Encontros com o Suicídio: Um Psicoterapeuta se Lembra de Não Esquecer
Há uma frase famosa de Freud que diz:
"Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'."
É disso que trata este artigo, escrito por Catherine Ambrose, psicoterapeuta de orientação psicanalítica com mais de 20 anos de experiência. Catherine apresenta um estudo de caso com uma paciente suicida e nos mostra como aspectos pessoais interferem no decorrer do trabalho clínico. É a contratransferência na prática.
Estarmos atentos em como as questões de nossos pacientes reverberam em nós e cuidar de nossa própria saúde mental é extremamente importante. É respeito, responsabilidade, ética.
Boa leitura!
Daiana Rauber
O esquecimento começa
Quando os telefones ainda eram fixos e eu ainda tinha dezesseis anos, uma amiga da minha mãe ligou para casa durante a tarde e me disse que ela tinha uma espingarda em seu colo e me perguntou se eu poderia lhe dar uma boa razão para que ela não explodisse sua própria cabeça.
Eu estava sozinha em casa porque eu não fui com a minha família naquele ano passar as nossas férias de verão em Maine. Em vez disso, eu estava flertando com um transtorno alimentar, tentando viver de alface e queijo com baixo teor de gordura, levantando todas as manhãs às 4:30 para andar com a minha bicicleta por três quilômetros fora da cidade, onde eu estava trabalhando como garçonete no turno do café da manhã.
Então, lá estava eu, sozinha, tentando pensar no motivo certo e dizer à ela. Eu já estava imaginando o barulho da explosão pelo telefone, resultado da minha resposta inadequada e imperfeita.
Estou quase certa de que não lhe dei uma boa razão, mas devo ter dito algo que promoveu a conversa, porque me lembro dela dizendo: "Você sabe como é viver com um homem que não te tocou por anos?". Para ser sincera, não.
Acho que conversamos por um tempo. Tentei imaginar o que um adulto com compaixão diria para ela, e tentei repetir.
Ofereci o número de telefone da minha mãe em Maine. Não havia um telefone na cabana, mas os proprietários poderiam entregar uma mensagem à ela. A amiga de minha mãe recusou. "Oh não, eu não poderia incomodá-la em férias." Eu estava pensando que incomodar minha mãe em férias era a melhor ideia possível sob as circunstâncias, mas claramente isso não iria acontecer.
A amiga da minha mãe me disse que estava se sentindo desesperadamente solitária agora que seu filho mais novo tinha ido para a faculdade. Disse também que seu marido de trinta anos estava tendo um caso com uma mulher de 20 anos.
Eu não queria saber nada disso, pelo menos não em primeira mão. Gradualmente ela caiu em si e parecia se lembrar que eu era a garota que de quem sua filha costumava ser babá. "Eu não deveria estar dizendo tudo isso para você", disse ela. Eu não poderia discordar. Eu a fiz prometer que ela não se mataria.
"Você não precisa se preocupar," ela me tranquilizou. "Eu vou ficar bem. Foram duas semanas realmente ruins, mas eu vou ficar bem. Minha vizinha logo vai chegar em casa do trabalho. Eu vou vê-la."
Eu sabia que ela não estava sendo sincera. Há uma enorme distância entre estourar os próprios miolos e sair para visitar uma vizinha, e eu tinha certeza que a nossa conversa não tinha mudado em nada a situação. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, então eu disse: "Vou dizer a minha mãe para ligar para você quando ela chegar em casa."
- Não ligue para ela - disse ela. "Não incomode sua mãe. Eu vou ficar bem."
Desliguei o telefone e apaguei completamente essa conversa da minha cabeça, tanto que quase esqueci de mencionar o que aconteceu à minha mãe quando ela voltou de férias, e quando eu contei, me peguei experimentando uma espécie de delicadeza e vergonha que impediu qualquer menção da espingarda.
Desconfio que nem mencionei a ameaça de suicídio. Não me lembro bem, mas me imagino dizendo que sua amiga parecia infeliz.
O esquecimento retorna
Lembrei desse incidente apenas recentemente, quando estava em uma sessão com uma cliente que me contava sobre como ela faria para comprar uma arma e atirar em si mesma.
Essa cliente, agora na meia-idade, tem sido suicida em diferentes graus desde que ela tinha dezesseis anos, então seus pensamentos não eram novos, mas o método que ela estava propondo era muito mais letal do que qualquer coisa que ela tinha considerado antes.
Em um certo nível, eu estava trabalhando duro para avaliar a sua segurança imediata e elaborar um plano. Em outro, eu estava ciente de que eu estava me sentindo estranhamente desajeitada, desconectada e envergonhada.
Eu sabia que estava irritada com ela, também estava ansiosa. Ela é tímida, enganadora, desafiadora - uma maneira dela me provocar com o drama de sua morte, um drama que ela vem elaborando com carinho durante décadas, uma narrativa em que seu ato explosivo final de raiva insensibiliza todos os que a conhecem.
