Gosto de pensar que empreender é crescer nos fundamentos de quem somos, buscar nossas raízes e seguir nossas rotas, nossos caminhos. E neste sentido, empreender não é apenas “ter seu próprio negócio”, como é tão divulgado por aí...
Aliás, nem é preciso ter uma empresa para que você seja um empreendedor!
Empreender é ter a atitude de tomar as rédeas da sua vida e direcioná-las no caminho do seu coração. É dividir sua paixão e sua essência com o mundo. Você pode ser uma pessoa empreendedora mesmo sendo funcionário de alguma organização ou até sendo um (a) dono (a) de casa.
Se você coloca em ação os seus talentos de encontro com a sua essência e se responsabiliza por isso, você é uma pessoa verdadeiramente empreendedora!
Mas em geral, quando falamos em empreendedorismo, pensamos mesmo em um negócio, afinal estamos vivendo a era da economia criativa. Ou seja, os negócios e carreiras dependem da criatividade das pessoas. Cada vez mais, as pessoas estão transformando seus talentos e paixões em ideias de negócio e vivendo delas. São os chamados empreendedores criativos.
Pessoas que querem viver fazendo aquilo que amam e lucrando com isso!
Pessoas que estão quebrando a dicotomia dinheiro X prazer... Agora é dinheiro & prazer! Em outras palavras, ser empreendedor criativo é somar o que você é, com o que você ama, o que você sabe, o que você viveu, o que você aprendeu e quem você conheceu, para gerar resultados financeiros. Parece um sonho, não é?
Mas a ciência comprova que este sonho é possível.
Hoje sabemos que não é o sucesso e o dinheiro que trazem felicidade e sim o contrário. Várias pesquisas da Psicologia Positiva realizadas nos principais centros de excelência do mundo mostram que a felicidade é um preditor do sucesso. Ou seja, são as pessoas mais felizes é que são mais bem sucedidas.
A chave está na felicidade, no bem-estar pleno.
E uma forma importante de melhorar o bem-estar, é colocar em prática nossas forças, virtudes e talentos. De acordo com as pesquisas da Psicologia Positiva, quanto mais você usa suas forças e virtudes em seu trabalho, por exemplo, maior a probabilidade de você se sentir realizado, além de ser mais bem sucedido.
Seligman e Peterson (2004), renomados pesquisadores da Psicologia Positiva, realizaram uma extensa pesquisa para identificar virtudes e forças de caráter que fossem universais, ou seja, presentes em todas as culturas e ao longo da história. O resultado da pesquisa foi publicado no livro “Character Strenghts and virtues: a handbook and classification”, e apresentou 24 forças pessoais, agrupadas em 6 virtudes principais, descritas a seguir.
Quando Seligman e Peterson (2004) revisaram as obras clássicas sobre virtude e bondade humana em diferentes religiões, culturas e filosofias, descobriram fortes paralelos em todas as grandes obras. Além disso, perceberam que existem seis abrangentes categorias de virtudes, a saber:
Segundo os autores, tais virtudes são parte da natureza humana e contribuem para o desenvolvimento de nossas competências.
Após o levantamento e sistematização das virtudes, Seligman e Peterson (2004) buscaram responder ao questionamento de quais as características que um ser humano deveria ter para conquistar tais virtudes. Chegaram a 24 forças de caráter, descritas e classificadas de acordo com sua virtude, a seguir¹:
1. Sabedoria e Conhecimento:
1.1 Criatividade (originalidade, engenhosidade): pensar em maneiras novas e produtivas de conceituar e fazer coisas; inclui conquistas artísticas, mas não se restringe a elas.
1.2 Curiosidade (interesse, busca pelo novo, abertura a experiências): Ter interesse em experiências em curso por si só; encontrar assuntos e temas fascinantes; explorar e descobrir.
1.3 Critério e Mentalidade aberta (pensamento crítico): considerar todos os aspectos e examinar todos os lados de uma situação; não se precipitar a uma conclusão; ser capaz de mudar de opinião ao verificar novas provas; analisar as provas de forma justa.
1.4 Amor ao aprendizado: Dominar novas habilidades, temas e conhecimentos, seja sozinha ou formalmente; esta força está relacionada à força da curiosidade, mas vai além desta para descrever a tendência de sistematicamente complementar o que a pessoa conhece.
