Sobre o Perfil Daquele que Trabalha com a Teoria Psicanalítica
Tudo bem que para saber aonde estamos indo, setas, trilhas e um GPS ajudam bastante. Mais do que direcionar, caminhos já traçados facilitam o percurso e garantem nossa segurança. Pelo menos é assim que acontece na maioria das vezes.
Contudo, nossa experiência com a clínica psicanalítica – ao longo da faculdade, da especialização e da prática - tem nos mostrado um outro lado dessa orientação que nem sempre é tão positivo e estável.
É claro que limites, regras e recomendações são sim organizadores - e civilizatórios -, entretanto, quando se tornam um antolho¹, acabam impedindo que a subjetividade emerja e, como consequência, tendem a provocar pensamentos e movimentos mecânicos que prejudicam profundamente qualquer tentativa terapêutica.
A psicanálise, apesar de respeitada, tem uma fama um tanto negativa no que diz respeito a impor certas “normas” aos seus profissionais.
Preceitos que conduzem a prática, todavia, quando mal designados ou erroneamente interpretados, produzem um estereótipo bastante conhecido e criticado, não só pelas pessoas da área, mas também, pela população.
A figura de um sujeito sério, carrancudo, mais velho, de poucas palavras e fazendo anotações, está no imaginário coletivo.
Nem todo mundo tem essa representação, mas, de uma maneira geral, ela é bem frequente. Digamos que a mídia ajuda nessa visão, mas, praticantes e defensores ferrenhos da conduta rígida também colaboram, significativamente, para a ideia de que: trabalhar com psicanálise, requer um perfil absolutamente neutro, abstinente e anônimo.
Não que seja errado atuar de forma clássica, porém, não raro, tal postura inflexível acaba provocando sofrimento em muita gente que se identifica com essa linha teórica.
Em pleno século XXI, diante das diversas transformações sociais, da revolução tecnológica e da possibilidade, cada vez maior, do sujeito ser quem ele realmente é, o casamento com a psicanálise pode tornar-se uma experiência conflituosa para determinados profissionais.
Algumas confusões já começam durante as vivências de estágio, porém, geralmente, o “ser ou não ser, eis a questão” acontece quando os psicólogos decidem iniciar uma especialização.
Muitas vezes, ao longo da formação, a empolgação inicial em adquirir o certificado de psicoterapeuta psicanalítico ou psicanalista, vai sendo substituída por uma insegurança, acompanhada de muitas dúvidas.
Alguns chegam a se questionar se realmente escolheram a carreira certa.
Mesmo estudando, atendendo e possuindo habilidades emocionais importantes como a empatia, a paciência e a capacidade de insight, entram em crise, por não conseguirem encaixar a personalidade pessoal com a personalidade profissional.
Lidando com a Insegurança
Essa situação ocorre, principalmente, pela articulação desajeitada entre uma cultura psicanalítica atrelada aos princípios freudianos de um outro tempo, e a nossa realidade social atual. Não são todos os especializandos que sentem esses anseios, mas, não é difícil encontrar um volume considerável de colegas se queixando.
Podemos estender esse entendimento para além dos que querem ou já atuam no setting “consultório”. Aqueles que optam por outros espaços como: o acompanhamento terapêutico, o assistencial, o hospital, etc., também podem se deparar com barreiras que, por vezes, lhes causam mal estar.
Um mal-estar que possivelmente se perpetue pelo fato de algumas interrogações não serem revisadas de forma aberta. Perguntas que nem sempre encontram espaço para serem melhor discutidas e esclarecidas. São questões que estão presentes diariamente nos atendimentos, no dia a dia do profissional e que necessitam de mais atenção.
- Eu posso ser mais ativo nos atendimentos?
- Eu posso fazer uso de piadas?
- Eu posso fazer combinações por whatsapp?
- Eu não tenho um consultório. E agora?
- Eu não posso atender sem cartão. Posso?
- Minha aparência está correta?
- Eu posso ter redes sociais?
- Talvez eu devesse evitar festas, meu paciente tem a mesma idade do que eu!
É feio eu divulgar os meus serviços?
Entre muitos outros.
Contexto e Adaptação
Bom, primeiramente deve-se pensar que quando Freud criou a psicanálise, estava imerso numa sociedade e numa cultura totalmente diferentes das que temos hoje.
