Meu Deus!!! O primeiro encontro com um cliente adolescente!
Me lembro do meu primeiro cliente na clínica escola da faculdade. Eu com aquela cara de adolescente atendendo outro adolescente. O que ele iria pensar? Eu já tinha passado pela aprovação dos pais na triagem... ok! Mas, e ele? Os adolescentes são tão críticos, tão debochados...
Hoje quero falar para você da importância do primeiro encontro com o cliente adolescente. Mas, não se assuste, você já passou por isso!
Todos nós já passamos pela experiência de um primeiro encontro, não é mesmo?! O horário e local foram agendados com antecedência e provavelmente você vivenciou sentimentos como: ansiedade, medo e insegurança. Sentimentos decorrentes do fato de ter pouca ou nenhuma informação da pessoa com a qual foi se encontrar e da baixa previsibilidade sobre o que, de fato, ocorreria.
Sabemos que não temos como determinar de forma exata o que poderia acontecer, mas elaboramos algumas expectativas. Assim como nos arrumamos da maneira que achamos mais adequada para a ocasião.
E devemos lembrar que o primeiro encontro sempre parte de algum objetivo. Pode ser desde nossa paquera, até algum assunto sobre trabalho.
E a primeira sessão com nosso cliente não é exceção.
Estamos expostos a um novo contexto diante de uma pessoa desconhecida.
Quando atendemos adolescentes passamos por uma entrevista inicial com os pais/responsáveis e esses nos falam sobre qual a queixa, o que os fizeram procurar um processo terapêutico para seu filho e nos dão algumas informações sobre o nosso futuro cliente adolescente (podemos falar desse momento inicial com os pais em um outro momento.)
Mesmo assim, o adolescente ainda é um desconhecido para nós. Não importa se você é um terapeuta experiente, vocês dois estão se conhecendo agora.
E mesmo se você já teve contato com esse adolescente em um outro contexto, uma orientação escolar, por exemplo, estarão se conhecendo pela primeira vez como terapeuta-cliente. Não podemos antecipar quais serão os resultados dessa interação.
Vamos falar sobre alguns pontos que devemos nos atentar.
Aquele velho ditado: A primeira impressão é a que fica, pode e deve ser levado em conta, principalmente na primeira sessão.
Alguns psicólogos dizem que saem de casa vestidos de psicólogos... Mas, cada um vai encontrar o seu estilo. E se o seu nicho de atuação é bem definido e você trabalha de acordo com o seu propósito de vida, muito provavelmente o seu estilo já estará de acordo com o seu público.
De qualquer maneira, algumas dicas de autores experientes podem nos auxiliar: Conte e Brandão (2012) apontam que a aparência pode interferir nas percepções e análises que o cliente faz do profissional. Portanto, qualquer exagero deve ser evitado, desde a maquiagem, até o vestuário ou perfume. Da mesma forma, o modo como o cliente se veste também nos fornecem indícios da maneira como ele se coloca no mundo.
Ou seja, se você sabe a maneira como se coloca no mundo você projeta em suas roupas. Não sou especialista nesse assunto, é só uma observação, mas é muito importante sabermos se passamos a imagem que queremos passar para o mundo.
OK! Estamos prontos para o nosso primeiro encontro!
Detalhes sobre a sala de atendimento
Agora vamos falar sobre o local.
É fundamental que nossa sala de atendimento esteja arrumada para receber nosso cliente adolescente. Se você divide ou subloca uma sala, precisa ficar sempre atento se a sala está reservada para você. Deve verificar se ela está limpa e organizada para receber o seu cliente adolescente.
Já falei em outro texto que adolescente não gosta de ser comparado ou tratado como criança. Se sua sala também está “decorada” ou “preparada” para atendimento infantil, deixe claro para o adolescente que essa sala é usada por outros profissionais ou que você também atende a crianças.
Parece uma colocação boba, mas você vai perceber que ao chegar a sua sala ele vai observar cada cantinho e essa dúvida vai pairar sobre sua cabecinha cheia de questionamentos. E um deles será: “- essa mulher acha que sou criança para ser atendido aqui?” ou “-minha mãe/pai me trouxe para um especialista em crianças?”.
A ideia é deixá-lo o mais confortável possível e entendendo que aquele espaço é dele e para ele.
Sendo assim, vale chegarmos alguns minutos antes da sessão, pois enquanto nos preparamos para a mesma, também vamos nos organizando e ficando mais à vontade com a situação.