1.5 Perspectiva (sabedoria): Ser capaz de dar conselhos sábios aos outros, ter formas de olhar o mundo que fazem sentido para si e para os outros.
2. Coragem
2.1 Bravura (valentia): Não recuar ao enfrentar uma ameaça, desafio, dificuldade ou dor; defender o que é certo mesmo que haja oposição; atuar de acordo com suas convicções mesmo se elas forem impopulares; inclui bravura física, mas não se restringe a ela.
2.2 Perseverança (persistência, diligência): Terminar o que começou, persistir em uma linha de conduta apesar dos obstáculos; finalizar uma ação quando entender que está pronta; ter prazer em completar tarefas.
2.3 Integridade (autenticidade, diligência): Falar a verdade, porém de uma forma mais ampla, apresentar a si mesmo de forma genuína e agir com sinceridade; ser sem fingimento; assumir responsabilidades por seus sentimentos e ações.
2.4 Vitalidade (entusiasmo, vigor, energia): Encarar a vida com animação e energia; não fazer as coisas pela metade ou sem vontade; encarar como se fosse uma aventura; sentir-se vivo e ativo.
3. Humanidade
3.1 Capacidade de amar e ser amado: Valorizar relações próximas com os outros, especialmente com aqueles que retribuem o carinho e o compartilhamento; ser próximo às pessoas.
3.2 Generosidade (bondade, cuidado, compaixão, amor altruísta, inteligência pessoal): Fazer favores e boas ações para os outros; cuidar deles, ajuda-los.
3.3 Inteligência Social (inteligência emocional, inteligência pessoal): Estar ciente dos motivos e sentimentos das outras pessoas e de si mesmo; saber o que fazer para se adequar a diferentes situações sociais; saber o que fazer para que as outras pessoas se interessem por uma determinada coisa.
4. Justiça
4.1 Trabalho em equipe (cidadania, responsabilidade social, lealdade): Trabalha bem como membro de um grupo ou time; ser leal ao grupo, fazer sua parte.
4.2 Justiça: tratar as pessoas da mesma forma de acordo com noções de justiça e equidade; não permitir que sentimentos pessoais interfiram em decisões sobre os outros; dar aos outros uma chance justa.
4.3 Liderança: Encorajar um grupo do qual se é membro a “por a mão na massa” e, ao mesmo tempo, manter boas relações com o grupo; organizar atividades em grupo e assegurar-se de que elas aconteçam.
5. Temperança
5.1 Perdão e Misericórdia: Perdoar aqueles que erraram, aceitar as deficiências dos outros, dar aos outros uma segunda chance; não ser vingativo.
5.2 Humildade e Modéstia: Permitir que as suas realizações falem por si; não se considerar mais especial do que é.
5.3 Prudência: Ser cauteloso em suas escolhas; não assumir riscos desnecessários; não dizer coisas das quais possa se arrepender depois.
5.4 Autocontrole: Regular o que sente e faz; ser disciplinado, controlar seus apetites e emoções.
6. Transcendência
6.1 Apreciação da Beleza e da Excelência (admiração encantamento, engrandecimento): Perceber e apreciar a beleza, excelência e/ou desempenhos habilidosos nas mais variadas esferas da vida, desde a natureza à arte, à matemática, à ciência ou à experiência cotidiana.
6.2 Gratidão: Estar ciente e agradecido pelas coisas boas que acontecem; arranjar tempo para sentir e dizer obrigado.
6.3 Esperança (otimismo, atenção mental ao futuro, orientação para o futuro): Esperar o melhor para o futuro e trabalhar para conseguir realizá-lo; acreditar que um om futuro é algo que pode ser provocado.
6.4 Humor (graça): Gostar de rir e provocar; fazer os outros sorrirem; ver o lado positivo das coisas; fazer (não necessariamente contar) piadas.
6.5 Espiritualidade e Religiosidade (fé, propósito): Ter crenças coerentes sobre o propósito maior e o significado do universo; saber que faz parte de algo maior na vida; ter crenças sobre o significado da vida que o conduz e o conforta.
É importante ressaltar algumas características das forças de caráter:
Cientistas criaram um inventário (VIA Inventory) para medir as forças que compõem a Classificação VIA. Trata-se de um questionário de auto-relato para medir os “tijolos” para a construção de uma vida melhor. Por se tratar de um auto-relato, este questionário é passível de manipulação, e portanto não deve ser usado para classificar pessoas para um trabalho ou carreira.
