A Dor é Inevitável, mas o Sofrimento Sempre Será Opcional - ACT, a Terapia de Aceitação e Compromisso

Escrito por Academia do Psicólogo | Jul 4, 2016 4:01:00 PM

A primeira informação que você terá acesso ao buscar algum material a respeito da ACT, possivelmente será:

Conhecida no Brasil como Terapia de Aceitação e Compromisso, ACT significa Acceptance Commitment Therapy pronunciada como uma única e sonora sigla e não A-C-T com suas letras separadas. Suspeito que o reforço dessa informação possa ter partido do seu próprio idealizador, tendo criado algo tão genial, com tanto amor e carinho e cansado de escutar as pessoas dizendo “eicítí” ou “acêtê” como no caso do Brasil.

Atenção: A informação contida acima talvez não tenha a menor relevância e nenhum rigor científico. Contudo, acredito que assim que vocês se familiarizarem com o assunto, talvez comecem a defender a pronúncia correta da mesma forma que quando alguém pronuncia o nome do seu sobrinho querido incorretamente.

Decidi dividir o material a respeito desse tema em texto e vídeo, basicamente por em pouco tempo de estudo perceber que trata-se de uma abordagem que precisa ser vivenciada para o mínimo de compreensão. Desse modo, apenas escrever ou apenas gravar o vídeo me deixaria com a sensação de um conteúdo incompleto, ainda que eu já tenha a certeza de que é pouco provável que eu consiga abordar toda a riqueza da ACT nesse material introdutório.

Essa é efetivamente nossa primeira surfada nas Terapias de Terceira Onda!

E antes de tudo, gostaria de esclarecer que nada do que dissermos a respeito dessas fontes de conhecimento que é tão rica, invalida o interesse ou o conhecimento relacionado a Terapia Cognitivo Comportamental ou qualquer outra abordagem que você venha se dedicando a estudar.

Afinal, a proposta desse nosso espaço é abordar tanto a TCC quanto as Terapias Contextuais ou Terceira Onda e vocês não fazem ideia como buscar novos caminhos pode facilitar a jornada de um terapeuta.

Essa foi uma imagem apresentada pelo Presidente da ACBS – Association for Contextual Behavioral Science durante um curso que participei e que melhor representa tudo (até o momento) que essas áreas de conhecimento têem a nos oferecer. Só por ela já dá para entender que assunto por aqui não vai faltar né? (Thanks Mike!)

Há quem compreenda a Terceira Onda ou as Terapias Contextuais como um conjunto de ferramentas, mas também que faça o uso delas como abordagens completas e independentes, visto que o volume de pesquisas mundo a fora não para de crescer. O que precisa ficar claro é que o horizonte de possibilidades que são oferecidas é capaz de agradar de Behavioristas e Psicanalistas Gregos e Troianos.

Mas voltamos ao nosso ponto de partida: a ACT!

A ACT foi criada em 1987 por Steven Heyes e seus colaboradores e tem como base teórica a RFT – Relational Frame Theory ou Teoria das Molduras Relacionais. Confesso pra vocês que primeiro acabei aprendendo ACT para só depois entender um pouco melhor a RFT, então apesar de ser um tema muito relevante vou dar apenas uma pincelada para que possamos explorar a ACT ao máximo.

Juro que se os pedidos começarem a pipocar nos comentários me dedico a escrever um conteúdo apenas sobre ela, até lá, procurem o capítulo 6 deste livro.

De maneira geral, a RFT pode ser definida como um conjunto de conhecimentos e reflexões derivadas da pesquisa empírica que se dedica a explicar os fenômenos da linguagem e da cognição.

Trocando em miúdos, é ela quem nos ajuda a compreender nossa eterna mania de classificar tudo como bom ou ruim, melhor ou pior, maior ou menor e o motivo de as pessoas serem capazes de responder a estímulos como pensamentos e emoções sem a presença física do evento ao qual eles estejam relacionados.

O Cachorro Quente de Júlia

Júlia decidiu lanchar em um carrinho de cachorro quente que fica próximo de sua casa e acabou abusando de uma grande quantidade de maionese que posteriormente lhe ocasionou um mal-estar.

Depois desse evento, Júlia não consumiu mais as maioneses que estavam na dispensa de casa e que haviam acabado de serem compradas.

Em outras oportunidades, comidas vendidas na rua e que nunca lhe fizeram mal passaram a não ser consumidas pelo simples fato de estarem próximas de uma placa que tinha escrita a palavra "maionese" em função do medo de adoecer novamente e pasmem, a menor menção da palavra "maionese" já era capaz de lhe causar enjôo uma vez que rememorava todo o acontecido.

