Nesse vídeo, recebemos a visita da Psicanalista Camila Terra, que é membro do CEP de PA - Clínica do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, para tentarmos esclarecer algumas diferenças básicas entre a Psicoterapia Psicanalítica e a Psicanálise.
Falamos sobre alguns pontos que mais nos salta aos olhos, expusemos algumas ideias e nossos próprios questionamentos.
Juliana Olá, a gente tá começando mais um Fala e Me Mais sobre isso. Hoje a Letícia não tá entre nós, porque tá de férias, né? A gente tá aqui porque alguém tem que trabalhar. É, né? Mas a gente tem uma convidada especial hoje, a Camilla Terra. Ela é psicanalista, ela é membro do CEP de Porto Alegre. E ela tá aqui para esclarecer com a gente algumas diferenças entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica, umas questões básicas assim e outras mais.
Andréa Porque às vezes a gente fica na dúvida mesmo, né? Quando tá ainda na faculdade, enfim, mesmo depois, às vezes a gente não entende bem qual é a diferença, assim, né? Da psicanálise no divã, até tá o divã aqui pra se bonejar, e da psicoterapia tradicional.
Camila Pois é, quando eu fiquei pensando sobre esse tema, fiquei me questionando qual que seria a diferença de fato, assim, porque não sei se fica tão claro, nem pra mim, acho que, enfim, é uma questão complexa mesmo. Mas acho que olhando de fora, talvez o que fique mais aparente é a questão do divã e da frequência, né? Porque a psicanálise tem essa ideia de que se usa o divã e que os pacientes vêm em alta frequência, de três a quatro frequências por semana.
Andréa É a primeira coisa que vem mesmo, inclusive, né? Pra gente que trabalha. Eu trabalho com psicoterapia, não sei nem se é certo dizer tradicional, mas enfim, com psicoterapia, com poltrona, frente a frente, e realmente, quando eu penso nas diferenças, é isso que eu penso também, que é o divã e a frequência, pelo menos as principais diferenças.
Juliana É pra falar a verdade, quando o Freud desenvolveu a psicanálise, ele não fazia diferença, né? Foi só com o tempo que as pessoas começaram, os profissionais, depois dele, começaram a ver que tinha algumas coisas específicas que precisavam fazer essa diferença.
Camila E ele começou a usar o divã por uma questão de conforto, né? Pra ele, ele ficava ruim, ficava olhando frente a frente. Mais pra ele do que pra um paciente, né? Ele começou a pedir pras pessoas deitarem. E tem uma questão técnica por trás do porquê que se usa o divã, porque se acredita que a associação livre fica mais fácil de acontecer e que a atenção do atuante, né? Do analista também fica mais fácil. Assim como também tem uma questão técnica por trás da alta frequência. Mas não significa que uma pessoa, um paciente que vem uma vez por semana que senta na poltrona, não esteja fazendo psicanálise.
Andréa Isso não é uma autoridade. Pois é, isso é importante falar, porque assim, parece, às vezes, que, digamos assim, que a psicanálise do divã seria um tratamento mais profundo do que a psicoterapia na poltrona, frente a frente.
Juliana Não.
Andréa E não é.
Juliana Não faz sentido, assim.
Andréa Mas se tem essa ideia, né?
Juliana Que seria mais profundo. Mais profundo, em que sentido será? Eu acho que muito mais, talvez, pela posição que a gente acaba ficando, fica deitado, fica numa posição mais regressiva. Pode passar essa ideia de que tu fica, justamente, mais regressivo.
Andréa De que tu vai trabalhar mais as coisas mais inconscientes, vai conseguir acessar mais isso.
Camila A ideia do divã é que facilite esse acesso, né? Mas, isso depende de pessoa pra pessoa, né? Talvez alguém sentado na poltrona associe muito mais, diferente que alguém que vem 5 meses e está deitado no divã, né? Isso é uma questão de como aquela pessoa foi se construindo, enfim, né?
Juliana É, e às vezes a pessoa começa com a poltrona, passa para o divã, tem pessoas que estão no divã por alguma situação, se afastou, volta para a poltrona e, assim, vai...
Andréa Mas tem gente que não se sente à vontade para ficar no divã, eu imagino.
Camila Tem, aham. Acho que, às vezes, é um trabalho pra que a pessoa vá para o divã. Passa algum tempo pra que a pessoa possa, faz como um ganho da análise, ela poder ir para o divã, né? Porque também tem uma questão de poder se sentir mais seguro quando tem um analista, né?
Juliana E contigo mesmo, eu penso assim, é que às vezes a pessoa chega... É se entregar mais, assim, vai...
Andréa É se entregar mais.
Juliana E vai da pessoa, assim, acho que também das características, assim, porque às vezes o paciente chega buscando um olhar, que às vezes no frente a frente tem muito mais, uma expressão, um feedback, digamos assim, durante a sessão. Na análise, não vai ter.
