Já reparou como estamos a todo tempo tentando nos encaixar em algum lugar que nos caiba?
Parece uma busca constante por um espaço que traga algum conforto e possa explicar uma série de pensamentos, emoções ou comportamentos que porventura nos causem algum desconforto, mas que também justifiquem nossas “diferenças” frente às pessoas com quem convivemos.
Muitas vezes isso pode ser uma herança da época em que ainda éramos crianças e os adultos arrumavam uma forma de se confortarem ao nos explicarem para a sociedade apenas por sermos nós mesmos. O senso comum e as expressões populares são excelentes ferramentas que quase sempre dão um jeito de nos ajudar a dar um nome pra tudo.
Se você chegou até aqui, espero de coração que a expressão “personalidade forte” já tenha caído em desuso no seu vocabulário.
Aprendemos na faculdade que a Personalidade não é classificada como forte ou fraca, mas como um conjunto de características e comportamentos presentes em um indivíduo que o diferenciam de todas as outras pessoas, definem sua maneira particular de perceber a si mesmo e o mundo a sua volta.
Em suma, essa é a nossa “caixinha” única e exclusiva e, que dificilmente vai se encaixar com precisão em um padrão ou formato, por mais que insistamos em tentar nos "encaixotar" todos os dias, na esperança de nos percebermos como normais.
Dividimos nossa existência no planeta Terra com cerca de outros 7 milhões de pessoas que cresceram balizadas por culturas totalmente distintas, protagonizam histórias de vida completamente diferentes e são submetidas aos mais variados estímulos e experiências que podem alterar significativamente as características de sua personalidade ao longo da vida.
Quantas caixinhas seriam suficientes pra caber toda essa gente?
Somos o resultado dessa miscelânea que forma um padrão cognitivo estável e duradouro que norteia nossas estratégias comportamentais: eis aqui o que a Terapia Cognitivo Comportamental chamaria de Esquemas.
Se por um lado a tarefa de tentar agrupar características ou esquemas que ajudem a classificar um tipo de personalidade parece uma tarefa bastante complexa, é exatamente este olhar para as disfunções presentes nos pensamentos, emoções e comportamentos, os quais fazem com que um indivíduo se mostre significativamente distinto dos demais, que caracteriza a presença de um Transtorno de Personalidade.
Doença é tudo que pode ser identificado à partir de um fator etiológico, ou seja, uma causa objetiva que justifique a sua presença. Quando nos referimos a Síndrome, estamos falando do conjunto de sinais e sintomas que pode estar presente em vários transtornos diferentes.
Já os Transtornos são compostos por um conjunto de alterações psíquicas e de comportamento justificadas por fatores biológicos, psicológicos e sociais mas que não são mensuráveis, o distanciando de uma perspectiva de cura como acontece com uma gripe, uma infecção ou qualquer outra doença.
Mais uma vez devemos agradecer a Psicanálise por ter sido a pioneira ao se interessar pelo assunto e abrir caminho para muito além da Psicose, Neurose e da Perversão.
O DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) define o Transtorno de Personalidade ou Transtorno do Eixo II como um padrão persistente da experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, sendo este difuso e inflexível, o qual se apresenta na adolescência ou no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo.
Psicanálise e TCC concordam que em se tratando de Transtornos de Personalidade o foco deve estar voltado para os “problemas centrais”. A diferença é que a Psicanálise entende essas estruturas como inconscientes e não facilmente disponíveis para o paciente, enquanto a TCC acredita que com estratégias especiais é possível um acesso que facilitariam a condução do tratamento.
A colaboração da TCC vem no sentido de compreender esses Transtornos à partir dos esquemas presentes em um indivíduo, acreditando que os mesmos tenham se originado ao longo da vida, principalmente na infância. São os esquemas que levam a emoções e comportamentos disfuncionais que produzem julgamentos tendenciosos e levam uma pessoa a cometer erros cognitivos em determinadas situações.
É possível que 30 à 60% das pessoas que apresentam transtornos de humor e de ansiedade preencham os critérios para um ou mais transtornos da Personalidade, o que não indica necessariamente a presença de um.
Nos pacientes que apresentam um Transtorno de Personalidade é comum que as dificuldades percebidas nos relacionamentos com outras pessoas sejam assimiladas como um fator independente de seu comportamento. Alguns deles demonstram ter muita clareza dos elementos autoderrotistas, como quando, por exemplo, relatam uma inibição para se relacionar com outras pessoas ou em outros casos uma excessiva dependência.
Contudo, sua motivação em buscar ajuda profissional parece sempre estar relacionada aos sintomas como depressão, ansiedade ou demais causas externas.
A presença de alguns cenários indicam a necessidade de um olhar mais atento para a possível presença de um Transtorno de Personalidade como:
A manutenção e prevalência dos Transtornos de Personalidade pode ser explicadas pelo fato de vários dos comportamentos do indivíduo aparentemente terem se mostrado funcionais ao longo da vida.
