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Abordagens

Envelhecimento e Velhice: Páginas que Estão Sendo Escritas

Academia do Psicólogo
Academia do Psicólogo

Você sabia que o envelhecimento populacional é uma das grandes preocupações atuais no mundo inteiro? O número de idosos no Brasil aumenta rapidamente e muitos esforços são necessários para compreender o significado de envelhecer em um país em desenvolvimento, as transformações pelas quais passam aqueles com mais de 60 anos.

Mas quais são as ciências que se dedicam a estudar o envelhecimento e a velhice? E como o psicólogo pode atuar nessa área?

Nesse vídeo, vamos abordar essas e a outras questões! Vem com a gente descobrir esse campo de atuação tão novo que é a “psicogerontologia” ou mais comumente chamada “Psicologia do Desenvolvimento do Adulto e do Idoso”.

https://player.vimeo.com/video/198106744

SINGULAR IDADE
singular.idade.web@gmail.com

Esse é um espaço em construção, um ponto de partida e de encontro para falar sobre o envelhecimento em suas mais diversas formas. Somos duas amigas, psicólogas e apaixonadas pela Psicogerontologia, uma morando no Brasil e a outra na Espanha. Nós formamos o Singular Idade. Juliana Rêgo é especialista em Gerontologia pela Universidade de Fortaleza e Clicia Peixoto é doutoranda em Psicogerontologia na Universidade de Valência.

Transcrição

Oi, pessoal, eu sou a Juliana Rego. Olá, eu sou a Clícia. Nós somos do Singularidade e vamos conversar hoje um pouquinho sobre o processo de envelhecimento no Brasil.

A nossa proposta aqui para a Academia do Psicólogo é trazer mais conteúdo sobre psicogerontologia para vocês, mas antes de trazer esse conteúdo teórico da psicologia do envelhecimento, a gente acha importante trazer uma noção do que é envelhecer no Brasil, um contexto histórico do surgimento desse campo de atuação da psicologia, a gente acha que vale a pena dar uma olhadinha nisso, tá bom? Falar sobre envelhecimento é falar de um processo muito peculiar, muito singular. Cada pessoa envelhece de uma maneira, podem ser duas pessoas da mesma família, podem ser duas pessoas da mesma idade, mas cada uma vai experimentar a sua envelhece de uma forma muito própria. Envelhecimento tem a ver com diversos fatores, ele é influenciado por diversos fatores, fatores biológicos, emocionais, sociais, culturais, econômicos, tantos outros, então é impossível duas pessoas envelhecerem da mesma maneira.

Claro que alguns aspectos eles se repetem, eles se repetem em diferentes pessoas, mas cada pessoa envelhece ao seu modo, de uma maneira muito semelhante, cada país também passa por esse processo de transição demográfica da sua maneira. O modo como o Brasil envelhece não está sendo do mesmo jeito como a Espanha já envelheceu, como Portugal envelheceu. Quem estuda envelhecimento muito provavelmente já ouviu falar em Alexandre Kalash.

O Kalash é brasileiro, ele é um médico, trabalhou por muitos anos na Organização Mundial de Saúde, então ele é referência não só no Brasil, mas no mundo todo em temas como longevidade, envelhecimento. E o Kalash, em uma das suas obras, ele faz justamente essa distinção entre o que é envelhecer em um país em desenvolvimento, como o Brasil, e como é esse processo de envelhecimento em países já desenvolvidos, como ocorreu esse envelhecimento. Ele traz a Inglaterra como um exemplo.

O Kalash dá o adjetivo de envelhecimento natural para esse processo de envelhecimento em países já desenvolvidos, como a Inglaterra. Natural por quê? Ele coloca que paralelo ao avanço da medicina, de tecnologias e da ciência, ocorreram também nessa nação outras transformações, transformações sociais, econômicas, culturais, então tudo isso foi permitindo que as pessoas que moravam naquele país, naquela época, pudessem ganhar aí alguns anos de vida, e além dos anos de vida, ganhar qualidade de vida também. Então foi acontecendo de uma forma mais natural, mais coerente, por assim dizer.

E ele coloca, o Kalash diz que no Brasil a gente não pode pensar dessa mesma maneira. Ele chama o envelhecimento brasileiro de envelhecimento artificial. Artificial por quê? Porque ocorreu sim uma melhoria na qualidade de saúde pública, então hoje em dia mais pessoas têm acesso a mais ferramentas da saúde, mas não ocorreram transformações sociais que consigam possibilitar essa população uma vivência de um bem-estar na velhice.

