Quando o Bê-a-bá não funciona!
As Terapias Contextuais ou de Terceira Onda tem conquistado a atenção dos Psicólogos que vem de uma formação tanto Cognitiva quanto Comportamental, por apresentarem estratégias que facilitam e muito o acompanhamento de casos desafiadores, quando o tratamento convencional não apresenta os resultados esperados.
Como ponto de partida, nesse vídeo falaremos da ACT, sigla pronunciada como uma única palavra e não A-C-T e que se trata da Terapia de Aceitação e Compromisso, uma abordagem ainda pouco conhecida no Brasil, mas que tem conquistado minha atenção e espero que a sua também.
Olá pessoal, aqui sou o Wesley, e estou aqui mais uma vez para poder falar um pouquinho sobre a TCC e as terapias contextuais. Em específico, as terapias contextuais. Essa vai ser a primeira oportunidade que a gente vai ter de falar sobre elas, de entender qual a colaboração delas, e eu acabei escolhendo a ACT para ser o início disso tudo.
A escolha do lugar também não foi por acaso, aqui é um local que eu uso para estudar, onde acontecem algumas aulas, e que eu tive o primeiro contato com a ACT em um curso ministrado pela professora Micaele Saban. Ela é uma professora de São Paulo, acho muito legal vocês buscarem informações sobre ela, inclusive ela teve o primeiro livro publicado no Brasil com esse tema, que é esse aqui, hoje vocês vão encontrar até com uma capa um pouco mais atualizada, e ela foi o meu ponto de partida para essa ciência que tem me encantado bastante. A ACT é a Terapia de Aceitação e Compromisso, e eu particularmente optei por dividir o conteúdo em um texto e um vídeo, porque eu acho que é muita coisa, é muita informação, e eu acho que eu não vou conseguir, eu tenho certeza que eu não vou conseguir falar tudo sobre ela aqui, mas eu entendo que a ACT, ao mesmo tempo que ela tem muita informação técnica, principalmente em inglês, porque como eu disse, publicações em português são muito poucas, mas da mesma forma que ela tem muita informação, eu percebo ela como algo extremamente vivencial, experiencial, então eu acho que se eu não tivesse a oportunidade de falar com vocês, eu acho que as coisas não atingiriam o seu propósito.
Acho que o principal para poder falar nesse vídeo é o que a ACT tem, como que ela trabalha. Nossos consultórios estão cada dia mais cheios de pessoas que dizem algo do tipo não quero mais sofrer, tô cansado de sofrer, não quero mais passar por isso, não quero mais sentir medo, eu sinto muita raiva e não quero me sentir assim. A ACT entende que todos os sentimentos que a gente classifica como ruins ou inadequados, eles têm um papel na nossa existência.
Muitos desses comportamentos, desses sentimentos, eles foram selecionados ao longo da evolução humana, e foram muito úteis para que a nossa espécie pudesse sobreviver. Então, de alguma maneira, a gente traz para o paciente a ideia de que não é se livrando dos sofrimentos, dos sentimentos, que a coisa vai acontecer ou que ele vai conseguir uma situação melhor da qual ele se encontra hoje. Acho que uma metáfora bem legal, e metáfora é uma coisa muito presente em ACT , que eu tenho para poder trazer para vocês, é como se fosse um prisioneiro carregando uma bola de ferro.
Sabe aquela bola de ferro que a gente vê muito em desenho animado, amarrada no pé, a pessoa arrastando? Pensa numa caminhada muito longa que essa pessoa vai ter com aquela bola de ferro. Ela vai ter que andar muito devagar, é bem possível que vá causar dores, ela vai arrastar sempre de uma perna, só que existe também um outro lado disso. Se a gente entende essa pessoa que está arrastando essa bola como alguém que vai precisar carregar esse peso para sempre, e a gente vai entender essa bola como se fosse o sofrimento humano, existem duas formas.
Existe essa maneira de você se arrastar carregando, e que vai fazer a caminhada muito mais difícil, ou uma possibilidade de você pegar essa bola de ferro, abraçar e seguir a caminhada. Entendendo que talvez aquela bola não seja tão pesada quanto a gente imagina. Então o papel fundamental da Act é fazer com que as pessoas entendam que o sofrimento é algo que vai estar sempre ali, não adianta você querer tirar.