Maionese e tentadores Food Trucks passaram a não ser mais uma opção de alimentação para Júlia pois em relação a qualquer outra opção de alimentação essa acabava sempre sendo classificada como a pior entre as opções.

Na cabeça de Júlia as coisas funcionavam mais ou menos assim:

E desse modo, aquele pobre cachorro quente seria lembrado por muito tempo como o vilão da história (mesmo tendo Júlia se empanturrado de outras guloseimas ao longo do dia) e a privaria de várias outras gostosuras temperadas pela falta de higiene que só a comida de rua pode oferecer.

Atenção! Pesquisas indicam que essas iguarias são grandes responsáveis pela criação de anticorpos e a manutenção de nossa imunidade. Não deixe de comer!

A história de Júlia é apenas uma ilustração simplificada de como o ser humano é capaz de se comportar diante de símbolos da mesma maneira como comportariam se estivessem frente a frente ao possível causador de todo o mal estar.

A isso, a RFT dá o bonito nome de: Responder Relacional Arbitrariamente Aplicável.

Sendo assim, as molduras relacionais poderiam ser compreendidas como nossa habilidade de encarar qualquer fato novo a partir de uma moldura previamente desenvolvida por nós mesmos.

Será que agora fica mais fácil de entender porque somos tão resistentes a encarar uma nova paquera cheia de boas intenções depois de termos levado aquele belo pé na bunda?

Tá bom, mas e a ACT?

Estamos quase lá, mas ainda falta introduzir mais uma informação antes de falar da ACT propriamente dita. Acreditem! Por mim eu tinha pulado essa parte introdutória toda, mas logo logo vocês vão perceber como tudo se encaixa e que saber sobre as origens ajuda a entender melhor a Terapia de Aceitação e Compromisso.

Como Teoria dos Quadros Relacionais e como filosofia, a ACT está baseada no Contextualismo Funcional.

Em outras palavras: Considera-se verdade aquilo que funciona e que atende a um objetivo e esse é o primeiro passo para as pessoas compreenderem que o sofrimento não é um privilégio de alguns, mas inerente a toda a espécie humana. Tá todo mundo lascado em maior ou menor medida.

Para a ACT, a psicopatologia ou o sofrimento é um produto da Inflexibilidade Psicológica.

Se nos portamos com aceitação diante do nosso sofrimento (o que nada tem a ver com resignação) sem aplicarmos nele o peso que a linguagem é capaz de oferecer através de associações, estamos abrindo caminho para agirmos com compromisso em direção a nossos propósitos e à aquilo que faz com que nossas vidas realmente valham a pena.

De forma bem simples, sofrer o fim de um relacionamento pode ser perfeitamente funcional e é isso que nos impede (quase sempre) de terminar um relacionamento na terça de carnaval e sair em busca de encontrar alguém para dizer eu te amo até o meio dia da quarta-feira de cinzas. Precisamos colocar a casa em ordem para não repetir os mesmos erros do relacionamento anterior.

Em contrapartida, podemos ter um grande problema ao revivermos todo esse sofrimento diante de toda e qualquer nova manifestação de amor que nos depararmos pela frente e é aí que a Terapia de Aceitação e Compromisso pretende agir.

Se você deu o baita azar de colocar a mão em cima do fogão quente, sentir dor é algo fundamental para que você, em fração de segundos, retire a mão dali antes de que algo mais sério aconteça e reduza drasticamente as possibilidades de que esse incidente se repita.

A ACT surge como uma ferramenta poderosa e ao mesmo tempo muito sutil e que nos ajuda a compreender que sem a dor, a raiva, o medo, a tristeza não teríamos avançado tantos degraus na escada da evolução das espécies e acabaríamos com as mãos totalmente carbonizadas cada vez que nos descuidássemos com o uso do fogão.

A Faxina de Carlos e Flávia

Em se tratando de sofrimento, um primeiro passo é separar o joio do trigo ou os “sofrimentos limpos” dos “sofrimentos sujos” e ninguém melhor pra ajudar a entender isso que um cãozinho de estimação e uma esposa enfurecida.

Durante uma daquelas longas e intensas faxinas de sábado, Carlos e sua esposa Flávia decidiram colocar a casa em ordem. Carlos que havia se dedicado exaustivamente a carregar caixas por toda a manhã achou que seria justo tirar uma soneca consensual após o almoço, enquanto Flávia se propôs a cuidar do Jardim sob os olhares atentos de Bob, o cachorro do casal.