Então as pessoas até têm chegado aos 60, 65 anos, até porque com as vacinas e com os tratamentos, a mortalidade infantil, a mortalidade de adultos jovens tem caído muito. Já não se morre de tuberculose, já não se morre de sarampo, como há décadas atrás morria. Então mais pessoas têm conseguido chegar à velhice, mas sem moradia, sem educação, sem uma distribuição de renda adequada, sem acesso à cultura, sem acesso a vários bens, que não só financeiros, não só materiais, mas bens sociais, bens emocionais também.

Por isso que ele coloca que é um envelhecimento artificial, meio que produzido por vacina, vacinas e tratamentos possibilitados, esse ganho aí de uns 10 anos a mais, uns 20 anos a mais da população, mas não quer dizer que vivam bem. Quando a gente pensa em envelhecimento no Brasil, acho que a gente pode levantar três adjetivos básicos. Trata-se de um envelhecimento acelerado, um envelhecimento desigual e um envelhecimento estigmatizado.

É acelerado porque basta a gente dar uma olhadinha nos registros dos últimos censos e perceber como a população idosa vem aumentando muito rapidamente no nosso país. Em 2010, o censo mostrou que existiam em torno de 20 milhões de idosos no Brasil. A estimativa para 2050 é que existam 30 milhões.

É um aumento muito significativo dessa população idosa, então é muito rápido, muito acelerado. É um processo desigual? Claro, tem as questões que a gente já abordou aqui no início do vídeo, da singularidade mesmo desse processo de envelhecer, cada um envelhece de uma maneira própria, mas a desigualdade aqui tem a ver com a desigualdade social. Um idoso que envelhece na zona rural de um estado bem pobre, ele não tem os mesmos recursos que um idoso que envelhece na zona nobre, no bairro nobre, de uma capital rica tem.

E é estigmatizado porque basta a gente pensar em envelhecer para algumas frases de efeito surgirem, por exemplo, a pessoa agiu de tal modo, então parece um velho, então Deus me livre de ficar velho como fulaninho de tal. Então a envelhecer já vem nesse tom pejorativo, já vem com um tom pesado, algo ruim, e essa é a ideia que a envelhecer tem, eu não vou dizer desde sempre, embora eu ache que seja desde sempre, a última fase da vida, não tem o que fazer, não tem por que ter projeto de vida, não adianta ser acompanhado por psicólogo ou ser estimulado a fazer parte da sociedade, não adianta. Então o idoso hoje em dia no Brasil, ele é muito colocado de lado, ninguém olha.

É claro que isso vem passando por transformações, isso vem mudando, mas cabe a nós também da psicologia trabalhar certos estigmas, certos preconceitos, ainda mais com aqueles idosos que trazem questões emocionais, que trazem questões psicológicas, que aí o preconceito é maior ainda, então olhar para essa velhice e questionar certos estigmas é um papel importante que o psicogerontólogo tem.

Agora a gente gostaria de começar a falar sobre o contexto mais histórico da psicogerontologia, psicogerontologia que é essa ciência que une a gerontologia à psicologia, a psicogerontologia ela se dedica a ter um olhar mais voltado para as emoções, para o comportamento, inclusive para a questão social que também tem a ver com o bem-estar ou com o mal-estar do idoso e ter esse olhar para entender um pouco melhor do que sente, de quais são os inconvenientes da velhice, ou quais são os inúmeros benefícios que uma pessoa pode vir a ter no seu processo de envelhecimento, enfim, é realmente como eu disse, uma união da gerontologia com a psicologia, mas a psicogerontologia ela também tem ligação com a geriatria, para quem não sabe, a geriatria ela é uma ciência médica, uma especialidade da medicina que também lida com o público de pessoas idosas. Nós gostaríamos de citar algumas obras que são importantes para o desenvolvimento dessas ciências, para a geriatria, para a gerontologia e para a psicogerontologia, lembrando que a geriatria e a gerontologia são duas ciências que foram sendo desenvolvidas mais ou menos ao mesmo tempo, a psicogerontologia ela já é bastante mais recente, mas a geriatria e a gerontologia elas foram um pouco sendo criadas de alguma maneira, foram ganhando espaço de forma paralela de alguma maneira.

Na geriatria, a gente queria citar uma obra importante que é a obra do Nasch, que é um austríaco, ele fala em um artigo de tipo médico social, digamos, sobre a necessidade de criar uma ciência médica que dê atenção ao envelhecimento, às pessoas mais velhas. Na gerontologia, a gente tem duas obras, uma obra do ano de 1939, de um norte-americano que se chama Coulter e o nome da obra é Problemas do Envelhecimento. Com essa obra, na verdade, essa obra é considerada o primeiro tratado de gerontologia.