Na sala, vale notar se a iluminação e a temperatura estão adequadas, se seu lenço de papel está lá e se seu relógio está funcionando. Um relógio parado, por exemplo, pode ser um inconveniente, uma vez que uma das funções do terapeuta é conduzir a sessão dentro de seus 50 minutos.
Afinal é o primeiro encontro! E quanto mais situações que nos deixam desconfortáveis foram evitadas, melhor.
Mas, caso ocorram imprevistos desse tipo, não é necessário que se desespere. Estes eventos são passíveis de correção. Basta identificá-los e verificar a melhor alternativa disponível no momento, você pode pedir licença e buscar um lenço ou um copo d’água para o cliente, se perceber que essa será a melhor saída.
O ambiente terapêutico é um ambiente onde duas pessoas estão se relacionando e aprendendo a melhor maneira de interagir com o mundo ao seu redor. Claro, um é o especialista em comportamento humano que “guia” a sessão e o outro é um jovem ser em formação, mas que, mesmo sendo esse ser jovem em formação tem sua bagagem e nos ensinará muito nessa nova jornada juntos.
Você não precisa ser perfeito, mas, precisa ser cuidadoso.
Pronto!
Vamos iniciar a sessão.
Vamos ao encontro do nosso adolescente na recepção.
A forma de cumprimentar um adolescente, não tem regras, mas prefiro iniciar com um forte aperto de mão e um sorriso. Afinal, como, normalmente adolescentes são mais desconfiados o excesso de intimidade vindo de um abraço de um estranho não me parece conveniente. Mas alguns são mais amorosos e se esse abraço vier ao seu encontro, corresponda da forma mais gostosa do mundo!
A interação deve começar da forma mais natural possível.
No início você se apresentará e também fará perguntas a fim de verificar dados pessoais do cliente e o motivo que o levou a procurar atendimento. Vou dar um exemplo das perguntas que faço nesse primeiro encontro. Aguardamos a resposta e vamos continuando, a não ser que o próprio adolescente já inicie com alguma pergunta ou tenha uma no meio desse caminho.
Nesse primeiro encontro é fundamental que você explique para o adolescente o que é e como funciona um processo terapêutico.
Essas perguntas iniciais também usamos com clientes adultos e você me pergunta: Qual a diferença?
A diferença é que o adolescente precisa de coisas concretas. Mais que para os adultos, explicar para um adolescente o que é o processo terapêutico e como esse processo vai afetar a sua vida e o ambiente ao seu redor é a chave para o vínculo.
Os adolescentes vão chegar cheio de preconceitos sobre terapia. Aquela velha história de que terapia é coisa de doido, que só o amigo que tem problemas na escola que faz ou a tia que é louca.
Normalmente os adolescentes chegam a terapia por uma demanda externa, vinda dos pais ou da escola. Ele não desejou, inicialmente, estar ali. Algumas vezes, sim, mas mesmo assim ele não tem uma ideia clara de como isso tudo funciona.
Não podemos esquecer de falar do sigilo.
Falar sobre o sigilo no encontro inicial é muito importante. Ele deve se sentir seguro, saber que aquele espaço e tempo são dele e de mais ninguém, independentemente de onde vem a demanda ou de quem paga por isso.
Não se esqueça que o primeiro encontro é o primeiro encontro, ou seja, espera-se que existam outros encontros com o adolescente. Sendo assim, procure seguir o ritmo dele, sem “bombardeá-lo” de perguntas logo no início, pois terá outras oportunidades para preencher as lacunas existentes com as informações necessárias à análise funcional.
Lembre-se de perguntá-lo se ele tem alguma pergunta, alguma dúvida. Seja sobre o processo ou até mesmo sobre você.
O próprio reconhecimento de que não consegue lidar com determinadas questões sozinho e precisa de ajuda, já pode ser uma condição desconfortável para o adolescente, de modo que algumas revelações que envolvam maior grau de sofrimento talvez exijam um tempo maior para que sejam expostas. Cabe ao terapeuta sensibilidade para perceber isso.
Na inicial com os pais você já falou do contrato: horário, valores, atrasos e reposições. Mas é muito importante que o adolescente fique ciente de alguns tópicos também.
Perguntamos se o dia e horário estão bons para ele. É muito importante que fiquemos atentos se tem algum empecilho com esse dia e horário que possa afetar o processo. Por exemplo, marcar no dia da aula de guitarra e ele ficar muito incomodado em ter perdido a aula para fazer “essa tal terapia”.