O propósito do questionário é ser uma ferramenta de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
Se você quiser conhecer as suas forças de caráter, faça o questionário gratuitamente pelo link: http://renatalivramento.pro.viasurvey.org.
Você conhecerá as suas 24 forças de caráter em ordem decrescente (ou seja, da mais forte para a menos forte) em sua vida. As cinco primeiras forças são consideradas suas forças de assinatura, ou seja, aquelas que melhor te caracterizam. Entretanto, não é apenas a ordem em que as forças aparecem que importa, é importante que você se reconheça nelas.
Para isso, responder a algumas perguntas pode lhe ajudar:
Também é importante dizer que o questionário não mede fraquezas ou traços negativos, pelo contrário, todos os construtos medidos são positivos. Portanto, se uma determinada força de caráter sua ficou em 23º ou 24º lugar, isto não quer dizer que esta é uma fraqueza sua; e apenas que existem outras forças que você utiliza mais e te caracterizam melhor.
Existem muitas maneiras de trabalhar com suas forças de caráter na prática do empreendedorismo, e não há uma regra de ouro ou um padrão a se buscar. Mas algumas abordagens podem lhe ajudar a se conhecer e se compreender mais profundamente, e isto é, sem dúvidas, um importante passo para que você de fato empreenda a sua essência.
E se assim for, grande são as chances do seu empreendimento ser um sucesso! Na verdade para que um empreendimento seja um sucesso não é necessário apenas estar de acordo com seu propósito e sua essência, questões relacionadas à gestão do negócio são também muito importantes, mas aqui estamos focando neste primeiro passo.
Uma destas abordagens é o modelo “Conscientizar- Explorar- Aplicar” (Aware-Explore-Apply), usado para apreender 3 processos centrais no trabalho com as forças de caráter:
Apenas para efeito de ilustração, vamos supor que você seja uma pessoa cujas forças de caráter com as quais você mais se identifica sejam criatividade, amor ao aprendizado, curiosidade e trabalho em equipe.
Você decide, então, que vai empreender suas forças em um negócio de cursos e treinamentos, afinal você sempre gostou de estudar, aprender coisas novas, e ensinar (forças: amor ao aprendizado e curiosidade). Você fica muito feliz com isso, mas ainda sim está travado e não sai do lugar.
Após fazer uma análise mais profunda de suas forças, você percebe então que sua força de trabalho em equipe pode lhe ajudar a realizar seu objetivo, e por isso você faz algumas parcerias interessantes para seu negócio. Mas ainda sim você não está satisfeito, e não sabe bem por que.
Após um processo de Coaching Positivo, você finalmente entende que a sua força da Criatividade está sendo sub-utilizada neste negócio que você está querendo desenvolver. E aí então tudo se encaixa, e com a ajuda de seus parceiros você cria um negócio de inovação tecnológica para facilitação da aprendizagem, e você se sente pleno e realizado, pois suas forças se encaixaram em algo realmente significativo para você!
É claro que para este negócio sair do planejamento e virar realidade, muitas outras forças e habilidades serão necessárias, mas há uma grande possibilidade deste negócio ser um sucesso pois ele está alinhado com sua essência e seu propósito, e você ficará cada vez mais feliz ao se empenhar em realizá-lo.
Há muitas maneiras de você empreender o que você tem de melhor. E acredite, todo mundo tem algo para partilhar com os outros! Algo que faça seus olhos brilharem e que pode ser bom para outras pessoas também. E sendo bom para você, fazendo o seu coração bater forte e seus olhos brilharem de alegria e entusiasmo, você irá contagiar outras pessoas que se identificarão com sua mensagem e seu propósito.
Portanto, se você quer empreender em um caminho com coração, coloque suas forças para trabalhar para você!
¹Fonte: VIA PRO- Character Strengths Profile: Practitioner's Guide.
Cada vez mais a psicologia tem se posicionado como uma ciência não apenas capaz de “tratar” as pessoas, mas também de ajuda-las a tornarem-se “a melhor versão de si mesmas.” O IBRPP - Instituto Brasileiro de Psicologia Positiva tem a missão de disseminar os conhecimentos científicos da Psicologia Positiva tanto do ponto de vista teórico quanto prático.