrimos, ele e eu também, que ela tinha recolhido a prova de todo mundo, que não era uma questão específica dele.
Então, assim, a gente pôde reestruturar o pensamento, a professora não gosta de mim. A emoção era raiva. Então, é mais ou menos isso.
Uma das partes mais legais que eu achei da roda de conversa, não vou saber explicar da forma que você explicou tão brilhantemente, mas quando a gente tem sempre aquele ímpeto de trazer uma solução para o pessoal, ou de tentar dar uma resposta pronta, ensinar a cartilha.
E aí, você colocou, eu vou ter que revisar o que eu notei, o que eu gravei, mas aquelas duas situações que a gente deve evitar quando a gente está respondendo a uma… a demanda que a criança apresenta. Quais são aqueles dois termos mesmo que a gente usa? A criança apresenta um caso, né? Se a gente descrever uma pregação, a gente diz, ah, entendo, parece que você está se sentindo triste, é isso? Ou a gente pergunta, ah, então, oh, eu sei, são expressões que a gente coloca para a criança para que ela dê continuidade no caso que ela precisa nos contar.
Basicamente, a gente não supor para ela uma emoção, a gente não inferir sobre o que ela está sentindo. E quando a gente inferir, baseado em uma pergunta, parece que você está com raiva, parece que você ficou triste, eu estou te observando, você está com medo? É medo que você está sentindo? Isso é validar, quando a gente pergunta para a criança o que ela sente, como ela se sente, isso é uma forma de validar, de empoderá-la. Ela começa a pensar assim, eu posso sentir todas as emoções, eu não sou feio ou ruim porque eu sinto raiva, eu não sou fraco porque eu sinto medo.
As emoções fazem parte da vida das pessoas. Então, parece que no consultório é aquela coisa de que a gente vê muitos pais falando de você não deve sentir isso, você não pode passar por isso, parece que isso no consultório acontece. Então, pois é, como pedir para não sentir alguma coisa? Essa é a grande questão.
Então, um exemplo, uma criança chega brava com a professora, a professora fez alguma coisa que ela não gostou, a professora é uma idiota. A gente primeiro vai educar dizendo, não, não pode chamar professora de idiota. Talvez dizer, eu entendo que você está bravo com a professora.
E aí, quando a gente diz, eu entendo que você está bravo com a professora, ele vai se sentir aberto, o outro empático ali, ele vai poder contar, eu estou bravo, a professora fez tal coisa. E aí, nós vamos conseguir encontrar uma solução para esse problema. Como que ele vai atuar para resolver esse problema com a professora? Ou como que ele resolveu esse problema com a professora? Ou quando ele percebe que ele é ouvido, que o que ele sente é importante, é válido, ele fica empoderado, ele se empodera para poder resolver os problemas que ele tem.
Agora, a cereja do bolo, para mim, que não entendo nada de crianças e adolescentes, a relação com os pais. Como é o papel dos pais no processo terapêutico das crianças e adolescentes? Então, os pais são peças fundamentais. Eles que trazem não têm essa possibilidade de deixar ir embora.
Não existe essa possibilidade. A criança, eu sou um pouco adolescente, mas eu vou explicar os outros. O pai tem que estar presente no início ou no final das sessões.
Para me contar, ou um ou outro, para me contar como é que foi a semana e se foi realizada a tarefa de casa. Então, eu preciso do pai, ou antes, ou no final da sessão. Quando esse pai não pode vir, de maneira alguma, eu gravo um áudio para o pai, para anotar, hoje trabalhamos tal tema, o exercício de casa foi tal, e o pai tem que me retornar durante a semana.
Então, não existe essa possibilidade da criança vir para a terapia e não ter um adulto junto comigo para trabalhar com essa criança. Isso não tem jeito. Se um pai não topa, então eu também não topo.
Essa é a questão. O adolescente, a gente trabalha com um pouco mais de autonomia, mas em alguns momentos eu pergunto para ele se a terapia não ficaria mais fácil, se resolver os problemas poderia ser uma coisa mais tranquila, se os pais participassem em alguns momentos. Então, eu sempre pergunto, tem alguma coisa que você não gostaria que eu contasse, desde que ele não esteja correndo risco de vida ou alguém? Então, eu guardo o segredo até que ele me autorize, ou então juntos a gente conte.
O adolescente tem essa coisa do sigilo, mas a criança também. Quando eu vou chamar o pai para passar para ele de casa, eu pergunto, tem alguma coisa que ainda é segredo nosso? Aí ele também pede para eu não contar. Mas o pai, a mãe ou o adulto que cuida dessa criança, desse adolescente, ele é processo em si.
Ele é parte desse processo. Não tem como tirar. Então, parece que ao mesmo tempo que existe uma aliança forte com o cuidador, também tem a autonomia da criança que está envolvida ali.
Parece que essas duas coisas se equilibram muito bem na sua prática clínica. Sim, sim. Porque tem coisas que as crianças não querem que conte naquele momento.
Elas precisam de um tempo, elas me pedem um tempo. O que eu digo, às vezes, é que o adulto é que vai me ajudar no trabalho com ele. Eu vou orientar os adultos.
Eu coloco um pouco isso para eles. O pai e a mãe, eles entram no início ou no fim, para que eu possa orientá-los de como lidar com eles. Assim como eu estou aprendendo, eu coloco um emprego.
Assim como eu estou te conhecendo, eu estou aprendendo a lidar com você, eu acho que eu posso ensinar os seus pais, eu posso orientar os seus pais como lidar com isso. Principalmente com relação às emoções. Os pais não sabem, não foram preparados para isso, como lidar com as emoções dos filhos.
Então, é isso que a gente faz na terapia infantil também. Então, não é só infantil. Tem adultos.
Tem adultos também envolvidos. Bom, Juliana, foi um prazer poder contar com essa sua colaboração. Isso realmente vai de encontro com essa proposta de que eu não sei, eu vou ter que procurar gente competente para poder me contar um pouquinho mais.
Realmente, pessoal, contar para vocês dessa iniciativa que a Juliana tem aqui dentro da clínica, em Belo Horizonte, que vai muito de encontro, não só a academia, mas o curso que é proposto do empreendedorismo para psicólogos. Eu entendo que depois do momento que a gente esteve lá embaixo, se existirem pessoas interessadas em um suporte para poder cuidar dos filhos, acho que eles vão saber quem procurar. Com certeza.
Então, foi um prazer estar com você para a sua participação com a gente, compartilhar um pouquinho desse conhecimento. Acho que vão ter muitas outras oportunidades. E fico imensamente agradecido de você ceder esse tempinho para compartilhar a sua sobrevivência com esses pequenos humanos aí.
Eu agradeço a oportunidade e eu amo cuidar de crianças e dos pais das crianças. Então, para mim, é um presente você ter vindo aqui para a gente conversar um pouco. Então, foi um presente trocado.
Obrigado.