É uma história que ela cuida como se fosse um animal de estimação amado e mimado, mas que também a assusta, e eu descobri ao longo dos anos que ela é facilmente desviada por pequenos gestos de empatia da minha parte, ou que ela insere suas próprias táticas de protelação, como a necessidade de um vestido bonito para o funeral, ou seu plano para ser persuasiva quanto ao propósito de obter uma arma de fogo ao solicitar a autorização.
O que ela não fará é explorar como essa história serve a si mesma, quais são os propósitos dessa história em sua vida, o que ela ajuda a evitar.
Eu me esforço para encontrar algum caminho para esta conversa, mas como muitas vezes acontece, meu próprio pensamento fica enuviado por ansiedade, raiva e o estranho sentimento de vergonha. A única questão que pareço ser capaz de articular claramente para mim é: "Será que ela vai se matar agora?"
Eu acredito que ela não iria, e extraio uma promessa. A promessa vem com facilidade, quase com facilidade demais, e provoca um novo desconforto: me preocupo que ela esteja mentindo porque, depois de muitos anos de experiência, ela sabe o que aconteceria se reconhecesse um plano ativo. No final, entramos em contato com seu marido juntas, e depois a deixo ir embora.
E quando ela sai, eu esqueço completamente - não sobre ela, mas sobre seus pensamentos de suicídio. Na nossa próxima sessão, felizmente antes de eu ter uma chance de revelar meu esquecimento, ela me lembra, mas eu me esqueço de novo de qualquer maneira.
Ou talvez esquecer não seja exatamente a palavra certa. Apenas parece que some da minha mente.
Começo a ter pequenas conversas defensivas comigo sobre este esquecimento. Talvez, eu digo a mim mesma, seja porque eu não estou realmente preocupada. Ela tem feito isso há mais de 30 anos. Ela não pode viver em um hospital. Mas então eu me preocupo com o fato de que eu deveria estar mais preocupada. E então isso some da minha mente novamente, até a nossa próxima sessão.
Claro que é difícil para todos nós clínicos a ideia de pensar em clientes suicidas.
É assustador.
Trata-se de um ato triste, hostil e violento, no qual perdemos muito em muitos níveis: o mais importante é o nosso cliente, mas também a autoestima, a autoconfiança e a reputação profissional.
Temos medo de perder nosso sustento se falharmos com esses clientes. Tememos a culpa de nós mesmos e dos outros. Optamos por não pensar nisso de muitas maneiras, inclusive recorrendo imediatamente à hospitalização como forma de garantir não só a segurança física de nossos clientes, mas também nossa própria segurança emocional. Insistimos em contratos de segurança antes de explorar profundamente o cliente.
Encontramos desculpas e os meios para nos livrarmos delas.
Nós nos apressamos para fazer os curativos antes que tenhamos a coragem de examinar a ferida, colocamos curativos em lesões tão profundas que temos medo de ver.
Aumentamos os medicamentos, afrouxamos os limites, temos medo de fazer perguntas, exigimos respostas que queremos ouvir. Com aqueles que fazem ameaças crônicas, podemos nos tornar impacientes e irritados.
Algumas dessas ações são, naturalmente, por vezes necessárias e desejáveis. Mas muitas vezes o que estamos sentindo em primeiro lugar e acima de tudo é a necessidade de colocar uma grande distância entre nós e o pensamento de suicídio de um cliente.
Esses sentimentos intensos e evasões são comuns de uma forma ou de outra, uma vez ou outra, a todos nós como clínicos, e certamente, neste caso, eles faziam parte de mim, mas eu estava começando a suspeitar que, para mim, poderia haver algo mais chegando também.
As raízes do esquecimento
Na superfície, parecia óbvio. A família do meu pai trabalhou muito para esquecer o suicídio do meu avô. Essa questão dramática, no entanto, parecia tão longe da minha experiência direta que eu não tinha certeza se eu poderia ligá-la de alguma forma ao que eu estava percebendo sobre meus sentimentos e comportamento com a minha cliente.
Por outro lado, parecia arriscado supor que minha própria experiência pessoal indireta com o suicídio era irrelevante, então dei atenção a esse ponto.
Meu avô enforcou-se quando meu pai tinha quatro anos, e minha avó fez tudo que podia para apagar cada lembrança dele.
Eu sei várias coisas sobre o meu avô que eu tenho certeza se são verdadeiras. Ele transportava bebida ilegal na Pensilvânia durante a lei seca e levou grupos grandes como os irmãos Dorsey aos hotéis locais e aos clubes noturnos. Eu vi apenas uma fotografia dele, era um homem de ombros largos, de cabelos escuros, de pé ao lado do meu pai aos três anos em um cavalo de carrossel.
Logo que minha avó morreu eu fiz uma busca em sua casa por evidências de sua vida. Quando encontrei uma pilha de álbuns de fotos no armário de um quarto de visitas, pensei que tinha encontrado um tesouro! Acontece que em cada uma das fotos, ela tinha rasgado as imagens do meu avô, deixando os outros em pé e sorrindo na frente de prédios e carros.