Andréa Tu não vai saber como é que está a cara do terapeuta, né?
Camila Na análise no divã, não vai ter.
Andréa Não, na análise no divã não vai ter. Pois é, isso é outra coisa. A gente costuma diferenciar, às vezes, disso, né? A análise, e daí pensa que a análise é no divã, e a psicoterapia, frente a frente. Mas eu acho que o processo analítico...
Camila O entendimento é o mesmo. Sim, eu poderia... Talvez quando a gente pensa isso do divã e da frequência, a gente pensa na atitude do paciente na análise, na sessão, né? Mas a psicanálise está no analista, não é verdade? Exatamente. Não no paciente. E como o analista vai escutar.
Juliana Vai interpretar, vai escutar, vai devolver aquilo ali para o paciente. É verdade. É isso. Acho que é importante a gente poder estar falando sobre isso, porque, às vezes, até pela simples insight, a gente escreve alguns textos, fala de psicanálise, e pode haver essa confusão, assim. Às vezes as pessoas interpretarem de uma maneira errada. Tá, mas está falando de psicanálise ou está falando de psicoterapia? Na verdade, existem algumas diferenças básicas, assim, de técnica, mas, no fundo, o entendimento é o mesmo, assim.
Andréa Pelo menos esse é o teu jeito de pensar, né? É, porque eu imagino que tem profissionais também que defendam, assim, mais a coisa da análise, sendo divã, e de como sendo um processo que aprofunda mais, que é melhor, digamos assim.
Juliana Mas existe, acho, todo tipo de profissional, né? Infelizmente, acho que tem aqueles profissionais que são da psicanálise e abominam qualquer tipo de outra linha teórica, inclusive, falando mal, eu acho que isso aí também é uma questão ética. Tem profissionais da psicanálise que olham com muitos bons olhos a psicoterapia e vice-versa. É muito relativo isso, assim.
Andréa Eu queria te perguntar com relação à frequência, assim. Ok, não precisa sempre ser uma frequência alta, mas o recomendado é que seja uma frequência mais alta. De duas, três vezes por semana, ou não? Eu tô enganada muito.
Camila Eu acho que é uma questão de paciente para paciente, assim. Talvez para uma pessoa, ela poder ir uma vez por semana já seja um ganho muito grande. Porque tu não vai pensar naquele momento e aumentar a frequência dela. Porque isso tem que ser construído em primeiro lugar, assim, como uma dupla ali, né? Mas, claro, eu escutei uma vez de um psicanalista do CEP que disse uma coisa que eu achei muito interessante, assim, que alta frequência é que nem quando tu conhece uma pessoa e tu vê ela uma vez na semana, não que vê ela quatro vezes na semana. É diferente, é diferente. Porque tu conhece mais a pessoa, mas é algo tão simples assim, né?
Juliana A gente estava conversando antes, fazer academia, né? É uma coisa tão básica. Se tu malhar uma vez por semana, teu corpo vai reagir de uma forma. Se tu malhar três, quatro vezes na semana, teu corpo não.
Camila E assim, é com as emoções também, né? Mas talvez alguém com, não sei, agora eu tô reagindo, mas alguém com problema na coluna não possa ir quatro vezes na semana.
Juliana Exatamente. Cheia demais. Cheia demais, né? E que vai ser mais efetivo. Exatamente.
Andréa É bom desmistificar isso, né? Porque eu acho que tem muito mito com relação a essas diferenças das duas coisas, né? Até que ponto também são duas coisas tão diferentes assim, né? Mas eu perguntei da frequência pela questão, assim, de hoje em dia tem uma questão financeira, uma crise, assim, que tá muito difícil os pacientes virem mais vezes. Não é só de ouro, pão, só de resistência. A resistência eu acho que é real, assim, no primeiro ano. E eu ia te perguntar as vezes se os pacientes vêm numa alta frequência.
Camila Vêm, não sei que vêm, mas não quer dizer que não existe uma resistência, que daqui a pouco, né, como a gente tá conversando, a gente se diminuiu a frequência e tudo, assim.
Andréa Mas aceitam? Aceitam numa alta frequência também?
Camila Aceitam, aham. Acho que algo que eu tento até conversar com os meus pacientes é que isso é um investimento também, que de algum jeito vem, se retorna na vida da pessoa, né? Ou ela pode investir mais nela mesma, né?
Juliana Mais olhar pra ela mesma. Camila, a questão da formação do psicanalista, assim, de tempo, né, porque a gente sabe, a gente fala de formação em psicoterapia psicanalítica, quatro anos, tem a questão da supervisão, tem a questão da análise pessoal, como é que funciona pra psicanalista, assim?
Camila Cada escola, cada censo de estudos, né, como é o CEF, tem um formato diferente, assim, então eu não posso falar mais do formato que eu...
Andréa Sim, que tu viveu.