Tirar esse sofrimento, tirar essa nossa habilidade de, às vezes, classificar algumas coisas, tirar o entendimento do sofrimento e de vários outros comportamentos e sentimentos, seria colocar o ser humano como algo muito vulnerável, e ao contrário disso, a Act explica que se a gente acolhe esse sofrimento, se a gente entende ele como parte da nossa existência, fica muito mais fácil a gente agir em atividades que a gente realmente valoriza e que trazem um real sentido para a nossa vida. É por isso que se chama Terapia de Aceitação e Compromisso. Essa aceitação, ela não é de nenhuma maneira aquela aceitação que a gente acha de tanto faz, sabe? De, ah, vou deixar a coisa acontecer, vou deixar a vida me levar, a proposta definitivamente não é essa.
A gente poderia entender a aceitação como observar os fenômenos, perceber as coisas que acontecem à nossa volta, como eles são, sem julgar, sem entendê-los como ruins, bons, positivos ou negativos, o tempo que a gente passa tentando evitar um sofrimento ou classificando um sentimento como algo ruim e remoendo aquele processo de ruminação, ele é o mesmo tempo que a gente gastaria trabalhando em ações valorizadas, que é o que nos socializa, o que nos motiva. Então vamos pensar, se a gente tem uma pessoa que ela tem uma dificuldade de se relacionar, interações sociais para ela são muito difíceis, essa pessoa ela tem um caminho que é evitar o desconforto de ter que se relacionar, ela vai evitar convites, ela vai passar mais tempo em casa, ela vai se relacionar com poucas pessoas, ela vai ter poucos amigos, e com isso ela acaba também deixando de fazer algo, pegando esse exemplo específico, que é fundamental para a existência dela. Então, se a gente entender que para essa pessoa um dos valores que ela carrega como primordiais é se relacionar, a partir do momento que ela está evitando isso, achando que ela vai deixar de sofrer, ela está sofrendo muito mais porque ela está abrindo a mão de um valor, de algo que é muito importante para ela.
Então, de alguma maneira a act ela ajuda com que a gente trabalhe em prol de relacionar melhor com o sofrimento, e a partir dessa relação conseguir caminhar dentro, rumo ao norte, ao norte que a gente entende como algo fundamental para a nossa vida, para a nossa existência. Essa pessoa ela vai, de alguma maneira, caminhar para uma compreensão de que evitar de sair não está causando o alívio que ela espera, não está causando o conforto, ficar em casa não está sendo confortável, e o sofrimento dela está todo relacionado a ela evitar contatos, a ela não estar com pessoas que ela gostaria de estar. Gente, realmente é muito complexo, mas é muito gostoso, é muito gratificante de aprender, e o que mais me despertou a atenção, e de querer estar aqui hoje falando com vocês, foi me relacionar com os terapeutas act.
Eles são pessoas, pelo que eu tenho percebido até agora, que tem uma visão muito diferente, parecem ser pessoas bem simples, e pessoas com capacidade muito grande de acolher o sofrimento do outro, acolher o que o outro traz para a gente. Eu acho que foi o grande estalo para mim, a grande sacada de eu descobrir que eu precisava entender mais desse assunto, foi um segundo curso que eu fiz agora com a Mônica Valentim, que é uma excelente pessoa, excelente psicóloga, e eu trouxe para ela um paciente que eu estava acompanhando, e que eu não conseguia evoluir no acompanhamento dele, eu estava empacado, acho que a palavra é essa. Eu trazia para ele algumas colocações muito clássicas da TCC, e ele me dizia que ele compreendia tudo aquilo, que ele entendia que tinham várias coisas que estavam erradas, mas que ele não sabia o que fazer, que ele não tinha como mudar.
E aí, eu na posição de terapeuta, achando que, talvez com muito soberba, achando que eu tinha que apresentar para ele uma solução. Essa pessoa me paga, essa pessoa está aqui toda semana, como que eu vou falar com ela que não tem o que fazer, que eu não sei. E foi exatamente a partir de uma intervenção nesse curso da Mônica, que quando eu trouxe esse caso para ela, ela me fez refletir que talvez o que esse paciente mais precisava não era de que eu dissesse para ele qual o caminho a ser seguido, mas que talvez eu dissesse para ele que aquilo ali devia ser realmente difícil, devia ser dolorido para ele.