Eram outros tempos e, logo, outros inconscientes e outras subjetividades.
Nos dias que correm, recebemos um novo tipo de paciente que, diferente de antigamente, é muito mais informado, mais dinâmico e mais tecnológico.
Mulheres no mercado, mais diversidade, crianças e adolescentes que chegam recheados de conhecimento. Fica praticamente inviável nos mantermos numa postura mais distante. Pessoas com essa desenvoltura convidam a um terapeuta mais ativo, mais bem humorado, mais disponível em se fazer presente na sessão.
Um terapeuta mais natural.
A essência daquele que ouve se mostra, atualmente, constituinte para a clínica psicanalítica. Como vai escutar, como vai falar, como vai acolher.
Digamos que são suas características particulares que vão condicionar uma boa relação terapêutica. Claro que devemos sempre respeitar o código de ética da psicologia, bem como conservar os princípios básicos da psicanálise. Agir de forma mais livre não quer dizer ser negligente com a técnica.
Contudo é possível ser mais ativo nos atendimentos. Usar o senso de humor, torna-se um diferencial. Usar o whatsapp, vai depender do quanto ambos – psicólogo e paciente – se sentem à vontade com a ferramenta.
É possível ter Facebook (mas não ficar amigo do paciente).
Ter consultório próprio, sublocado, chique, simples, roupas caras, sapato, tênis, cabelos longos ou curtos, cartão, enfim, nada disso vai impedir que aquele que nos procura, nos use como alvo de projeções, de transferência.
Logo, de qualquer forma nos dará condições para trabalhar suas demandas de modo eficiente. O mais importante é que consigamos manter uma boa comunicação e que possamos usar um linguajar simples. Um vocabulário que, mesmo mantendo uma relação assimétrica, onde cada um sabe do seu papel no processo, possibilite uma aproximação maior da dupla.
O que mais pode prejudicar uma relação terapêutica não é o fato de o profissional cruzar com o sujeito fora do consultório, em uma festa, por exemplo. Muito menos a ideia equivocada de que o não podemos divulgar nossos serviços – de maneira ética, claro.
Conhece a ti mesmo
O que vai atravessar negativamente um atendimento, são questões pessoais do terapeuta que não estão suficientemente resolvidas. Para tanto, é fundamental aderir ao ensino freudiano, que indica o estudo teórico, a supervisão e a análise pessoal, mais conhecido por tripé analítico, como a estrutura basilar de um bom exercício.
O autoconhecimento, permite que o terapeuta busque a melhor versão dele mesmo e, com o ego fortalecido, saberá lidar com “regras” que não fazem mais sentido. A supervisão contribui para que domine a técnica, tenha um modelo de identificação e, sobretudo, consiga distanciar suas questões das do paciente.
Por fim, a análise teórica, a atualização, colabora para que tenha mais propriedade, mais entendimento sobre o funcionamento de seus pacientes contemporâneos.
Tudo isso colabora para encontramos o nosso jeito, dentro de nós mesmos. Não precisamos ser velhos, nem sérios, sisudos, muito menos fazer anotações. Acontece que por insegurança e inexperiência, acabamos seguindo certo perfil, que nos limita. Claro que faz parte percorrer alguns caminhos, por ética e respeito aos nossos pacientes. Mas, o mais importante é que, com o tempo, vamos nos sentindo cada vez mais à vontade no nosso papel, na nossa aparência e na nossa forma de se conectar com as pessoas, sendo livres.
Assim, vamos amadurecendo como terapeutas e entendendo quando devemos parar, avançar e arriscar. Um passo após o outro, até nos sentirmos confortáveis com a posição de tanta responsabilidade, que é ser terapeuta de alguém.
Autoras: Simples Insight - Que tal ouvir sobre psicologia e psicanálise de maneira leve, atual e divertida? Que tal aprender também sobre atendimento clínico, supervisão, atendimento online, redes sociais, início de carreira… Pois todos estes temas – e muito outros – serão tratados pelas psicólogas da Simples Insight. É a psicanálise abordada de uma forma mais solta, dinâmica e simples. Acessível para estudantes, profissionais e curiosos de plantão.
¹Tapa olho para cavalos.
