Conhecendo melhor essa tal de TCC…

Escrito por Academia do Psicólogo | Jan 30, 2016 10:17:00 AM

Se tem uma coisa que eu aprendi enquanto me graduava em Psicologia e que fez toda a diferença foi que: “Quem fala sempre fala de algum lugar!” e acho que não daria pra começar a falar sobre a proposta desse nosso canal, sem compartilhar um pouquinho de como começou meu relacionamento com esta ciência que hoje orienta a minha prática clínica e me permite alcançar resultados expressivos junto aos meus pacientes.

Sim! Pacientes!

Vai ter gente ficando brava comigo por essa nomenclatura, mas é algo que eu não abro mão #MeJulguem. Sem nenhuma relação com a conotação de doença, mas que afasta da sensação comercial do “cliente” que me incomoda um pouco. Mas essa é só a forma na qual me expresso e que, tecnicamente, não vai afetar em nada nossa relação por aqui.

Um Novo Mundo

Pensa numa pessoa que durante as aulas de “Tópicos em Psicologia Comportamental” se viu desorientado por encontrar algo que era aparentemente mecânico e diferente de TUDO que acreditava até então: Esse era Eu!

E em meio a uma avalanche de porquês e de muitos textos que respondessem aos meus questionamentos, cheguei a uma encruzilhada onde emoções e pensamentos encontravam-se com os comportamentos e dali pra frente saberiam conviver em harmonia:

Voila! Eis a TCC!

Mas por que que eu tô dizendo tudo isso?

Pra tentar diminuir as chances de que outras pessoas que, como eu, se sentiram intimidadas por Watson, Skinner e as incansáveis horas de experimentos com ratinhos, percam a oportunidade de se relacionar com o curioso e encantador universo das Terapias Cognitivo-Comportamentais.

De lá pra cá, me interessei tanto, que assumi o desafio de estruturar e Coordenar uma Especialização de TCC em Belo Horizonte. Um desafio que, muito além de conhecimento, vem me proporcionando acesso a Professores vindos de diferentes partes do Brasil que mandam muito bem no assunto, além de contato com colegas da Psicologia focados nos mais diversos campos de aplicação da TCC e das Terapias de Terceira Onda.

O que essas pessoas têm em comum? Amam o que fazem e que acabaram me inspirando na criação do nosso canal, o CogniMundi®.

Como falei brevemente no material de apresentação, a TCC talvez seja uma das abordagens mais novas da Psicologia, e tem como resultado disso um grande volume de pesquisas realizadas e em andamento, comprovando a eficácia de seu bom uso por Psicólogos de todo o mundo no suporte oferecido a seus pacientes.

Sua eficácia, originalmente comprovada no tratamento da Depressão, hoje se estende ao tratamento do Transtorno Bipolar, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno de Estresse Pós Traumático, Dependência Química, Disfunções Sexuais, Transtornos de Aprendizagem como a Dislexia e a Discalculia, TDAH, Autismo (TEA), além do impacto em quadros clínicos antes estritamente médicos, como hipertensão, enxaqueca, obesidade e diabetes que hoje inclusive reconhecem a importância da nossa atuação dentro de um contexto multidisciplinar, muitas vezes apresentando resultados semelhantes ao de um tratamento farmacológico.

Sim! Pouco a pouco estamos nos tornando os queridinhos dos médicos, principalmente por nossa intima relação com as Neurociências!

A TCC passou por uma ampliação não apenas em sua indicação clínica, mas também do público ao qual se destina. Hoje é comum ver sua aplicabilidade em crianças, jovens, adultos e idosos, não se restringindo a sessões individuais, mas a uma atuação junto a casais, famílias ou grupos nos mais diversos contextos que vão pra muito além do consultório.

Origens e Crescimento no Brasil

Ainda sobre sua origem, a TCC que tem como seu “pai” Aaron Beck, até chegar ao modelo que conhecemos hoje, sofreu forte influência de teóricos como Albert Bandura com sua inclinação social e insatisfação com os modelos estritamente comportamentais baseados em estímulo-resposta e de Albert Ellis (olha outro de origem Psicanalítica aqui minha gente!).

Ellis, com sua Terapia Racional Emotiva Comportamental – TREC, altamente influenciada pela abordagem Humanista Existencial, que justificam não só toda a confusão quanto a utilização dos termos Terapia Cognitiva ou Terapia Cognitivo Comportamental(?), mas também a abertura do diálogo com outras abordagens e a origem das Terapias de Terceira Onda à partir de uma maior ou menor ênfase em um dos três principais componentes: Pensamentos, emoções e comportamentos.