E que eu podia imaginar o quanto aquilo estava causando incômodo, o quanto ele estava desconfortável com aquilo. E, humildemente, assumi para ele que eu não tinha essas respostas, mas que eu estaria junto dele, que eu estaria ao lado dele em busca de encontrar alternativas e caminhos que levassem a uma… De encontro aos propósitos, de encontro aos valores que ele tinha definido para mim, desde o início, e que eu vim acompanhando ele muito mais como um terapeuta da TCC e agora aplicando os conceitos da ACT. Eu posso dizer para vocês que depois desse momento em que eu conseguia assumir para aquele paciente que eu não teria todas as respostas, e que eu me pus nessa posição um pouco mais humilde, a relação terapêutica mudou.
Eu acho que trazer para ele que o terapeuta, que é uma pessoa que geralmente os pacientes geram tanta expectativa e não vão ter todas as respostas, aproxima os pacientes da humanidade. De eles entenderem que o que eles estão passando não tem uma resposta fácil, mas que eles têm pessoas que eles podem contar e o terapeuta sempre vai ser um grande aliado nessa busca, nesse processo que ele está vivenciando. A ACT ela tem transformado as minhas visões, a minha percepção das coisas.
Mas eu queria também trazer para vocês que aprender ACT não quer dizer que a gente precisa abrir mão de TCC, abrir mão do que a gente vem vivenciando, e principalmente das várias possibilidades que as outras terapias contidas na terceira onda podem trazer para a gente. O que é importante saber dosar, é saber que o nosso compromisso sempre está com o desenvolvimento daquele paciente, com o suporte que a gente oferece para ele. E eu percebi que naquela situação onde eu queria dar uma resposta, eu talvez estivesse muito mais preocupado comigo, com o que eu queria fazer, com o que eu deveria fazer, e acho que em algum momento eu acabei deixando a demanda daquela pessoa que estava na minha frente de lado.
E a ACT foi extremamente útil para isso e vem me estimulando a querer aprender mais, mais, mais e mais. Acho que esse vídeo tem muito mais o intuito de transmitir para vocês uma experiência muito boa que eu tenho passado no conhecimento da ACT. Ter estado agora no primeiro encontro brasileiro de ACT, que devia ter por volta de 100 profissionais, que é 95% de pessoas interessadas no Brasil sobre o tema, reunidas no Rio para conversar a respeito, para entender, com um palestrante internacional, foi uma experiência incrível.
E assim, é algo muito novo, então eu queria trazer para vocês aquele conceito que a gente sabe muito assim de quem chega primeiro bebe água fresca, então procurem saber, procurem entender desse tema. Não vai ser fácil, o volume de publicações é realmente muito baixo, então a gente vai precisar ter uma noção de inglês, mas eu acho que quanto mais gente vem envolvida, eu acho que mais material vai surgir. E desejo que essa experiência de conhecer a ACT seja pelo menos para vocês 1% do que ela tem significado no meu contato com meus pacientes, nos meus atendimentos e principalmente no processo interno.
Nas duas oportunidades que eu tive de fazer os cursos, como eu disse, eles são muito vivenciais, eles são muito experienciais. Eu me submeti as práticas e a conclusão que eu cheguei foi que a ACT ela te ajuda, para você ser ACT, para você atuar com a ACT, você precisa passar pelo fogo. O seu paciente está lá dentro, está na fogueira, então você precisa primeiro sentir o que é essa dor, sentir realmente o que é ACT, para conseguir entrar com seu paciente na fogueira sem se queimar.
Bom, isso é um reflexo que tem sido na maioria dos meus relacionamentos, sempre quando chega aquela pessoa perguntando, e aí como é que você está, o que você está fazendo, eu acabo de alguma forma falando disso e é com muito prazer. Então assim, se esse foi um tema que vocês acharem que é interessante a gente falar mais, mais e mais, vai ser um prazer compartilhar com vocês. Então por isso eu reforço, usem muito esse espaço aqui embaixo para eu poder trazer as curiosidades de vocês, as demandas que vocês têm, para que eu sempre consiga trazer um conteúdo fresquinho e atualizado para a gente trabalhar aqui.
E é isso pessoal, então eu queria convidar vocês para conhecer a ACT. Até a próxima. Legendas pela comunidade Amara.org