A outra obra que nós gostaríamos de citar aqui, que é bastante importante, é do Stanley Hall, que também é um norte-americano, mas essa obra do Stanley Hall, do ano de 1922, que se chama Senescência, com essa obra ele já aponta alguns aspectos que vão depois ajudar ao desenvolvimento da psicogerontologia. Por quê? Porque nessa obra, em Stanley Hall, ele já vem chamar a atenção para o aspecto de que o envelhecimento, a velhice, na verdade, ela não tem por que ser sinônimo de déficit e que ela tem, digamos, especificidades e ele chama a atenção também para que a velhice não seja considerada o extremo oposto, por exemplo, da adolescência, que era mais ou menos como se considerava naquela época. Mas considerando de forma mais significativa o desenvolvimento dessas ciências, a gente pode falar, principalmente com relação à gerontologia e à psicogerontologia, a gente pode falar que mais ou menos a partir dos anos 60, quando se começou a conceber um modelo de tipo biopsicossocial.

E aí foi quando houve realmente um espaço maior para as teorias do desenvolvimento. Nos anos 50, o Erikson, que é um teórico bastante importante da psicologia do desenvolvimento, já havia criado uma teoria do ciclo vital que incluía a velhice, como uma etapa bastante importante do desenvolvimento humano. Porém, foi só a partir dos anos 60 que realmente se estudou melhor esse aspecto.

Obviamente, isso acontece, pelo menos na Europa, por conta da Segunda Guerra Mundial. Foi a partir da Segunda Guerra Mundial quando se viu, de fato, que existia ou ia existir uma população que deveria, muito provavelmente, ia envelhecer e que havia realmente um campo, algo a ser teorizado, digamos assim, de alguma maneira. No ano de 1986, foi lançada a primeira revista de psicogerontologia, de alguma maneira, uma revista que se chama Psychology and Aging.

E aí isso também é muito importante, porque isso quer dizer que na área acadêmica, o olhar psicológico sobre a gerontologia, sobre o envelhecimento, já passou a ser muito mais consistente. Se a gente falar aqui no Brasil, é importante chamar atenção também para alguns momentos históricos. No ano de 1961, foi criada a Sociedade Brasileira de Geriatria.

E foi só a partir do ano de 1969, depois do primeiro Congresso Nacional de Geriatria e Gerontologia, que realmente essa sociedade ganhou a configuração que tem hoje, pelo menos com relação à sua sigla, que é a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, que é uma das instituições mais importantes no Brasil nesse aspecto do envelhecimento, do estudo do envelhecimento. A psicogerontologia, com relação à parte de pesquisa e até de formação, no Brasil, ela só veio a ganhar realmente um grande destaque, mais ou menos ao final dos anos 80 para os anos 90, com a grande influência da pesquisadora, da psicóloga, que se chama Anitta Libera Leissoneri. Quem conhece o Alexandre Kalash, por exemplo, que a Juliana falou, também deve conhecer a Anitta Libera Leissoneri, porque até hoje ela é muito atuante na área, e foi ela também a responsável por criar a primeira pós-graduação estricto senso no ano de 1997, na Unicamp.

Só que essa especialização, desculpa, essa pós-graduação estricto senso, ela é uma pós-graduação em Gerontologia, o que quer dizer que estuda-se o envelhecimento, mas a partir de diversas disciplinas. Não se trata de uma formação específica em Psicologia, isso no Brasil, até o dia de hoje, não se tem notícia de uma pós-graduação específica de Psicogerontologia, ou como no Brasil se costuma falar, Psicologia do Desenvolvimento do Adulto e do Idoso. Agora, a gente queria passar para algo, digamos, um pouco mais prático, para a gente falar um pouco de como é que a Psicogerontologia, ela atua, quais são as possibilidades de atuação, o que é, de fato, que um Psicogerontólogo ou um Psicólogo com uma formação em Gerontologia, onde e como e com quem ele atua.

Então, se a gente for falar primeiro dos objetivos da atuação de um Psicogerontólogo, basicamente de prevenir doenças ou prevenir uma situação de solidão do idoso, que essa é uma questão que é importante na velhice, na questão da solidão, várias questões que podem ser, digamos, trarolhadas previamente para que não cheguem a acontecer durante o período da velhice, várias situações, digamos, entre aspas, problemáticas ou difíceis, né? Então, além de prevenir, o Psicólogo pode avaliar e pode atuar, quer dizer, pode fazer intervenções e pode também formar outros profissionais ou orientar outros profissionais, Psicólogos ou não, de outras áreas, inclusive, para ter um olhar mais, digamos, Gerontológico. E aí vamos passar como é que ele faz isso, né? De fato, pode trabalhar com os idosos, pode trabalhar com familiares dos idosos, pode trabalhar com os cuidadores, sejam eles formais ou informais e pode trabalhar com profissionais, como eu acabei de dizer, que tem o interesse em ter essa formação. Muitas vezes tem profissionais de diversas áreas que se encontram com um paciente que ele não sabe muito bem como adaptar o trabalho dele para o idoso, porque se verifica que aqueles profissionais que não têm formação na área de Gerontologia, eles se sentem muitas vezes um pouco perdidos ou eles veem que o trabalho deles não é tão efetivo por conta dessa falta de conhecimento específica, né? Algumas atividades que o Psicólogo pode fazer, programas que sejam de envelhecimento ativo, a gente vai falar sobre a Teoria do Envelhecimento Ativo e outros aspectos que estão envolvidos na parte dessa teoria, cursos dirigidos a orientar os idosos, familiares, cuidadores, pode ajudar e acompanhar a adaptação institucional do idoso, seja num hospital, seja em um centro-dia, seja numa instituição de longa permanência.