No Brasil, a TCC vem ganhando representatividade à partir do final da década de 80, ou seja, vinte anos após o início de seu movimento no mundo, sendo esta baixa adesão de profissionais brasileiros justificada pelo baixo avanço tecnológico da época e o pouco acesso à literatura científica internacional.

De lá pra cá, no entanto, o interesse vem se intensificando cada vez mais em função de seu caráter cientifico e expectativa de resultados mais breves, o que vem agradando, e muito, o público brasileiro.

Uma das características principais da TCC está em sua orientação voltada para o problema, ou melhor, para a solução deles.

Através da definição de objetivos claros e de uma forte aliança terapêutica estabelecida, Terapeuta e paciente embarcam em um processo colaborativo com foco no presente, comumente marcado no tempo e com a perspectiva de resultados visivelmente mais rápidos frente a outras abordagens mais tradicionais.

As sessões em TCC passam sempre por uma estruturação, visando a otimização do processo terapêutico.

Esse talvez seja um dos receios daqueles que se aventuram a dar os primeiros passos nesta abordagem e também um de seus maiores mitos (Também senti na pele essa emoção!). Somos acostumados, durante a formação acadêmica, a pensar o setting terapêutico como o “local” em que o paciente é quem determina o que fala e quando fala; novos terapeutas, ao se familiarizarem com a TCC tem um receio de que essa nova forma de estruturação enrijeça o processo, deixando-os pouco confortáveis em sua atuação.

Em Busca da Dupla Dinâmica

A diferença é que a TCC deseja que o paciente caminhe no sentido de se tornar seu próprio Terapeuta, e para isso se faz necessário (em boa parte dos casos) que o paciente passe por uma Psicoeducação acerca do problema apresentado, ou seja, o que está acontecendo com ele, por que está acontecendo e como melhorar.

Diante disso, é comum que sejam traçadas metas, estabelecimento de uma ponte entre as sessões, tarefas de casa, feedbacks sobre o que vem acontecendo dentro da relação terapêutica, tudo isso acontecendo de uma forma fluida e nada mecânica - para nosso alívio - e contrariando a ideia de frieza e rigidez que muitos tem, de forma equivocada, sobre a TCC.

Dessa forma, nosso papel como Terapeutas em TCC consiste em auxiliar os pacientes a aprenderem a avaliar seus pensamentos de maneira mais realista e adaptativa e, à partir disso, obterem uma melhora em seu estado emocional e seus comportamentos.

De maneira geral, o êxito da Terapia Cognitivo-Comportamental está literalmente na formação de uma dupla dinâmica!

Tanto no sentido Batman-e-Robin em sua maior cumplicidade, compartilhamento de habilidades distintas e efetividade ao trabalharem juntos em prol das metas estabelecidas no processo terapêutico, quanto no sentido não-estático, em abandonar aquela ideia de uma TCC pronta, onde um protocolo deverá ser seguido à risca com um número cravado de sessões e nada poderá ser feito para além disso.

Tempo é Dinheiro (Será?)

Lembra quando eu disse que “Quem fala sempre fala de algum lugar!”? A TCC teve sua origem nos Estados Unidos junto à pressão do sistema Americano de Saúde e do sempre atual Time is Money!

Desse modo, não é de se admirar que foi necessário um processo de sistematização pautado em um número específico de sessões para o tratamento de determinado transtorno, e a adoção de um protocolo desses tratamentos de forma a garantir maior efetividade e ganhar a confiança da população e espaço no cenário Norte Americano.

Foi apenas durante a Especialização, e ouvindo isso diretamente da boca de grandes estudiosos da TCC pelo Brasil a fora, que compreendi e hoje compartilho com vocês que isso não é uma regra!

Se comparada a outras abordagens, será muito fácil perceber que a prática da TCC talvez seja muito mais estruturada, mas isso nada tem a ver com um prejuízo na relação com o paciente que, ao meu ver, continua sendo a principal ferramenta e fator de sucesso em qualquer processo terapêutico.

Portanto, cabe a nós brasileiros nos munirmos das ferramentas oferecidas pela TCC de forma a oferece-las àqueles que nos procuram, visando uma vida mais plena e significativa sem que para isso seja necessário abrir mão do nosso principal diferencial como brasileiros: o interesse e a habilidade em nos relacionarmos!

AUTOR

WESLLEY CARNEIRO

weslleycarneiro@gmail.com - @wcarneiropsi

‍Psicólogo de formação
‍♂️Psicoterapeuta #ACT e #Mindfulness por paixão
Mineiro idealista e idealizador do @netmet.psi