O mais importante é achar um horário em que ele possa estar confortável.
Se no início não for possível, pois o terapeuta não tem outro horário ou é o único em que os pais podem trazê-lo, devemos deixá-lo ciente que vamos trocar o horário assim que possível e, claro, não perdermos a oportunidade de trabalhar essa questão: como ele reage quando as coisas saem ao seu controle, por exemplo.
Ele deve saber que a sessão tem 50 minutos e se atrasar vamos perder um pedaço da sessão, que quando não puder ir deve avisar, e nesse caso, cada terapeuta tem suas normas quanto a reposições e você deve passar isso a ele.
Adolescentes gostam de regras claras e concretas.
Os valores podem ficar apenas com o responsável mesmo. Ainda não conhecemos esse adolescente e não sabemos como ele lida com isso. Caso ele pergunte podemos dizer que já conversamos com os pais e nesse primeiro momento ele não precisa se preocupar com isso. Cada caso é um caso e algumas vezes essa questão, dinheiro, pode ser muito importante de trabalhar, mas não agora no primeiro encontro que estamos criando vínculos.
A maneira como o adolescente lida com o que foi previsto no contrato pode também adicionar informações relevantes sobre seus comportamentos extra consultório, em especial no que se refere à maneira como responde às regras.
Dado o tempo previsto para a sessão ou após a conclusão dos objetivos traçados para o primeiro encontro podemos encerrar.
Próximo ao término do primeiro encontro é interessante que o terapeuta investigue como foi a sessão para o adolescente e quais sentimentos ele vivenciou, pois assim é possível tecer uma ideia do que o primeiro encontro causou no adolescente, o que talvez seja traduzido por emoções como alívio, ansiedade, tristeza ou alegria.
Nessa etapa, o terapeuta pode relatar brevemente o que foi exposto pelo adolescente, tanto para confirmar as informações, quanto para demonstrar sua atenção durante o encontro.
Uma das maiores queixas dos adolescentes é que não há quem os escute ou os entenda. Demostrar que você ouviu e que aquilo que ele sente e pensa são importantes ajuda –d e muito – no vínculo terapêutico.
Gosto de encerrar dizendo: “- Nos vemos semana que vem nesse mesmo dia e horário, ok?”. Dá a sensação ao adolescente que você se importa e quer saber mais dele.
Se ao longo do primeiro encontro você foi capaz de propiciar um ambiente acolhedor e estabelecer um vínculo de confiança, de modo que o adolescente sinta que encontrou um lugar no qual poderá se expor abertamente e se disponha a retornar para o atendimento, então você atingiu os principais objetivos do primeiro encontro.
Os próximos encontros serão, talvez, mais tranquilos. Afinal, vocês já se conhecem e iniciaram com um vínculo: que venha o processo terapêutico.
Agora, quero saber como você lida com seu cliente adolescente na primeira sessão. Tem alguma dica? Alguma ferramenta?
Em breve vou te contar sobre uma ferramenta que eu costumo utilizar.
Até a próxima!
:-)
Conte, F. C, S; Brandão, M. Z. S. (2012). Evento a que o clínico analítico-comportamental deve atentar nos primeiros encontros: das vestimentas aos relatos e comportamentos clinicamente relevantes. In.: Borges, N. B.: Cassas, F, A. Clínica Analítico Comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.
Marmo, A. (2012). A que eventos o clínico analítico-comportamental deve estar atento nos encontros iniciais?. In.: Borges, N. B.: Cassas, F, A. Clínica Analítico Comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.
Silveira, J. M. (2012). A apresentação do clínico, o contrato e a estrutura dos encontros iniciais na clínica analítico-comportamental. In.: Borges, N. B.: Cassas, F, A. Clínica Analítico Comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.
RENATA LOTT
renata@acompanhar.com.br
Sou psicóloga (CRP 04/19886), formada há mais de 20 anos e, desde o meu primeiro estágio, no primeiro ano da faculdade, eu trabalho com adolescentes e seus familiares.
Construí minha clínica especializada em acompanhamento à criança e ao adolescente um ano antes de me formar e, desde formada, atendo - como psicóloga clínica - adolescentes e seus familiares.
Sou apaixonada pela fase da adolescência, fase esta que tantos (leigos e profissiona