Supervisionar é Empreender (A Supervisão na Perspectiva Psicanalítica)

Escrito por Academia do Psicólogo | Mar 19, 2016 8:48:00 AM

É como diz o velho provérbio português: “duas cabeças pensam melhor do que uma”. Alguns acreditam que mais do que isso pode virar bagunça. Contudo, quando o assunto é supervisão psicanalítica, diferentes olhares tendem a enriquecer a prática e o entendimento do profissional, como um todo: sendo terapeuta, sendo paciente, sendo cidadão.

Enxergando mais longe (e mais fundo)

“Supervisão”, como infere o termo, é uma ferramenta que potencializa, de várias formas, o campo de visão do psicólogo. Quer trabalhe com psicoterapia psicanalítica ou com a psicanálise propriamente dita.

Ademais de ser uma das recomendações de Freud, buscar o auxílio de alguém mais experiente, é também uma decisão estratégica.

Além de contribuir para o aperfeiçoamento das nossas intervenções - sugerindo um jeitinho aqui, outro acolá – o supervisor ajuda a compreendermos melhor àquele que escutamos e a reconhecermos nossas próprias fragilidades frente ao sujeito que nos fala. Impasses pessoais que acabam formando “pontos cegos” e interferindo negativamente na relação terapêutica. “Coisas nossas” que invadem os atendimentos e, por vezes, facilitam (ou provocam) o abandono da terapia. Perdemos muito com isso!

Outro ponto importante desse suporte, é possibilitar que nós, terapeutas, revivamos o encontro com nossos pacientes através da escrita do relato e, posteriormente, pela análise do processo.

É impossível darmos conta de toda a complexidade subjetiva da pessoa que nos procura, apenas durante a consulta. O encontro jamais vai terminar nos 45 ou 50min de sessão. É um trabalho que nos convida a investir mais tempo e envolvimento emocional.

Já durante a transcrição das consultas, nos deparamos com diversas oportunidades de ouvir - ainda mais - os inconscientes que se apresentam naquele momento.

O do outro e o nosso.

Algumas situações chegam a ser engraçadas, quando nos damos por conta de alguns lapsos de português ou mesmo, de intervenção. É comum reações como: “não acredito que escrevi isso”, “opa, me enganei”, “mas por que eu disse isso?”.

E é ai que entra a verdadeira riqueza da supervisão!

Quando um terceiro – em alguns casos, mais – chega, ajuda-nos a esclarecer muitas interrogações, abrindo horizontes frente ao nosso papel de “terapeuta” e  “pessoa do terapeuta”.

Troca e Aprendizagem

Para tanto, nessas horas, é fundamental mantermos uma característica indispensável a qualquer supervisionando: a humildade.

Ou, como nas palavras de Zimerman (2004), é preciso querer “aprender a aprender”.

O que ele quer dizer com isso?

Ele quer dizer que o candidato precisa significar a supervisão como um espaço de muita troca e aprendizagem, com o auxílio de alguém mais experiente e sábio. É preciso saber ouvir e aceitar o feedback.

Por outro lado, é melhor que aquele que escolhemos como supervisor, também tenha uma boa capacidade de expressar suas opiniões.

Uma maneira que vá ao encontro das nossas demandas.

Devemos escolher alguém que forme uma dupla agradável e produtiva. Acolhedora, para ambos os lados. Não é recomendado fazer a escolha ao acaso.

Existem diferentes formas de chegar até um supervisor. Acompanhar seu trabalho com outros supervisionandos, conhecer a forma como orienta através de aulas, palestras e escrita. Resumindo, buscar referências.

Chegar chegando, pode não ser uma boa.

Buscar mais de uma pessoa para auxiliar na nossa prática é, geralmente, uma exigência nas formações. Passar por até dois supervisores - ou mais, dependendo do público ao qual nos dedicamos - fica recomendado para que possamos conhecer e vivenciar diferentes formas trabalhar.

Diversificar contribui para que tenhamos acesso a variadas figuras de identificação e, assim, podemos absorver tudo aquilo que é mais coerente e nos faz mais sentido.

Há quem se atrapalhe com a transição e, por vezes, faz uma troca não muito favorável. Isso, em algumas situações, pode prejudicar a “personalidade” terapêutica do “aprendiz”. Para tanto, mais uma vez, reforçamos a importância de pesquisar a pessoa que mais combina conosco, antes de embarcar numa jornada em descompasso com a dupla elegida.

Supervisão Colaborativa

A supervisão, assim como o tratamento psicológico, envolve não apenas o investimento emocional, mas também, o financeiro. O preço, por vezes, pode ficar acima do que estamos dispondo em algum momento, e é preciso ser criativo nessas horas. O recomendado é que possamos fazer uma supervisão semanal, mas nem sempre isso é possível. Logo, tem pessoas que optam por quinzenal, outras por supervisão em dupla, outras em grupo. Em certos momentos, alguns optam pelo que chamamos (nós da Simples Insight) de “supervisão colaborativa”. Quando nos reunimos entre colegas para trocar ideias e tentar dar um suporte ao outro, num momento de maior aperto. Claro que em qualquer um dos casos citados acima, principalmente quando envolve mais supervisionandos, é FUNDAMENTAL mantermos o sigilo. Aliás, esse é um critério ético que deve se fazer presente no nosso dia a dia, em qualquer momento. Estamos lidando com vidas, com sujeitos, e esse “bom senso” não pode nos faltar.  

Diante de tudo que foi descrito, e muito mais, podemos dizer que supervisionar é empreender. É um instrumento que contribui para que possamos tomar certa distância – através da fala, da escuta e da escrita – dos atendimentos e, como consequência, podemos enxergá-los melhor. Ver o quadro todo, com mais propriedade e mais segurança. Podemos pensar em possibilidades de intervenção. Podemos reconhecer nossos pontos fortes e fracos, frente as mais variadas personalidades. Aprendemos a ler com mais atenção tanto o inconsciente do paciente, quanto o nosso próprio. Como resultado, ganhamos impulso para fazer a nossa clínica prosperar.

Referências:

ZIMERMAN, D. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004


Autoras: Simples Insight - Que tal ouvir sobre psicologia e psicanálise de maneira leve, atual e divertida? Que tal aprender também sobre atendimento clínico, supervisão, atendimento online, redes sociais, início de carreira… Pois todos estes temas – e muito outros – serão tratados pelas psicólogas da Simples Insight. É a psicanálise abordada de uma forma mais solta, dinâmica e simples. Acessível para estudantes, profissionais e curiosos de plantão.