Gabriela tem 26 anos e chegou ao consultório dizendo estar deprimida e desanimada após o término de seu último relacionamento. Não sabia como um Psicólogo poderia ajudar, mas foi mesmo assim por pressão da mãe que se referia a ela como desequilibrada.
Ela diz que "eu nasci assim".
Quando questionada sobre sua história ela afirma um enorme carinho pelo pai, mas ao relatar a separação dos pais ocorrida aos 10 anos ela afirma: Eu cresci assim abandonada. Sobre o suporte da mãe reclama da falta de cuidado porque ela trabalhava demais. Sobre amizades ela diz não ter muitos amigos, mas tem algum contato com os que conheceu na infância. “Minhas amigas do colégio sempre morreram de inveja de mim pelas coisas que eu tinha, mesmo minha mãe não comprando nada do que eu pedia”.
Relata ter tido várias relacionamentos curtos, pois os homens com quem se envolvia pareciam apenas querer usá-la mas o último era especial. Tanto que em três meses, por não estar trabalhando acabava passando mais tempo na casa do namorado que na sua própria.
A mãe reclamava da sua ausência, mas como a mãe nunca deixou de ajudá-la com as contas e com o cartão de crédito acredita que ela dá total ao apoio ao seu relacionamento. O namorado sempre se mostrou satisfeito pela forma como cuidava de suas coisas e pelo seu carinho em preparar as refeições que comiam juntos até que um dia ele disse precisar de um tempo e nunca mais a procurou.
Não entende o que possa ter acontecido pois eles pareciam tão felizes e ela acredita que acabariam se casando em breve. Tem esperança que as coisas voltem a ser como sempre foram, mas se sente muito triste ao pensar: Eu vou ser sempre assim, uma mulher que os homens usam depois abandonam.
Algum palpite sobre qual seria a “caixinha” de Gabriela?
Perceba que a mãe demonstra sempre prestar suporte financeiro e como o namorado acabou se envolvendo pela forma cuidadosa como ela o tratava. Diante desse cenário será que Gabriela se dava conta do quão disfuncionais poderiam ser alguns de seus comportamentos?
Os esquemas ou crenças centrais são o ponto de partida para compreender como um paciente que apresente um Transtorno de Personalidade percebe a si mesmo (visão de self), sua visão dos outros (visão de mundo), as principais estratégias adotadas nas suas relações (comportamentos) e o norteador para a condução e as técnicas cognitivas e comportamentais a serem utilizadas pelo Terapeuta.
Agora dê uma olhadinha para a tabela com alguns Perfis Cognitivos dos Transtornos de Personalidade:
Nesse breve caso é obvio que não existem elementos suficientes para caracterizar um Transtorno de Personalidade em Gabriela, mas é possível identificar um bom indício da presença dele. Percebem como os problemas parecem surgir como se não tivessem nenhuma relação com o comportamento de Gabriela?
Os perfis cognitivos te ajudariam a arriscar de qual Transtorno de Personalidade estamos falando?
O tratamento dos Transtornos de Personalidade geralmente utiliza os mesmos métodos dos tratamentos de transtornos de humor e ansiedade, contudo, com uma maior ênfase no trabalho com os esquemas e estratégias de enfrentamento mais eficazes. Sobre essa diferença cabe ainda considerar que o tratamento consiste em:
Criada por Marsha Linehan, a Terapia Comportamental Dialética é um dos principais exemplos de adaptação da TCC para tratamento de transtornos do Eixo II.
Foi inicialmente desenvolvida para o tratamento da personalidade Borderline e apresenta uma redução significativa do comportamento autodestrutivo e ideação suicida presentes nessas pacientes, sendo atualmente utilizada no trabalho com pacientes com transtornos alimentares, transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos que apresentem co-morbidade de Eixo II.
Quatro características principais a diferenciam da TCC tradicional:
A Terapia Comportamental Dialética faz um uso equilibrado de estratégias Cognitivas como o Mindfulness visando trazer a atenção do para o momento presente, uma vez que o paciente Borderline está frequentemente mergulhado em fortes emoções, quanto métodos Comportamentais como a regulação de respostas emocionais e o treinamento da respiração.
E aí? Já sabe qual o melhor caminho a ser trilhado pelo Terapeuta no tratamento de Gabriela?
Uma avaliação criteriosa dos sintomas e dos reflexos dos pensamentos, emoções e comportamentos do paciente dentro e fora do consultório faz parte do papel do Terapeuta, mas pode também ser a chave para encontrar novos caminhos que levem a sessões mais produtivas e resultados mais expressivos.
Lembre-se que uma boa preparação técnica e a realização de um bom trabalho é uma responsabilidade sua, mas existem fatores que poderão lhe levar a uma auto cobrança no trabalho com alguns pacientes tais como baixa adesão ao tratamento ou um número de sessões superior ao estimados, mas que poderiam ser explicados por um olhar mais atencioso para os Transtornos de Personalidade.
weslleycarneiro@gmail.com - @wcarneiropsi
Psicólogo de formação
♂️Psicoterapeuta #ACT e #Mindfulness por paixão
Mineiro idealista e idealizador do @netmet.psi