Esse acompanhamento é bem importante quando feito pelo Psicólogo, é um acompanhamento que realmente ajuda o idoso, ajuda a família e ajuda os profissionais que trabalham no centro, na instituição. Pode fazer testes de screening, que são testes que são esse primeiro rastreio, o rastreio que faz o Psicólogo para saber se o idoso está desenvolvendo algum tipo de demência ou alguma doença, que inclusive o Psicólogo ao detectar no início, ele pode encaminhar para outros profissionais como pode ser um Neurologista, um Fonoaudiólogo, enfim, um Terapeuta Ocupacional, pode encaminhar para outros profissionais, isso é muito importante chamar a atenção, o Psicólogo, quando ele trabalha junto com outros profissionais, é quando realmente o trabalho dele tem um alcance muito mais efetivo. Obviamente, o Psicólogo também pode trabalhar com o idoso na clínica, com atendimento individual, pode elaborar também planos de intervenção multidisciplinar, pode acompanhar casos de maus-tratos, pode, por exemplo, também elaborar programas de reinserção laboral para idosos que tenham interesse em retornar ao mercado laboral, por exemplo, como tutores ou como orientadores de profissionais mais jovens, e é muito importante que, por exemplo, dentro da Psicologia Organizacional, um Psicólogo que esteja ali, ele possa ver como é que essa reinserção pode ser facilitada, pode ser, de alguma maneira, ser feita de uma maneira mais harmoniosa para ambos, para os profissionais mais jovens, para os idosos, enfim, é um acompanhamento também bastante interessante de ser feito.

Área de atuação, como eu já disse, uma delas a clínica, hospitalar, jurídica, recursos humanos, a Psicologia Social tem muito a fazer nesse campo do envelhecimento também, enfim, eu acho que não falta lugar para o Psicólogo com essa formação em Gerontologia atuar, tem muito campo de trabalho, tem muito público, e realmente a gente pode colaborar para que o envelhecimento das pessoas no Brasil seja mais leve, seja mais interessante, a gente também pode chamar a atenção das políticas públicas para uma melhora na atenção dada ao idoso, porque isso também é interessante de falar, porque, como a Juliana falou também, no Brasil a gente tem a questão da desigualdade, outras questões que talvez em países como a Europa ou os Estados Unidos isso não seja tão chamativo, então, assim, nós temos que também pensar nisso e como profissionais nós também podemos nos unir e deixar claro para as políticas públicas de que nós precisamos de instituições que dêem atenção é psicogerontológica e de outros profissionais da Gerontologia e da Geriatria a esse público que demanda uma atenção, demanda um trabalho mais voltado para eles. Aqui eu deixo vocês, espero que vocês tenham gostado e aí a gente vai continuar a falar de vários outros temas nos próximos vídeos. Tchau, tchau! Como a Clícia falou, o campo de atuação do Psicogerontólogo é bem vasto, eu costumo dizer que onde tem idoso e onde tem quem conviva com o idoso, tem espaço para a gente atuar, tanto de modo preventivo, como com intervenções mesmo, diante de alguma questão que já exista, então, trabalho com o idoso, com seus familiares, com seus cuidadores, trabalho com a sociedade, eu posso, enquanto psicogerontóloga, trabalhar com educação infantil.

Ah, Juliana, mas ali não tem nenhum idoso. É, tem criança, né? Mas essas crianças, elas convivem com os avós, muitas vezes com os bisavós. Eu posso, com esse meu olhar da psicogerontologia, desenvolver trabalhos maravilhosos em outros campos da psicologia, como a psicologia social, organizacional, do trânsito, enfim, espaço não falta, acho que o que está faltando é pessoal, profissionais que queiram abraçar esse campo de atuação e desbravar mesmo, tem muitas atividades, tem muitas possibilidades que ainda não são realizadas no Brasil e que está faltando só, de repente, a gente arregaçar as mãos e começar a construir.

Espero que vocês tenham gostado, para a gente é um prazer falar sobre esse assunto, com a gente agora e esperamos vocês no próximo vídeo, tá bom? Tchau!

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