Minha avó mentiu sobre a morte de seu marido por mais de 30 anos, alegando que ele tinha morrido de uma variedade de doenças improváveis, incluindo problemas nas costas.
No entanto, seus sentimentos de abandono, raiva e vergonha eram palpáveis para todos que a conheciam.
Mesmo depois de ter admitido a verdadeira causa de sua morte, suas explicações eram desorganizadas e estranhas, e para mim, sempre chegavam em segunda mão. Em uma versão meu avô estava em um hospital psiquiátrico e tinha o que chamamos agora de transtorno bipolar. Em outra, menos provável, mas ainda assim a minha versão preferida, ele também estava em um hospital, mas possivelmente se escondendo dos mafiosos que o mataram.
Não há ninguém que saiba o que realmente aconteceu com meu avô, ou que realmente consiga adivinhar o porquê.
Como na brincadeira do telefone sem fio para crianças, as histórias que eu ouvi são provavelmente distorcidas além do reconhecimento de sua fonte original, pois elas foram sussurradas por quase um século. Até mesmo minha própria memória é confundida por distorções e imagens estranhas e inexplicáveis.
Eu me lembro com clareza cristalina, por exemplo, do meu pai dirigindo e dizendo que meu avô provavelmente teve um caso com uma das irmãs mais velhas de minha avó. Lembro de ver as cores da janela do lado do passageiro, da Nova York rural no outono: os campos amarelados, a casca da árvore escura com chuva, as folhas marrons e secas, notas de lavanda e vermelho, o verde constante das coníferas. Havia apenas um pouco de cinza na barba do meu pai.
Lembro de não apenas imaginar, mas conhecer, lembrar, a irmã mais velha de cabelos escuros que eu nunca conheci. Imaginei ela especificamente. Eu podia vê-la pendurando as roupas em um dia quente com seu vestido florido. Eu podia ver a intensa sensualidade da costura de suas meias arrastadas ao longo de suas panturrilhas finas, da sua saia até seus sapatos de salto quadrado.
Mas meu pai está perplexo com a minha memória desta conversa e não tem nenhuma lembrança de tal caso. Por que eu imaginei isso? Por que ele esqueceu?
Eu me lembro de outra brincadeira de crianças, onde uma criança desenhava uma cabeça e dobrava o papel para que o desenho não pudesse ser visto, outra desenhava os braços e dobrava sua parte, outra as pernas, outra os pés. Uma vez desdobrado, uma figura é revelada, um retalho louco de fantasias. Este é o meu retrato do meu avô.
Ele é para mim essencialmente fictício, sua única realidade na minha vida é a sombra que ele lançou sobre aqueles que ele escolheu para deixar para trás. No entanto, penso que nestes momentos estranhos - com a amiga de minha mãe ou com minha cliente - percebo mais alguma coisa que meu avô deixou comigo.
Ele vive comigo na minha lealdade irracional e herdada da minha avó, que exigia que meu pai nunca se lembrasse, nem sequer tentasse se lembrar, de seu pai.
Ele está comigo quando as palavras de minha cliente obedientemente caem da minha mente.
Na família do meu pai, é um ato de lealdade apagar minha memória e enterrar minha raiva e medo. Mesmo que ele tenha morrido 20 anos antes de eu nascer, a minha própria memória de meu avô é constante e precisa:
Eu me lembro dele por tê-lo esquecido.
Consciência e Lembrança
Como acontece com bastante frequência na terapia, é difícil ter certeza de que foi essa mudança sutil e interna na consciência que eu experimentei ao pensar em minha incapacidade de manter na minha cabeça o suicídio da minha cliente, que tenha produzido uma mudança.
O papel do terapeuta com relação ao autoconhecimento e autoconsciência no decorrer da terapia é realmente imensurável, em ambos os sentidos da palavra.
Certamente, não é algo que seja facilmente quantificado e certamente também são uma fonte de crescimento duradouro e profundo para nós mesmos e para nossos clientes.
Eu sei que se tornou mais fácil de superar minha raiva, medo e negação quando meu cliente é suicida, e isso criou uma mudança na qualidade de nossas conversas sobre isso. Estamos menos focados no gerenciamento e mais focados no significado. Normalmente, quando terminamos com um plano de segurança, ele se torna desnecessário, mais um adendo do que uma peça central da nossa conversa.
Entre as sessões, não me esqueço de como ela estava se sentindo. Sei que me sentirei profundamente zangada, triste, traída e, sim, culpada, se ela se matar um dia, mas aconteça o que acontecer, não será porque eu deixei essa possibilidade fugir da minha mente.
Ela ainda se apega à sua fantasia de se matar, mas há algum tempo fala disso não como um plano, mas como um sentimento. "Estou me sentindo suicida" para ela já não é uma ameaça de ação imediata, mas uma descrição do desespero.
Como parceiros em uma dança, nós nos separamos do concreto para o simbólico, pois eu substitui o ato concreto de esquecimento pelo engajamento e pela curiosidade.
*Este artigo foi traduzido e publicado com autorização do site original, desde que fosse citada a fonte, a versão original pode ser vista aqui.