Camila Que eram quatro anos de seminários, né, de formação, supervisão obrigatória e análise recomendável. Não é algo obrigatório, mas se recomenda que o psicanalista que tu te analisa, né? E tem as questões, assim, até porque tu atende na clínica do CEF e tu tem que estar em análise, então acaba tendo algumas regras, assim. E é isso, aí supervisão, uma vez por semana, numa carga horária específica, né, que tem que se fazer dentro daquele que a gente chama de equipe de psicanálise, né?
Andréa Sim, equipe de análise. Mas então, quatro anos.
Camila Quatro anos. E acho que tem outras instituições que o teu foi diferente também. Sim. Mas isso, eu não sei o que é assim.
Juliana E uma coisa que a gente até falou num vídeo anterior sobre a questão de que tem pessoas que se formam e já saem atuando como psicanalistas, né? É complicado isso, né? Sair de uma faculdade...
Andréa Ah, sim, de sair direto da faculdade.
Juliana Não, não, não, não, não. Eu acho que... Não que não possa, mas ao mesmo tempo fica complicado, né?
Andréa A faculdade é muito ampla, né? É. Então, assim, eu penso que uma especialização é fundamental, mas realmente não é uma coisa obrigatória. Mas a gente recomenda, né? Então, o que a gente falou até no vídeo sobre isso é que a gente recomenda, porque é a nossa experiência, assim, também.
Camila Isso é uma questão mesmo. Acho que tem coisas que levam um tempo na vida, assim, né? Tempo pra aprender psicanálise também. Então, a psicanálise é um ofício. Ela passa por... Ela pode, ela abre a possibilidade de ter diferentes formatos de formação, né?
Juliana Legal pra mim.
Camila Sim. A pessoa não é especialista. Não.
Juliana A especialista é em psicoterapia. E o psicanalista não é especialista. Não, ele é psicanalista. Eu sou psicanalista.
Camila Eu sou a única jovem psicanalista. Ah, é? É tudo claro como psicanalista.
Andréa Ah, mas aí por que tem essa diferença? Por que tem o curso de especialização em psicoterapia psicanalítica? E por que na psicanálise é diferente?
Camila Eu posso falar da psicanálise, né? A psicanálise, como ela se pensa como um ofício e como um trabalho que tu tem que ir se construindo ao longo do tempo até tu não ganhar um título. As instituições filiadas à IPA eu acredito que ganham certificado se a gente for psicanalista. Mas as instituições não dão esse certificado. Isso não quer dizer que tu não possa ser considerado psicanalista, né? E não se considere psicanalista.
Juliana Sim, até porque é muito mais... Bom, tu fez toda uma formação, mas é mais interna. Exatamente. Só que é uma interna com formação, né? Ela é interna, saiu da faculdade, eu sou psicanalista, né? Toda uma formação de 4 anos. Então tá, então... Diferenças básicas, assim, que na verdade não existem.
Andréa Será que a gente ajudou ou só confundimos? Só confundimos demais, né? Na verdade, seria o divã, a frequência... Na real, não ficou. Do jeito que a gente conversou, ficou assim, ó... Não tem tanta diferença, sim. Tem algumas diferenças, mas depende muito mais do processo da dupla, da pessoa, do que ah, isso é psicanálise, isso é psicoterapia. É, então basicamente... Eu acho que fica um resumo de que não, né?
Juliana Resumindo, seria o divã, a frequência e a questão da transferência, de avaliar mais a questão da leitura da transferência. Mas, né, a gente sabe que mesmo estando na poltrona, tu pode estar fazendo psicanálise.
Andréa E pode estar deitado no divã e não tá fazendo um trabalho tão profundo.
Juliana É, não tem essa questão.
Andréa Não, é uma regra. É, eu acho que é isso que ficou, né?
Camila O divã e a frequência não são regras. Exatamente.
Juliana Então tá, pessoal, a gente vai ficando por aqui. Muito obrigada, Camila, pela tua presença. Eu espero que a gente tenha conseguido clarear essas diferenças, que não são tão diferenças assim. Se ficaram com alguma dúvida, se não entenderam algum termo, se tem perguntas pra nós, daqui a pouco tem perguntas pra Camila, por favor, nos escrevam. E assim que puder, a gente responde pra vocês. É isso?
Camila Eu agradeço o convite de vocês. Adorei estar aqui com vocês. E isso também, qualquer dúvida, é só perguntar aqui.
Juliana Então tá bom, pessoal, até o próximo vídeo.
Autoras: Simples Insight - Que tal ouvir sobre psicologia e psicanálise de maneira leve, atual e divertida? Que tal aprender também sobre atendimento clínico, supervisão, atendimento online, redes sociais, início de carreira… Pois todos estes temas – e muito outros – serão tratados pelas psicólogas da Simples Insight. É a psicanálise abordada de uma forma mais solta, dinâmica e simples. Acessível para estudantes, profissionais e curiosos de plantão.