O que Carlos não contava era que o inocente e merecido descanso em seu quarto à portas fechadas ao som de Betthoven culminaria com uma terrível tempestade que não só atrapalharia os planos de Flávia com o jardim, mas que bateria a porta da casa com tanta força que deixaria Bob e Flávia presos do lado de fora e totalmente ensopados, afinal ele havia se esquecido de ligar para a empresa que faria a instalação dos toldos.

Quinze minutos se passaram até que Carlos acordasse com os trovões e se desse conta de que o restante da família não estava por perto. Enquanto Bob sem a menor preocupação entrava em casa respingando água por todos os lados tentando se secar, Flávia permanecia encharcada no meio da sala e parecia soltar fogo pelas ventas, dificultando inclusive a compreensão de estar tão molhada.

Por que reações tão distintas vindas de dois personagens sujeitos as mesmas condições desagradáveis?

A resposta é simples: Bob como a maioria dos outros animais não possui a capacidade de julgar Carlos como alguém sem consideração e incapaz de ajudar a esposa com as atividades do jardim.

Afinal, se ele tivesse ficado ao lado dela, se lembrado do toldo, escutasse o som um pouco mais baixo e não fosse sempre tão distraído como naquele dia que deixou Flávia esperando por quase 1 hora por não saber onde estavam as chaves do carro há 12 anos atrás, exatamente na primeira semana do namoro, nada disso teria acontecido.

Bob e Flávia foram submetidos as mesmas “emoções limpas” presentes no desconforto da tempestade que iria molhar a ambos, mas que também para ambos seria transitória. Apenas Flávia possuía o domínio da linguagem capaz não apenas de auxiliar o ser humano em seu processo evolutivo, mas de avaliar, remoer, comparar e deixar que fatos concretos se associem a situações desconfortáveis que já foram vividas ou que podem estar por vir permitindo um ser humano reviver uma situação problemática antiga como se ela estivesse acontecendo novamente, bem ali, diante de seus olhos.

Resumidamente a ACT busca atuar em duas questões principais:

Possuímos uma tendência natural de evitarmos situações que possam nos causar algum desconforto e até aí tudo bem! O problema é quando essa evitação começa a ganhar uma proporção tão grande que leve as pessoas a evitarem juntamente com seus desconfortos, coisas que dão um real sabor a vida, como os cachorros quentes na vida de Júlia ou as tardes de cuidado com o jardim de Flávia.

E isso é o que a ACT chama de esquiva experiencial.

Outro ponto está na nossa necessidade maluca de querer controlar tudo! Você por algum momento na vida se deu conta de que é humanamente impossível não pensar em alguma coisa e que não pensar em algo é colocar algo exatamente em evidência? Não? Então tente esse exercício.

Qual seu prato favorito? O meu é feijão tropeiro (com dois ovos fritos em cima por gentileza!)

Gostaria que agora você fechasse os olhos e não pensasse no seu prato favorito... Que você não pensasse no sabor e no prazer que essa refeição pode lhe oferecer... Que você não se lembrasse da última vez em que você consumiu essa iguaria...

E aí conseguiu?

Não!

E não tente me enganar porque eu poderia ter proposto esse mesmo exercício pedindo que você tentasse não pensar em um elefante andando em uma corda bamba que você certamente teria imaginado algo muito parecido com essa simpática criaturinha aqui.

Ok pessoal! Eu confesso... Pra mim, falar de ACT é um grande desafio! Primeiramente porque é tudo relativamente muito novo aqui no Brasil, mas principalmente por ser um assunto denso e não tão fácil de resumir em tão poucas palavras.

Falar de ACT é falar de Mindfulness, é falar dos seis lados do hexágono da flexibilidade, é falar de metáforas, de desesperança criativa e principalmente falar de uma forma de ser Terapeuta que se tornou um grande divisor de águas na minha atuação clínica, mas que é um imenso prazer!

Por isso, estou apenas esperando vocês enxerem o campo de comentários com pedidos e curiosidades sobre o assunto para que eu comece o próximo texto.

Fica aqui um convite que é também do livro base da Terapia de Aceitação e Compromisso:

Saia da sua mente e entre na sua vida!

AUTOR

WESLLEY CARNEIRO

weslleycarneiro@gmail.com - @wcarneiropsi

‍Psicólogo de formação
‍♂️Psicoterapeuta #ACT e #Mindfulness por paixão
Mineiro idealista e idealizador do @netmet.psi